Reduzir, reutilizar e reciclar

Gerenciamento adequado do lixo gera renda

O Brasil é um destino muito diversificado. Com centros urbanos, cidades históricas, praias, montanhas, cerrado, lugares paradisíacos, verdadeiros refúgios que atraem milhares de turistas todos os anos. Com a crescente demanda de visitantes, aumenta também a oferta de serviços, como meios de hospedagem e estabelecimentos gastronômicos, empresas que acabam por gerar impactos ao meio ambiente. Para que o destino seja mantido e o turismo aconteça por muito tempo, esse impacto deve ser reduzido ao máximo, sobretudo no que diz respeito ao lixo produzido diariamente.

De acordo com o mais recente Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, publicado no ano passado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o Brasil foi responsável pela geração diária de mais de 209 toneladas de lixo em 2013. Número 4% maior que no ano anterior, cujo índice foi de 201 toneladas/dia. Apesar da entidade não ter uma pesquisa voltada especificamente para os setores hoteleiro e gastronômico, é possível ter uma ideia consistente da importância de um sistema de gestão de lixo nesses empreendimentos.

“A geração diária de resíduos em um hotel e/ou resort pode variar muito de acordo com a localidade onde está estabelecido. É de grande importância que o setor se mobilize e elabore diretrizes para que esses empreendimentos façam um plano de gerenciamento de seu lixo”, afirma Gabriela Otero, coordenadora técnica da Abrelpe. A profissional explica que o hotel é responsável pelo gerenciamento de seus resíduos e deve contratar uma empresa especializada para a coleta e disposição final ambientalmente adequada, que é o aterro sanitário.

De onde vem e pra onde vai?

A composição dos resíduos sólidos urbanos gerados no Brasil é 50% de fração orgânica (restos de comida), cerca de 33% de fração seca reciclável (papel/papelão, plásticos, vidros, metais) e 17% de rejeitos (resíduos que não possuem potencial de aproveitamento atualmente), como conta Gabriela Otero.

Segundo a coordenadora, é possível observar que estabelecimentos que pertencem a redes internacionais de hotelaria possuem ações nesse sentido, “mas não podemos afirmar que são efetivas”. Para Gabriela, este é um assunto a ser desenvolvido pelo setor, que possui um grande potencial de contribuição com a gestão dos resíduos sólidos nas localidades onde estão instaladas.

“O plano de gerenciamento de resíduos sólidos é uma ferramenta estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos para ser elaborada pelos geradores privados; portanto, mais do que uma questão de custo, é uma questão de conformidade legal do estabelecimento com a lei federal e também com as diretrizes estaduais e municipais, e que devem ser verificadas”.

Gabriela afirma que os principais desafios dizem respeito ao envolvimento e comprometimento dos recursos humanos do estabelecimento em fazer a gestão adequada dos resíduos sólidos, o que compreenderá desde a aprovação de um orçamento para a contratação de um especialista para o desenvolvimento do plano de gerenciamento, passando pela capacitação dos funcionários para a execução dos procedimentos, comunicação aos hóspedes, adequação da estrutura para o correto armazenamento dos resíduos, entre outros.

“Apesar dos desafios mencionados acima, são muitas as vantagens em se assumir um compromisso socioambiental com a gestão dos resíduos sólidos. A começar pela economia de recursos financeiros que o gerenciamento resulta em médio e longo prazo”.

A profissional exemplifica: “a separação dos resíduos em duas frações já possibilita o estabelecimento pagar um valor menor à prestadora de serviço de coleta e destinação em aterro sanitário. Se a fração orgânica apresentar somente restos de alimentos, ela pode ser coletada de forma gratuita ou mesmo comprada por uma empresa que realize seu tratamento através da compostagem ou outra tecnologia”, sugere.

Além da economia, a especialista diz que ao assumir esse compromisso, o estabelecimento terá ainda um diferencial perante aos concorrentes e poderá atrair mais hóspedes, especialmente os corporativos cujas empresas possuam compromissos socioambientais.

Cases de sucesso

Conhecidos por seus programas de sustentabilidade e acessibilidade, os hotéis fazenda Campos do Sonhos e Parque dos Sonhos, localizados em Socorro, interior de São Paulo, geram aproximadamente dois mil quilos de lixo mensalmente. Para dar uma destinação adequada a esses resíduos, os empreendimentos criaram um centro de triagem de recicláveis, um centro de compostagem para resíduos orgânicos, e um minhocário, que aproveita o resultado da compostagem. “Encaramos esse local como uma unidade de negócios que gera receitas importantes para o empreendimento com a venda dos produtos triados e não reutilizados”, explica José Fernandes Franco, diretor geral das unidades.

De acordo com o empresário, esse setor vende humos para a agroindústria utilizar como adubo na horta orgânica; plásticos e latas de metais são reutilizados pelo departamento de recreação nas atividades educativas; os efluentes do hotel são tratados com bactérias e o resultado é usado para a irrigação das pastagens; os potes de vidro são higienizados e reutilizados por uma fábrica de doces própria do hotel e o resto de comida alimenta os porcos da fazenda. “Somente utilizamos madeira de reflorestamento ou reciclada e os descartes dessa matéria-prima são usados no aquecimento das saunas e piscina. Além disso, uma das atrações do hotel é a visita monitorada a essa área, sucesso entre os hóspedes e visitantes”.

Para o gestor, é necessário que os empresários enxerguem a sustentabilidade como uma estratégia muito interessante para o negócio. Depois, é preciso convencer a equipe que esse trabalho é importante quando se pensa em sustentabilidade do negócio no mercado e para a manutenção e geração de emprego e renda. “Seria interessante também criar um setor próprio na companhia para lidar com a questão, como se fosse uma empresa dentro da empresa, com gerenciamento, equipe treinada, apoio técnico, estrutura adequada e um controle mostrando que sustentabilidade dá lucro”, sugere Franco.

Os diretores do Mavsa Resort Convention & Spa, localizado em Cesário Lange (SP), também acreditam que os cuidados com o meio ambiente devem ser levados a sério. Tanto que em 2011 criou o Comitê de Sustentabilidade, o qual originou a formação da Equipe GFVERDE, em fevereiro de 2013. O grupo, formado por integrantes de diversos setores do resort, tem como objetivo discutir situações, levantar soluções e dividir experiências nas áreas ambiental, social e econômica. “A GFVERDE é responsável pela organização de atividades de conscientização dos colaboradores, como palestras e treinamentos com temas que envolvam o meio ambiente, a economia de recursos e o consumo consciente”, conta o assistente de Meio Ambiente do resort, Michel Goldoni Pires.

Com o programa de coleta seletiva e de conscientização dos colaboradores, o empreendimento reduziu de 19 para nove as toneladas de lixo produzidas por mês, como conta Pires, para quem o maior desafio é a conscientização dos envolvidos nos projetos. “Conseguir orientar o colaborador e fazer com que este se adapte às novas diretrizes de meio ambiente, além de realizar a manutenção da conscientização para que os participantes se mantenham atentos e engajados nas questões é, sem dúvida, um desafio. Outro ponto que cabe destacar é a dificuldade na busca de empresas e órgãos que cooperem em termos de prestação de serviço ou divulgação de informação”, completa.

Seguindo essa linha de pensamento, o Vitória Concept, em Campinas (SP), implantou um programa de reciclagem e treinamento dos colaboradores. “Para facilitar a divisão, passamos a utilizar duas cores de sacos: marrom para os resíduos orgânicos, e preto para os recicláveis”, explica a analista ambiental do grupo, Letícia Mancini.

A profissional conta o hotel gerou mensalmente no ano passado 208,4 mil litros de recicláveis e 262.181 litros de orgânicos. “Nossos recicláveis são recolhidos gratuitamente pela prefeitura e distribuídos entre as cooperativas filiadas. Já com a destinação de resíduos perigosos gastamos, anualmente, algo em torno de R$ 600,00 para reciclar pilhas e baterias; e R$ 2 mil para descarte de lâmpadas queimadas”, contabiliza a analista, que diz que o hotel pretende instaurar algum tipo de programa que agregue valor aos resíduos orgânicos, evitando, assim, sua disposição nos aterros sanitários”.

Um exemplo internacional é o Tierra Atacama, no Chile. O hotel produz mensalmente 170 kg de lixo reciclável, que tem como destino empresas especializadas. Já os resíduos orgânicos são utilizados no próprio hotel. Eles possuem um centro de compostagem com quatro reservatórios com capacidade para 300 kg cada. “Nosso programa de gestão do lixo foi criado em janeiro de 2014 e nossa meta é que ele ajude a reduzir em 20% o total de resíduos da propriedade”, afirma Veronica Soto, gerente de comunicação da rede Tierra.

Para a profissional, a mudança da mentalidade deve começar da diretoria até o operacional para então chegar ao hóspede. “Dessa maneira podemos identificar os pontos fracos da operação e ajustar o treinamento com foco em cada uma das áreas do hotel. Quando os funcionários conhecem e aprendem sobre a gestão de resíduos e tomam consciência de como podem impactar no meio ambiente, tentam auxiliar ao máximo na redução do lixo, inclusive em casa”, afirma.

Lei e punições

A gestão correta do lixo no Brasil está apoiada na lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos (12.305/2010), que possui âmbito nacional e é aplicada tanto para o setor público quanto para o privado, como afirma a advogada ambientalista, Telma Bartholomeu Silva.

Dentre vários pontos importantes previstos pela legislação, a especialista destaca a diretriz de não geração; redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos; a proibição de lixões; a previsão do instrumento da logística reversa; a participação do consumidor, que deve acondicionar adequadamente os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis para coleta ou devolução. “Ressalta-se que muitos estados e até municípios já possuíam leis de coleta seletiva, mas até a publicação da legislação não tínhamos esta obrigatoriedade em caráter nacional e uma política estabelecida para o setor”.

Segundo Telma, o segmento industrial, no entanto, já está mais adequado à gestão de resíduos e vem se estruturando para cumprir novos preceitos trazidos pela lei, notadamente na área da logística reversa e responsabilidade compartilhada. “Já o comércio e os prestadores de serviços ainda têm um longo caminho a percorrer para se adequarem às novas diretrizes impostas pela legislação de resíduos, muitas vezes ainda desconhecidas e não inseridas na prática do negócio no dia a dia”.

O descumprimento pode acarretar em uma série de punições aos empreendedores, como conta a advogada. Entre elas podem ser aplicadas penalidades da lei de crimes ambientais – nº 9.605/98 -, bem como multas e, dependendo do caso, eventual interdição do estabelecimento. “Não tenho visto uma prática de gestão de lixo de forma estruturada para estes segmentos, pois o assunto ainda é novo e a adequação destes comerciantes e/ou prestadores de serviços deve ser customizada”, diz.

Entretanto, segundo a profissional, alguns hotéis focados em ecoturismo ou estabelecimentos de grupos que possuem a diretriz de sustentabilidade no seu DNA podem ter práticas mais eficazes e ter um maior investimento em programas de gestão do lixo, “mas no geral este é um tema ainda a ser trabalhado com o segmento”.

Entre os processos que devem ser estruturados em um empreendimento, na opinião de Telma, está o investimento no treinamento da alta gerência e das equipes operacionais. “Não basta mais ter lixeirinhas coloridas nas áreas do hotel. O que o estabelecimento precisa é apresentar um plano de gerenciamento dos seus resíduos e ter uma equipe bem treinada”, conclui.


 Oportunidades

Redução dos valores pagos (ou até mesmo gratuidade) à prestadora de serviço de coleta e destinação em aterro sanitárioDiferencial perante os concorrentesGeração de receita com a venda dos produtos triados e não reutilizados

DesafiosAdequação da estrutura para o correto armazenamentoCapacitação dos funcionáriosComunicação e envolvimento dos hóspedes


 Dicas simples e práticas para uma melhor gestão do lixo

Utilizando como base os três R’s – Reduzir, Reutilizar e Reciclar – Silvia de Souza Costa, jornalista e autora do livro ‘Lixo Mínimo, uma proposta ecológica para hotelaria’, publicado pela editora Senac, descreve um passo a passo do que pode ser feito em um empreendimento hoteleiro para melhorar a gestão dos resíduos sólidos. Confira.

Primeiro, é necessário identificar o tipo de lixo gerado, que pode ser dividido em:Orgânico: o que desmancha: restos de animais ou vegetaisInorgânico: o que não desmancha: embalagensTóxico: o que merece destinação especial: pilhas, baterias, latas de tinta e inseticida, espumas, embalagens de remédio

“Importante salientar que determinados itens, como absorventes higiênicos, chicletes e fraldas descartáveis estão no grupo do lixo que é simultaneamente orgânico e inorgânico, de decomposição muito lenta. Em função dessa característica específica, não podem ser misturados aos demais resíduos”.

Depois, deve-se separar os resíduos. Sendo assim, cada ambiente precisa ter lixeiras específicas para cada tipo de lixo e, no restaurante, deve-se atentar para alguns processos:

– Antes de ir para o lixo, restos de carne devem ser embrulhados em jornal- Garrafas precisam ser lavadas- É necessário abrir e lavar as embalagens do tipo longa vida – Latas devem ser armazenadas sem rótulo de papel- Papel alumínio e filme precisam ser lavados e pendurados para secar

“As lixeiras utilizadas em todo o hotel devem guardar certa familiaridade entre si. Assim, funcionários e hóspedes vão mentalizando o sistema e automatizando a separação. Mensagens espalhadas por todo o hotel também tendem a reforçar o espírito e as propostas do programa de redução de lixo. Nada de informações truncadas. O segredo é ser o mais objetivo possível”.

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