Prevenção de incêndio

Falta de padrão das normas técnicas é apontada por especialistas como entrave às melhores práticas

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro do Cobre – Procobre – e o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo mapeou 780 edifícios com o objetivo de avaliar se eles estão atendendo aos requisitos da instrução técnica IT-41, que prevê a inspeção visual das instalações elétricas de baixa tensão para gerar o auto de vistoria. A amostra abrangeu construções comerciais, residenciais e industriais com mais de cinco anos.

O resultado apontou que apenas 40% das edificações haviam realizado a manutenção ou reforma prévia de suas instalações elétricas de acordo com os requisitos da IT-41, que é estabelecida pelo corpo de bombeiros. Das 780 unidades avaliadas, 14% receberam o ‘Comunique-se’, indicando necessidade de reparo no sistema elétrico. A pesquisa indicou, ainda, que a maior incidência de irregularidade foi verificada nos imóveis entre 10 e 15 anos (18%), e a menor entre as indústrias (9%). Nas que receberam o alerta foram identificadas partes vivas expostas (42%), instalações elétricas do sistema de segurança desprotegidas contra o fogo (26%), condutores elétricos instalados de forma inadequada (25%) e condutores elétricos sem isolamento ou danificados (21%).

Hilton Moreno, consultor do Programa Casa Segura, também promovido por iniciativa do Procobre, informa que no que tange às instalações elétricas de baixa tensão de hotéis e restaurantes, valem as regras gerais da norma ABNT NBR 5410 e as específicas da ABNT NBR 13570, exigidas para locais de afluência de público. Neste segundo caso, de acordo com o especialista, a norma é de aplicação compulsória nos hotéis com capacidade para 50 ou mais pessoas e nos restaurantes com capacidade para 100 ou mais pessoas.

“Embora prevista no texto da NBR 5410, a inspeção na instalação elétrica praticamente não é exigida por nenhuma autoridade nem por entidades de classe. A única exceção é justamente a IT 41, que exige que um profissional responsável realize uma inspeção visual da instalação e apresente uma declaração de que ela atende completamente os requisitos da norma, mas ela vigora unicamente no Estado de São Paulo, desde março de 2011.

Moreno lembra que as sobrecargas nas instalações elétricas provocadas pelo aumento no número de equipamentos sem a consequente atualização das instalações para acompanhar esse crescimento está entre as principais causas de incêndio, assim como fiações mal dimensionadas e instaladas de forma inadequada; e a falta geral de manutenção nos diversos componentes da instalação, que envelhece naturalmente.

“A realização de inspeções periódicas nas instalações elétricas dos hotéis e restaurantes por profissionais qualificados seguidas da execução das ações corretivas e preventivas necessárias identificadas nessas inspeções é a medida mais eficaz na prevenção de acidentes em geral e incêndios em particular. Além disso, manter a instalação elétrica dos estabelecimentos em ordem evita paradas inesperadas que provocam perdas financeiras para o proprietário e incômodos para os clientes. A troca de componentes antigos da instalação por outros mais novos é também garantia de aumento da confiabilidade do funcionamento da instalação, além de contribuir para a redução das perdas de energia”, explica o consultor.

Falta atualização

Para o engenheiro eletricista Ilan Pacheco, diretor corporativo da ICS Engenharia, empresa especializada em proteção contra incêndio, especificamente, essa falta de padrão nas normas técnicas é um dos entraves na adoção de melhores práticas no País. “Existe um trabalho sendo desenvolvido no Brasil para unificar estas normas, uma vez que hoje cada estado tem a sua, o que dificulta termos uma padronização de segurança de proteção contra incêndio. Infelizmente essas normas brasileiras estão defasadas em relação às tecnologias atuais e às exigências internacionais”, afirma.

Por esse motivo, o engenheiro diz que costuma recomendar que os empreendimentos e estabelecimentos sigam as exigências normativas internacionais descritas pela National Fire Protection Association (NFPA). “A NFPA é a mais prestigiada referência mundial em normas e regulamentos técnicos de Segurança contra Incêndio. Constituída em 1896, ela reúne mais de 79 mil profissionais em todo o mundo e é internacionalmente reconhecida como uma autoridade em matéria de segurança pública e de prevenção de incêndio”.

Pacheco diz que deve sempre ser atribuída ao proprietário ou responsável pelo empreendimento a responsabilidade da inspeção ou manutenção dos sistemas de prevenção. No caso de sistemas de detecção e alarme de incêndio, o responsável deve seguir as exigências da norma brasileira NBR 17240, capítulo 10, que relaciona os itens a serem testados no sistema. Já a emissão da liberação para funcionamento é sempre de responsabilidade do Corpo de Bombeiros local, que verifica se a concepção do projeto foi atendida conforme exigências normativas, assim como, a funcionalidade dos sistemas.

Como pontos mais vulneráveis ou que merecem atenção especial em hotéis e restaurantes, o engenheiro cita as instalações de luminárias e as cozinhas industriais. “Estes estabelecimentos têm todos os elementos necessários para incêndios devastadores, desastres que podem comprometer a sua operação por um dia, por um mês, ou para sempre”, pondera Ilan, para quem a manutenção preventiva será sempre a melhor forma de se manter um sistema de proteção contra incêndio. De acordo com ele, essas manutenções devem ser realizadas, no mínimo, a cada três meses, dependendo da categoria da operação e do tamanho do sistema instalado.

A opinião do engenheiro é de que a maioria dos estabelecimentos comerciais está muito longe das necessidades básicas de prevenção contra incêndio e que a preocupação de boa parte se restringe ao mínimo necessário para atender as exigências do Corpo de Bombeiros. “É muito difícil gerir uma crise após a incidência de um sinistro. Incêndios geram enormes prejuízos às operações e à imagem das empresas. Por isso alertamos para a importância dos projetos, a qualidade e certificação dos equipamentos instalados, a capacitação das empresas de montagem, e as manutenções preventivas. “Estamos muito longe dos padrões internacionais. Enquanto lá fora as normas são atualizadas a cada dois anos, o Brasil possui normas em vigor há mais de dez anos, sem nenhuma revisão”, conclui.

Deixe uma resposta