Por que o Brasil recebe poucos turistas internacionais

Não é novidade que há alguns anos a promoção internacional do Brasil fica a desejar, tanto pela falta de estratégia a longo prazo quanto pela diversificação de produtos, que geralmente se resumem ao clichê de sol, mar, praia e carnaval. Esse trabalho de promoção, ainda insuficiente, impacta no número de turistas estrangeiros no País, que não ultrapassa os sete milhões por ano. Inclusive, houve uma redução de 4,1% em 2019, totalizando 6.353 milhões (ante 6.621 milhões de 2018).

De acordo com o presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, essa queda tem a ver com o enfraquecimento da participação da Argentina. “Meio milhão de turistas argentinos deixaram de vir na comparação com 2018, e trata-se do principal emissor de turistas ao Brasil. Se tivéssemos recebido o mesmo número de argentinos teríamos tido aumento histórico e finalmente ultrapassado a barreira de sete milhões, também por conta da isenção de visto a turistas americanos, australianos, canadenses e japoneses. Todas as demais nacionalidades emitiram mais turistas ao Brasil em 2019, com aumento variando entre 4% e 26%”, justifica.

Rio de Janeiro é um dos destaques do Brasil

No entanto, agora com a realidade da Covid-19 os desafios são redobrados para melhorar os indicadores, até porque o turismo internacional vai demorar mais tempo para se recuperar do que as viagens domésticas. A principal lição de casa hoje é reinventar a oferta de produtos existentes e melhorar a imagem do Brasil lá fora, segundo especialistas ouvidas pela Hotelnews.

“O Brasil nos últimos anos não tem apresentado novas opções para o mercado internacional, nem mesmo em destinos como Argentina, Portugal e Itália, onde somos mais conhecidos. Vale lembrar que potencial é uma coisa e produto turístico a ser experimentado é outra. Existe muito sol e praia, mas a experiência do turista precisa de mais atrativos e engajamento com a comunidade local”, avalia Jeanine Pires, especialista em marketing turístico, diretora do evento Matcher e ex-presidente da Embratur de 2006 a 2010.

Ela reforça ainda que a imagem de um país é composta por diferentes acontecimentos, e o turismo pode ajudar neste sentido. “Há vários fatores e períodos históricos para construir a imagem do Brasil, e o turismo há muito tempo não colabora com isso. Estamos fora de um cenário muito competitivo e questões envolvendo a Amazônia e os escândalos políticos têm influenciado nessa impressão negativa”, diz Jeanine.

O desenvolvimento sustentável é importante porque as empresas não querem investir em um país que não cuida do meio ambiente. Com a Covid-19, esse tema de sustentabilidade econômica, ambiental e cultural ganha uma dimensão maior. Não é bandeira de esquerda, mas sim um fato. A imagem do Brasil está machucada e fragilizada”.

Jeanine Pires
Envolvimento com a comunidade local deveria ganhar mais destaque

Neste sentido, criar pautas positivas do Brasil seria uma das soluções para amenizar a percepção ruim no Exterior, segundo a diretora executiva da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), Simone Scorsato. “Precisamos desenvolver uma pauta positiva sobre o que o País ou as organizações têm feito para ajudar as pessoas e comunidades. O principal problema do momento é o descontrole da pandemia”.

E a falta de controle das contaminações atrapalha a curto e médio prazo o setor, pondera Jeanine. “Ainda é um cenário incerto por conta da falta de testes em massa e da espera por uma vacina. Ficamos com uma imagem ainda mais negativa, de quem controlou mal a pandemia”.

Promoção paralisada

Por conta da crise, o Congresso Nacional determinou, durante a tramitação da Medida Provisória 907/2019 (transformada na Lei 14.002/2020, sancionada em maio pelo presidente Jair Bolsonaro), que a Embratur deve atuar junto ao Ministério do Turismo até seis meses após o fim do decreto de estado de calamidade para promover o turismo doméstico.

“Estamos trabalhando em campanhas com o foco de que ser brasileiro é estar perto de um destino incrível, é viver onde o mundo sonha em tirar férias. Em um raio de 200 quilômetros temos gastronomia, negócios, natureza, sol, praia. Chegou a hora do brasileiro conhecer a fundo todo o potencial turístico de seu país e o turismo de proximidade será o primeiro indutor para a retomada”, explica Gilson Machado Neto.

Essa paralisação da promoção do Brasil no Exterior deveria ser mais bem avaliada, acredita Simone. “Não estamos no momento favorável de nos promover turisticamente de uma forma ampla, mas é necessário ter uma estratégia de posicionamento do destino Brasil diante do mundo. No meu ponto de vista, deve existir um esforço também do trade para relembrar o nosso país como destino turístico neste período”.

Nova agência

Recentemente, a Embratur foi transformada em agência e deixou de depender de recursos do orçamento da União. O órgão poderá ainda assinar contratos de prestação de serviços com pessoas físicas ou empresas. A proposta da nova agência é atuar de forma mais flexível e autônoma, podendo desenvolver ações e parcerias.

“Essa transformação é essencial também para que possamos buscar mais recursos e competir de igual para igual com outros países como México, Argentina e Peru, que historicamente investem mais que o Brasil e acabam conquistando parcela dos viajantes que deveriam vir ao nosso País”, comenta Gilson.

Essa ideia de transformar o instituto em agência existia há muito tempo, segundo Jeanine Pires. “Temos o passado recente de uma Embratur sem recursos, sem estratégia e capacidade para fazer parcerias. Agora virou agência, que é um projeto que existe desde a minha época, mas não foi para frente por falta de fonte de financiamento. A indústria turística privada do Brasil é pequena e foca mais no doméstico”.

O colegiado deste novo modelo é extremamente restrito, com poucas entidades de turismo, e não temos participação dos fóruns dos Estados. Não adianta criar uma agência se a representatividade do setor privado é limitada e baixa. Estamos abertos para participar de um processo de discussão e planejamento estratégico”.

Simone Scorsato

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