O Rolling Stone da gastronomia

Chef Emmanuel Bassoleil quer chegar aos 70 criando

“Quero ser, quem sabe, um Rolling Stone da gastronomia”, brincou Emmanuel Bassoleil, chef do restaurante Skye, do hotel Unique, referindo-se à admiração pelos integrantes da banda inglesa que, com mais de 50 anos de carreira, ainda reúnem milhões de fãs em seus shows e influenciam pessoas em todo o mundo. “Os caras já passaram por três gerações e estão na ativa. Quero ser um desses. Chegar aos 70 anos criando meus pratos, produzindo meus jantares”, confidencia.

Nascido na cidade de Dijon, na França, em 13 de setembro de 1961, Bassoleil tem uma irmã mais nova e dois filhos. O caçula, de 23 anos, mora em Paris e é formado em Cozinha e Confeitaria e atualmente estuda Padaria. Já o mais velho, de 25, cursou Hotelaria, mas decidiu seguir os passos do pai. “Ele trabalhou comigo durante um ano e hoje está montando um restaurante especializado em sanduíches em São Paulo”.

O chef conta que a vocação para a gastronomia vem da infância. Filho de uma cozinheira de mão cheia e de um pai caçador, pescador e apreciador de bons vinhos, não se falava em outra coisa dentro de casa. “Saíamos do almoço pensando no que teria no jantar”, diverte-se Bassoleil, que, além da ‘formação familiar’, estudou em uma escola técnica em sua cidade natal em 1977.

Saiu de casa com 15 anos e logo começou a trabalhar no Le Château Bellecroix, na região da Borgonha. “Os proprietários eram pessoas muito simpáticas e me ensinaram muita coisa. Eu já tinha o amor pela gastronomia, mas foi ali que a paixão foi despertada”, lembra Bassoleil, que nos dias de folga ia para a casa do chefe, que passou a ser parte de sua família.

Depois, trabalhou em restau-rantes de Paris e no serviço militar na Alemanha. Aprendeu com os estrelados Jacques Lameloise, Gaston Lenôtre e Pierre Troisgros. E colocou o pé na estrada. Quer dizer, no mar. “Sempre tive o sonho de trabalhar em um navio. Queria viajar e fiz tudo para isso. Em março de 1985 embarquei pela primeira vez e fiquei um ano. Foi uma grande mudança na minha vida”, conta.

Depois de dar a volta ao mundo, o chef trabalhou por seis meses no Club Med de Eilat, em Israel, e voltou para o mar por mais um ano e meio. Foi lá que conheceu a mãe de seus filhos, uma brasileira que o incentivou a jogar a âncora. “Eu não tinha escolhido o Brasil. Minha intenção era passar três meses para conhecer o país, aprender a língua e depois ir para os Estados Unidos, onde, na época, os chefs franceses eram muito requisitados”.

Entretanto, uma proposta de trabalho o fez mudar de ideia. “Quando cheguei aqui, liguei para o Pierre (Troisgros) dizendo que queria trabalhar. O Claude (filho de Pierre) tinha vindo para o Brasil para o abrir o Roanne. Então, ele me arrumou uma entrevista”. Emmanuel conta que dias antes, o chef do restaurante tinha se demitido e o sócio de Claude fez uma proposta irrecusável. Ele ganharia um bom salário, teria todos os documentos pagos e ainda receberia 5% do faturamento bruto. “Claude me seduziu. Me levou para o carnaval, me fez voar de asa delta e andar de moto. Aí não tive escolha, fiquei por aqui”, brinca.

Bassoleil começou como chef, foi sócio e depois comprou o restaurante. Tocou o empreendimento por 15 anos. Montou uma casa noturna, trabalhou com supermercado e até com um café no shopping. “Fui pioneiro em muitas coisas da gastronomia aqui no Brasil”, afirma o chef, que a essa altura já era mais empresário do que cozinheiro. “Cheguei a ter 200 funcionários e sete sócios. Mas, não estava feliz”.

Nesse período, o hotel Unique começou a ser construído e, novamente, Bassoleil foi seduzido. “O pai do Jonas Siaulys, dono do empreendimento, frequentava o meu restaurante e dizia que iria trabalhar comigo. Eu negava veemente, mas comecei a me envolver no projeto e, quando vi, já estava dentro”, diverte-se.

No Unique voltou a cozinhar e largou todas as outras coisas. “Desde o começo do trabalho no hotel sempre fiz de tudo. Cuido da cozinha, do DJ. Trabalho ‘30 horas’, mas estou feliz”, afirma.

Naturalizado brasileiro há 16 anos, Bassoleil quer se dedicar mais aos filhos, talvez escrever outro livro ou abrir um restaurante. “Não sei ainda o que, mas vou fazer alguma coisa nova este ano”.

Tranquilo, o chef diz que gosta mesmo é de cinema e do conforto do lar. “Já passei por muita coisa. Me envolvi com pessoas ruins e tive que refazer a minha vida três vezes no Brasil. Agora eu quero somente momentos ricos. Ricos de descanso, de informação, de amor e paixão pelos meus filhos e amigos. Não priorizo a quantidade, não quero 25 mil seguidores, prefiro ter cinco amigos de verdade para os quais posso dar a chave da minha casa”.

Bate-bolaUma bebida – NegroniUm mestre – Armand Lollini (Le Vendangerot)Um livro – Modernist cuisineUm lugar – Minha casaUm aroma – Pão saindo do fornoUm doce – Sem doceUm prato – O mais simplesUma qualidade – PerfeccionistaUm defeito – PerfeccionistaUm vício – Trabalho

 

 

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