Neil Jacobs: segmento de viagens de luxo vai se recuperar primeiro

Como o setor de viagens de luxo se comportará nos próximos meses e quais serão as principais tendências? O CEO da Six Senses, Neil Jacobs, faz um balanço sobre o cenário atual, com a pandemia de Covid-19, em entrevista para o Global Wellness Institute.

Segundo Jacobs, o segmento de alto padrão vai se recuperar primeiro em razão do poder aquisitivo desse público e desejo imediato de viajar. Após o fechamento de 15 dos 19 resorts, a rede agora readapta suas operações com foco em medidas de saúde e higienização.

Confira a entrevista abaixo:

Como você acha que serão as viagens nos próximos meses? Quais segmentos voltarão primeiro?

Vai demorar um pouco para que as pessoas comecem a fazer viagens de longa distância.Durante este ano e no primeiro semestre de 2021, as viagens serão principalmente domésticas e regionais. Acreditamos que o segmento de alto padrão/luxo se recuperará primeiro. As pessoas com poder aquisitivo estão prontas para sair e cansadas de ficar em casa, pois desejam frequentar outros lugares. O segmento de aviação executiva vai se sair bem.

Propriedades em locais remotos e privados serão os primeiros produtos a voltar. A maioria das propriedades do Six Senses segue o modelo de villa e ocupam grandes extensões de terreno – ao contrário de edifícios de hotéis com quartos, corredores e elevadores. Temos condições para que as pessoas tenham seu próprio espaço e se conectem com a natureza.

Muitas pessoas nos perguntam se é possível reservar a propriedade inteira para grandes eventos entre amigos e familiares. São questionamentos frequentes e acredito que pode funcionar em nossas propriedades menores. Especialistas em viagens argumentam que as pessoas têm memória curta e que voltarão aos mesmos hábitos de antes do coronavírus, mas não concordamos. Sentimos que haverá, sim, uma mudança.

Os dois pilares principais do Six Senses são bem-estar e sustentabilidade, e acreditamos que as empresas que estão comprometidas nessas áreas se beneficiarão de uma recuperação muito mais rápida. Sabemos do crescimento do turismo de bem-estar nos últimos anos, e o cenário é positivo para o incremento desse tipo de viagem. Portanto, estamos muito otimistas quanto ao futuro.

Vocês fecharam todas as propriedades durante a pandemia?

Em 3 a 4 semanas tivemos que fechar 15 de nossos 19 resorts. Um verdadeiro choque. Agora, tudo está acontecendo muito rápido e colocamos coisas novas em ação todos os dias. Se decidirmos algo hoje, é provável que mude amanhã. Vamos retomar as operações o mais rápido possível nos lugares onde fizer sentido e nos países que puderem receber visitantes.

Estamos analisando a possibilidade de fazer um teste rápido para os hóspedes no check-in e solicitar documentação que mostre que estão livres do vírus alguns dias antes da chegada. Enquanto isso, os funcionários usam máscaras e o distanciamento social está acontecendo junto com um protocolo abrangente sobre saúde e segurança.

Os hóspedes chegam e já querem arrancar suas máscaras, serem livres, pular na água e estar com as pessoas. Claro que querem privacidade, mas o desejo de se conectar com os outros é maior. Tanto que tivemos que dizer “olá, estamos muito felizes por ter você, mas todos têm que manter o distanciamento social”.

A crise mudou os projetos em relação ao futuro da Six Senses?

No início, estávamos muito ocupados fechando hotéis e gerenciando os problemas dos funcionários. Foram dias muitos tristes, mas agora temos nos concentrado intensamente no processo de reabertura e em nossa missão quando todas as nossas propriedades estiverem abertas.

Higiene e privacidade têm sido as nossas preocupações diariamente. Como nossa missão é o bem-estar e a reconexão, os cérebros da Six Senses estão descobrindo como ampliar esses conceitos de maneira que tornem o conteúdo ainda mais tangível. Ainda não posso revelar essas novidades, mas estamos pensando em ideias que girem em torno da parte humana, espiritual e até mesmo dos sentimentos. Quando retomarmos integralmente, a nossa programação será atualizada.

Com os resorts fechados, você criou o “At Home with Six Senses”, trazendo experiências de bem-estar online, gratuitamente. Como foi esse experimento digital?

Estávamos sem tempo e somos uma equipe pequena, de 30 a 40 pessoas, ao todo. Anna Bjurstam, nossa pioneira em bem-estar, decidiu criar essa plataforma on-line e a impulsionou com uma equipe minúscula e sobrecarregada. Em cinco dias foi criado todo o conteúdo para o “At Home”, que inicialmente era muito focado no bem-estar com meditações, ioga, entre outros.

Enfrentamos todos os tipos de problemas técnicos porque não estávamos preparados, mas isso foi o de menos. Tínhamos a necessidade de executar a ideia e fornecer conteúdo. Nosso objetivo não era fazer marketing dos hotéis, mas dizer quem somos como marca. Realizamos lives duas vezes por dia no Facebook e Instagram, e iniciamos o “Friends of SixSenses” todos os domingos, onde Anna entrevista personalidades. Mantivemos a programação de bem-estar, mas fomos além.

Quais são as próximas novidades do grupo?

Estava programada a abertura do Six Senses Shaharut, em Israel, no mês de abril, mas agora será lançado em dezembro. Não há nada parecido no destino: é uma propriedade linda no deserto de Negev, perto de uma pequena vila, e fica a cerca de 25 minutos do novo aeroporto de Eilat. São 60 suítes e vilas com vistas 360 ​​graus do deserto, spa e piscinas. Montamos a nossa própria fazenda de camelos para levar as pessoas em excursões ao deserto e produzir nosso próprio leite e queijo.

No final de 2020 vamos inaugurar o Six Senses Fort Bawara, em Rajasthan, na Índia, que está situado em um forte do século 14 restaurado, que incorpora um palácio e dois templos, que já foram propriedade da família real do Rajastão. E o Six Senses Ibiza está agendado para meados de 2021: um resort de 10 hectares e uma comunidade residencial situada na ponta norte da ilha.

Acredito que este é um bom momento para começar projetos de hotéis porque eles estarão abertos apenas em três anos, aproximadamente. Haverá uma disputa na hotelaria para adquirir empreendimentos com dificuldades no mercado, mas não é isso que queremos enquanto marcas.

Procuramos hotéis existentes porque, de vez em quando, se encontra algo que tem potencial ao ser reformado. Propriedades com grande estrutura e história que só precisam de um novo ponto de vista e de capital. Exemplos disso são o Douro Valley, em Portugal, ou Kaplankaya, na Turquia.

E os projetos nas Américas?

Temos um projeto na Costa Rica e analisamos atentamente alguns detalhes no Brasil, que vamos anunciar em breve. Estamos animados com o Six Senses New York. A previsão era inaugurar no final do ano, mas a construção parou em na cidade e perdemos cerca de três meses. Então, eu acredito que a abertura ocorrerá na primavera de 2021.

Contratamos um chefe de Desenvolvimento para a América do Norte, Andrew Miele, que começou a trabalhar conosco há cerca de três meses. É uma pessoa incrível que veio da rede Four Seasons e está realmente empenhado em bem-estar e sustentabilidade. E procuramos projetos em todos os lugares: no interior do estado de Nova York, Califórnia e Flórida. Estaremos na América do Norte, embora eu não possa anunciar ainda.

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