Movimento alberguista completa 50 anos no Brasil

Conceito chegou ao País em 1961 com a instalação do primeiro hostel no Rio de Janeiro

O conceito de hospedagem comunitária, difundido em todo o mundo pela Hostelling International, tem mais de cem anos. As raízes do movimento são atribuídas ao professor alemão Richard Schirmann, que em meados do século 20 teve a ideia de aproveitar escolas para abrigar jovens em viagens de estudo. O primeiro negócio explorado com esse conceito surgiu na cidade de Altena, no sul da Alemanha, ocupando as instalações de um castelo, em funcionamento até hoje.

A chegada ao Brasil se deu em 1961, quando os educadores Joaquim e Ione Trotta fundaram no Rio de Janeiro a Residência Ramos, o primeiro albergue brasileiro. A rápida expansão do segmento para outras localidades do Brasil demandou já em 1971 a criação da Federação Brasileira dos Albergues da Juventude (FBAJ), e o País passou a integrar, oficialmente, o movimento alberguista mundial, com escritórios em várias localidades.

A entidade é presidida por Carlos Augusto Silveira Alves, que se autodenomina “um mochileiro convicto”. Dessa maneira viajou o mundo todo ao lado de companheiros como o hoje governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Alves é jornalista e turismólogo e ainda neste mês de setembro vai inaugurar o primeiro hostel boutique do Brasil, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, onde opera também um albergue em São Miguel das Missões.

“Contamos hoje com 96 hostels no Brasil, ou 5,5 mil leitos, espalhados nas cinco regiões, nos principais pontos turísticos e históricos do País. Estamos entre os 15 países com maior número de albergues no mundo. Até o final do ano deveremos totalizar 100 unidades”, informa o dirigente, que ao longo do tempo em que está nesse negócio, vivenciou algumas transformações no perfil do usuário. “Continuamos recebendo aventureiros e mochileiros do mundo todo, mas temos notado uma presença maior de casais com e sem filhos e o número está crescendo também entre os brasileiros. Por esse motivo até lançamos uma carteira de associado destinada à família”, conta Alves. A ocupação média é de 64% e a movimentação anual estimada em 1,2 mil pernoites.

Na opinião do presidente da FBAJ, as pessoas não usam os hostels apenas pela questão do preço, mas pelo sentido de união, amizade, troca de conhecimento, intercâmbio cultural, motivos que estão acima de qualquer conotação social, política ou religiosa. “Todo hostel tem um espaço de convivência, onde os hóspedes se encontram, batem papo, falam do seu dia, do que conheceram e para onde pretendem ir. Na cozinha e lavanderia, de livre aceso ao hóspede, o papo corre solto sobre opções de onde dançar, quais são os bares da moda, o que conhecer etc”.

A federação, que segue os mesmos preceitos adotados no resto do mundo, acompanha todo o processo de abertura de um hostel, desde a escolha do local até a construção e inspeção final. “Trabalhamos com sistema de franquia, temos um manual que possui todas as premissas básicas para abertura de um HI, normas de qualidade de padrão internacional baseadas em receptivo, segurança, limpeza, conforto, privacidade e conservação do meio ambiente”, explica Alves.

Sistema de classificação

Em todo o mundo essa rede já totaliza 4,5 mil estabelecimentos que por meio de suas federações regionais compartilham de um mesmo site de reservas, de espaço promocional nos guias nacionais e internacionais da HI, dos manuais de procedimentos e da participação em feiras nacionais e internacionais de turismo.

Os albergues não entraram no Sistema Brasileiro de Classificação Hoteleira (SBClass), instituído em julho pelo Ministério do Turismo, porque operam sob um sistema próprio que os classifica como bons ou muito bons. “Os hostels são fiscalizados pelo menos uma vez por ano pela HI Brasil e também temos um link de avaliação da hospedagem em ambos os sites, nacional e internacional. A opinião de quem se hospeda num hostel é um medidor e também nos ajuda a identificar unidades que possivelmente estejam fora dos padrões. As inspeções também podem descredenciar estabelecimentos que descuidam dos padrões de qualidade estabelecidos pela Hostelling”, conta Carlos Augusto.

Nesse segmento há regras também para o usuário, como destaca o presidente da Federação. “Temos normas internas nos locais de uso comum, quartos, cozinha, lavanderia e banheiros, que variam de hostel para hostel. Quem não segue as normas do estabelecimento pode até ser convidado a se retirar e certamente não poderá se hospedar novamente em um equipamento da rede. O mais interessante é que não temos muitos problemas com nossos hospedes que, geralmente, são pessoas que viajam bastante e possuem um nível cultural alto”, pontua. O perfil mais frequente é de jovens universitários e recém-formados entre 21 e 28 anos, a maioria (60%) do sexo feminino.

Nos albergues brasileiros, as diárias oscilam entre R$ 20 e R$ 45 em quartos coletivos, e R$ 50 a R$ 100 em quartos duplos com banheiro privativo, e já há pacotes formatados para feriados prolongados com preços diferenciados. Um hostel ideal, como atesta o diretor de Qualidade da FBAJ, Ramis Bedran, deve possuir áreas de convivência, recepção bilíngue, segurança, armários individuais, limpeza, conforto, quartos separados por sexo ou para casal e família, um bom café da manhã e muita informação sobre os atrativos turísticos da região em que se localiza, bem como atuar fortemente pela preservação do meio ambiente.

Entre as unidades brasileiras mais procuradas, a Federação aponta o hostel Lua Cheia, que ocupa a edificação de um castelo medieval, e o Pipa, ambos em Natal (RN); Laranjeiras, em Salvador (BA), Copa Hostel (RJ), São Paulo Dowtown (SP), Paudimar Falls, em Foz do Iguaçú (PR), Gramado (RS), Bonito (MS) e Ouro Preto (MG) e o Leblon Spot Hostel (RJ), o primeiro de categoria design operado no Brasil.

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