Michelin chega ao Brasil com guia Rio & São Paulo

Quando idealizaram a primeira edição do Guia Michelin, em 1900, os irmãos e sócios André e Edouard Michelin só queriam impulsionar seus negócios. Eles vendiam pneus e imaginaram que estimulando os franceses a viajar mais atingiriam o objetivo e, de quebra, contribuiriam para o desenvolvimento da indústria automobilística, que nessa época apenas engatinhava. Menos de três mil veículos circulavam nas estradas francesas porque viajar significava aventurar-se em trajetos longos, estradas perigosas e mal sinalizadas.

A primeira edição saiu já com 400 páginas e informações sobre como trocar um pneu, onde abastecer, comer e dormir, entre outras dicas práticas, e era distribuído gratuitamente aos motoristas. Esse foi o formato e modelo de distribuição que a Michelin manteve por muitos anos, até que por volta de 1920, com a repercussão no mercado, o guia passou a incluir restaurantes, depois hotéis e ampliou o conteúdo e a distribuição a outros países da Europa.

As estrelas surgiram em 1926, uma apenas, como forma de destacar os estabelecimentos que por alguma razão se diferenciassem dos demais. Cinco anos depois, o sistema evoluía para a criação de três níveis de estrelas, como se mantém até hoje, e em 1933 a Michelin já contava com uma equipe de inspetores anônimos para abalizar a classificação. Daí em diante a publicação ganhou o mundo – os principais destinos da Europa em 1982; os Estados Unidos em 2005; a Ásia em 2008; e chegam agora à América do Sul, pelo Brasil, com o lançamento da primeira edição marcada para março de 2015, inicialmente concentrada em restaurantes e hotéis do Rio de Janeiro e São Paulo.

De acordo com Damien Destremau, vice-presidente da Michelin América do Sul, a gastronomia do Brasil já está na mira da Michelin há cerca de três anos e a publicação é uma forma de estreitar ainda mais a relação da empresa que começou a distribuir seus pneus no País em 1927, com o início das operações de um escritório comercial em São Paulo. A primeira fábrica no País surgiu em 1981, no bairro de Campo Grande (RJ), inicialmente para a produção de pneus para caminhões e ônibus. Hoje a empresa soma cinco fábricas, em duas unidades industriais (a segunda foi aberta em Itatiaia, também no Rio de Janeiro) e duas Usinas de Beneficiamento de Borracha Natural. “Agora com o guia vamos estabelecer uma relação ainda mais próxima e emocional dos usuários com a nossa marca e aumentar a sua notoriedade”, afirma o executivo.

Inspetores profissionais e anônimos já estão percorrendo estabelecimentos nas duas capitais para formar a lista brasileira e revelar os primeiros estrelados. De acordo com o executivo, não há cotas definidas para o Guia Michelin Rio & São Paulo, que terá modelo e metodologia idênticos aos demais países, e será publicado em português e inglês e também terá uma versão digital, assim como atualizações anuais.

O que pensam nossos chefs?

“Acho que demorou para o Michelin perceber que o Brasil tem uma gastronomia que vale a pena ser avaliada. Acredito que isso será muito bom para ampliar o turismo gastronômico”, afirma Monica Rangel, chef de cozinha e proprietária Gosto com Gosto, em Visconde de Mauá (RJ), eleito em 2013 e pela décima vez consecutiva como o melhor restaurante de cozinha mineira pelo Guia 4 Rodas. “Infelizmente estou fora das capitais e doida para eles expandirem o campo de avaliação, mas o Brasil é muito grande e acredito que eles deveriam realmente começar com as cidades de maior expressão, como Rio e Sampa”, pondera a chef que, no entanto, teme que a avaliação se concentre nos restaurantes de cozinha internacional. “Espero que eles dêem ênfase à nossa gastronomia”, completa.

A chegada da chancela é comemorada também por Alex Atala, consagrado como um dos 20 chefs mais influentes do mundo e que desde 2006 vê seu restaurante D.O.M., na capital paulista, subir degraus sucessivos no disputado ranking da revista inglesa Restaurant, outra referência mundial em gastronomia, que o aponta na sétima colocação na edição deste ano. “Estamos em festa. A chegada do guia de expressão mundial, referência número 1 na gastronomia, é o primeiro passo para o reconhecimento definitivo da cozinha brasileira e latino-americana. Tenho certeza de que esta ação não se estenderá somente a São Paulo, ao Rio de Janeiro ou ao Brasil. Certamente ganhará proporção continental”, afirma.

Outro nome recorrente em rankings gastronômicos é o do jovem chef Rodrigo Oliveira, que comanda a cozinha do Restaurante Mocotó, fundado há 40 anos pelo pai, José Oliveira, também apontado na edição 2014 da inglesa Restaurant como o 16º melhor da América Latina. Segundo Rodrigo, o ingresso do Brasil nas edições do Michelin é muito positivo para a gastronomia nacional. “Os guias, em geral, são de grande utilidade para o público e o Michelin é uma referência no mundo todo”, avalia o chef, que também espera que com o tempo a avaliação possa contemplar outras cidades, fora do eixo Rio-São Paulo. “O Brasil é plural e, sem dúvida, você encontra profissionais fazendo cozinha de relevância em praticamente todos os estados, mas também é fato que a concentração desses negócios em São Paulo e Rio de Janeiro é grande. Essas cidades são Brasis dentro do Brasil, concentrando grande parte do que se faz de relevante em nossa cozinha”, pondera.

Na opinião de Rodrigo, a chancela é importante para uma maior valorização e difusão da cozinha brasileira. “Guias como o Michelin têm o poder de despertar o interesse das pessoas e dos profissionais sobre seus escolhidos. Os ganhos são para todos, juntamente com a responsabilidade de responder à altura da expectativa gerada. Acho que a busca de qualidade deve ser uma constante e, neste ponto, nossos restaurantes têm trilhado um ótimo caminho. Você encontra um número notável de grandes experiências em várias cidades do País. Nossa busca deve ser a conquista diária de mais e melhores padrões de qualidade, compromisso e responsabilidade com toda a cadeia, e não por prêmios ou menções, mas, é claro que o reconhecimento de especialistas como o pessoal do Michelin, gratifica e ratifica esta busca, colocando os profissionais verdadeiramente comprometidos numa espiral de qualidade. E isso é sempre bom”, conclui.

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