Mão na massa

Criatividade transforma o pão nosso de cada dia

Ele faz parte do nosso cotidiano, está presente no café da manhã, no lanche da tarde e até mesmo nas refeições principais. O pãozinho, sinônimo de trabalho e empreendedorismo, é um alimento quase que indispensável na mesa de famílias do mundo todo.

É difícil saber com precisão quando o alimento começou a ser produzido. Entretanto, historiadores estimam que tenha surgido há 12 mil anos na região da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque. Os estudiosos acreditam que as farinhas de diversos cereais eram misturadas a mel, azeite, ovos, frutas e até carne, formando espécies de bolos assados em pedras quentes ou sob cinzas.

Os egípcios teriam sido os primeiros a utilizar fornos de barro para assar os pães por volta do ano 7000 aC. A eles também foi atribuída a descoberta da fermentação, responsável pelo crescimento, leveza e crocância da massa.

Das trocas comerciais entre egípcios e gregos, o pão chegou à Europa. Não demorou a figurar entre os principais alimentos na Roma Antiga e na França do século 17. No Brasil, o consumo só se popularizou após o século 19. Antes, o brasileiro consumia muita farinha de mandioca e biju. Com a vinda dos italianos, a panificação se expandiu e o alimento passou a ser essencial.

Agregando valor

No passado, padarias cultivavam seus fermentos naturais em recipientes de madeira. Todos os dias, o profissional alimentava a chamada massa madre (ou pé de massa, esponja, levain, poliche) com um pouco de farinha e água. Muitos adicionavam ainda ingredientes como cana de açúcar, iogurte, água de batata e de frutas frescas, produtos ricos em fungos e bactérias que auxiliam no processo.

Com a invenção de fermentos instantâneos, farinhas especiais, reforçadores, melhoradores e equipamentos modernos que controlam a fermentação sob refrigeração, ganhou-se em tempo, mas perdeu-se em aroma e sabor. “Não vemos mais o padeiro trabalhando de madrugada para que o pão esteja na mesa do café da manhã, mas também não sentimos aquele cheiro deslumbrante de pão fresquinho”, diz o saudosista Raul Concer, chef-executivo em food service.

Para facilitar ainda mais o trabalho de quem vive com a mão na massa, foram criadas as pré-misturas, que garantem a padronização do produto e a qualidade microbiológica, já que possibilitam menor manipulação dos ingredientes. Da massa simples – feita com farinha, principalmente a de trigo, sal, água e fermento -, combinada com muita criatividade, podem ser feitos produtos com alto valor agregado. Ao padeiro cabe ousar para compor diferentes e sofisticados pães.

Uma novidade na área da panificação é o chamado terroir, bastante mencionado quando os assuntos são vinho e chocolate. Concer, que é formado pelo Senac com especialização em Administração Hoteleira e Gastronomia pelo Centre International de Glion, na Suíça, conta que “o que torna um pão único são os microorganismos presentes no fermento. São eles que dão o terroir ao pão”, diz.

O profissional explica que já existe a possibilidade de reproduzir no Brasil pães originários de várias localidades, como São Francisco (Estados Unidos), Toscana (Itália), Paris e Bordeaux (França), por exemplo, captando os microorganismos dessas regiões e transformando-os em uma massa madre, que será adicionada na elaboração das receitas. “É a tecnologia trabalhando a nosso favor”.

Grande variedade

No bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo, a Maria Louca Casa de Pães oferece aproximadamente 200 tipos do produto. “Além dos tradicionais, temos pão de forma colorido – feito com espinafre, beterraba e cenoura -, pão de mandioquinha, laranja, batata, chocolate, limão, centeio, milho, entre muitos outros”, ressalta o chef José Geraldo Rodrigues de Jesus.

Durante as férias, 12 quilos de diferentes tipos de pães abarrotam a mesa do café da manhã do Brotas Eco Resort, localizado na cidade de Brotas, interior paulista. Segundo a gerente do Grupo Peraltas, ao qual o resort pertence, para alguns tipos, como o italiano e o francês, são utilizadas as pré-misturas, que auxiliam na padronização. Para os demais, a farinha de trigo especial é a pedida.

Também no interior de São Paulo está o Dois Santos Lodge Resort, na cidade de Porto Feliz, que prepara suas massas diariamente. “Temos pães caseiros, croissants, grissinis, pães de queijo e bisnagas, mas o mais consumido é o tipo italiano, servido no couvert do restaurante”, explica o chef Humberto Barbosa.

Tendência = saúde

A busca pela alimentação saudável é tendência também no setor da panificação. A procura por pães funcionais, integrais e orgânicos já está bastante difundida e deve crescer ainda mais nos próximos anos. São produtos sem conservantes e pouco manipulados, feitos com matérias-primas que previnem doenças, como colesterol e hipertensão; e que ajudam no funcionamento do organismo. Entre eles estão a quinoa, a semente de girassol, as fibras, as aveias, a linhaça e a granola.

Para os preocupados com a balança já existe no mercado um produto feito com quitosana, fibra natural obtida da carapaça de crustáceos, que auxilia na expulsão da gordura, reduzindo o peso e o colesterol ruim. Entretanto, o chef Raul enfatiza que mesmo o pão feito com farinha comum não engorda e nem faz mal, “o que faz a diferença é a quantidade que comemos, mas quem resiste ao aroma de um bom pão fresco?”, brinca.

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