Inclusão social

Hotelaria e o setor de A&B inovam com cases e parcerias que já rendem frutos

A preocupação de que haja falta de mão de obra suficiente e capacitada para atender a demanda dos próximos anos não é uma prerrogativa do setor hoteleiro ou da indústria de alimentos e bebidas, mas saíram desses setores três grandes projetos de inclusão social, dois deles já com bons frutos colhidos.

Do setor hoteleiro dois cases que merecem ser destacados estão sendo desenvolvidos no Rio de Janeiro em parceria com Organizações Não Governamentais. A largada foi dada pela rede Windsor, que em agosto do ano passado uniu-se o departamento de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, à ONG CCMM (Centro de Cidadania Cidade Maravilhosa), e com o apoio da prefeitura – por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social – criou a Escola de Hotelaria Windsor, com o objetivo de formar 720 profissionais até 2013.

À parceria público-privada somou-se um grupo de docentes formado entre um mix de ex- hoteleiros e acadêmicos para o desenvolvimento de cursos com a duração de quatro meses, que incluem módulos institucionais e específicos na formação de arrumadores, camareiras, garçons, barmen, capitães porteiros e mensageiros. Os cursos são gratuitos e incluem até mesmo vale transporte para alunos que residem em áreas mais afastadas, além de duas semanas de estágio supervisionado nos hotéis da rede.

Para Tatiana Milito, gerente de RH do Windsor Barra Hotel, e duas ex-alunas da Escola de Hotelaria Windsor , é a garantia do estágio que dá tranquilidade à rede no objetivo de inserir no mercado de trabalho um profissional ainda sem experiência técnica e qualificação plena. “Em um ano de Escola de Hotelaria Windsor, nossa aceitação tem sido bastante positiva. Muitos de nossos alunos já estão trabalhando em hotéis, restaurantes e bares do Rio de Janeiro”, revela. No final de outubro completamos a formação de 300 pessoas por meio dos cursos da Escola, e desse total cerca de 80% já estão inseridos no mercado de trabalho”, completa.

De acordo com a gerente, os alunos têm chegado à Escola por intermédio da ONG Pertencer, também parceira no projeto e responsável pela divulgação junto às comunidades carentes, por indicações da própria rede Windsor e de ex-alunos. Antes das formações das turmas, é realizada uma seleção por meio de palestras e entrevistas individuais em que o projeto é apresentado. “Nessa ocasião falamos sobre a carga horária do curso, lembramos aos candidatos que eles terão de estudar de segunda à sexta-feira avaliamos sua identificação com o setor hoteleiro e, às vezes, aplicamos uma redação. Enfim, buscamos sempre por um aluno que esteja convicto do que quer e que esteja ciente de como funciona o setor hoteleiro”, informa Tatiana.

Em geral os alunos que se apresentam devem ter no mínimo o ensino médio completo ou em curso, idade superior a 18 anos e disponibilidade para frequentar aulas de segunda a sexta-feira. “Quem pretende ingressar nesse ramo deve ter paixão por servir, uma capacidade imbatível de sonhar e seguir sonhando, energia infindável e entusiasmo a toda prova”, acrescenta a gerente, acrescentando que a ocupação mais procurada tem sido a de garçom e a de menor demanda é a de arrumador, quando se trata do sexo masculino.

OS CASES

Francilene Barros Soares, arrumadeira no Windsor Barra Hotel há nove meses, é ex-aluna da primeira turma de formandos da Escola de Hotelaria Windsor, moradora da Rocinha, tem 26 anos, ensino médio completo e um filho de um ano e 11 meses. “Eu era babá, só que quando fiquei grávida tive que sair do emprego. Desempregada, Francilene decidiu fazer um curso de arrumadeira, no mesmo prédio onde hoje funciona a Escola, só que realizado pela Prefeitura. Por intermédio da irmã, que trabalhava no setor administrativo de um hotel, tomou ciência da Escola no momento exato em que as inscrições estavam abertas. “Vi aí a chance de fazer um curso já pensando na possibilidade de sair com um estágio garantido”, conta a arrumadeira, que diz sempre ter vislumbrado no setor hoteleiro um mundo de oportunidades, além de achar que a carreira está no sangue, já além da irmã tem também um tio trabalhando na área. “Tinha curiosidade em saber como era estar lá dentro. Agora penso em crescer, mas antes disso tenho consciência de que preciso adquirir mais bagagem na minha área. Futuramente, pretendo me especializar fazendo uma faculdade de hotelaria, mas de uma coisa eu tenho certeza, aqui na hotelaria eu me encontrei”, atesta.

Tatiana Gomes Nobre, ajudante de bares no Windsor Barra Hotel há quatro meses, também é ex-aluna da Escola, só que da segunda turma. Assim como Francilene é moradora da Rocinha, tem 24 anos, hoje cursa faculdade de gestão em Turismo, mas na época estava desempregada. “Já havia feito cursos de garçonete e recepção pela Prefeitura, mas vi na Escola de Hotelaria uma oportunidade de mudar de área e de foco, crescer, conhecer o setor de A&B a fundo, e de poder me projetar e aprender cada vez mais para alcançar o crescimento profissional”, declara.

Manoel Willame Sousa Macedo, atendente de restaurante, também foi aproveitado pelo Windsor Barra Hotel. “Quando cheguei ao Rio de Janeiro, há dois anos e meio, fui trabalhar como ajudante de pedreiro, mas vi que isso não era o que eu queria. Depois fiz um curso de eletricista e fui trabalhar em obras. Mesmo assim, percebi que ainda não estava no ramo certo. Foi quando comecei a me interessar pela hotelaria por intermédio de alguns amigos meus que trabalhavam na construção de um hotel”, informa.

Manoel conta que pensou em fazer um curso de garçom, mas não tinha condições financeiras pra isso, até conhecer o projeto da rede Windsor – “foi unir o útil ao agradável”, ele diz. Hoje, minha família já está se interessando também pela área. Minha irmã será uma das próximas alunas da escola, na turma que vai começar em novembro. “A hotelaria já me despertava interesse pela imagem que me passava, de pessoas trabalhando bem vestidas, educadas. Com isso, vi que era nesse ramo que queria estar, já que me identificava com esse ambiente de trabalho”, continua.

NOVAS OPORUNIDADES

Mais recentemente foi a vez da Accor unir-se ao Grupo Cultural Afroraggae no lançamento de um projeto iniciado com a capacitação de 30 profissionais da Vila Cruzeiro, também no Rio de Janeiro. A iniciativa faz parte do programa global da rede de desenvolvimento sustentável, o Planet 21. As vagas para o curso foram preenchidas em menos de 24 horas.

“Na hotelaria nosso maior desafio é avaliar o comportamento e assim descobrir novos talentos. Quando um profissional não tem experiência ou qualificação técnica mas possui o talento de lidar com pessoas, essencial para trabalhar em hotelaria, cursos de capacitação e treinamento são nossa ferramenta para trazê-lo ao nosso mercado. Com a aptidão para o atendimento ao público, oferecemos a qualificação técnica, que é adquirida com facilidade mesmo por aqueles com nenhuma experiência”, diz Mauricio Reis , gerente de Recursos Humanos Accor para América Latina. Os alunos estão sendo capacitados, em sua maioria, para os departamentos de governança, alimentos e bebidas, recepção e também eventos.

Na opinião de Reis, na hotelaria o fundamental é o talento para servir. Ele acredita que profissionais que tenham competência natural para o atendimento ao público, lidar com pessoas e, principalmente, prazer em bem servir são os que se desenvolverão e se destacarão na hotelaria. “Boa comunicação para falar e ouvir, cortesia, simpatia e sorriso no rosto são algumas características de profissionais com esse perfil”, alerta. “A qualificação técnica é essencial, mas pode ser adquirida, o gosto pelo servir é uma característica de cada pessoa, e são esses os talentos a serem descobertos”, conclui.

“O maior desafio é encontrar empresas parcerias que queiram investir em um profissional sem experiência. Conquistar a confiança e mostrar o comprometimento são atributos que os jovens das favelas precisam vencer a cada dia. O AfroReggae muitas vezes tem sido uma luz no final do túnel, ou mesmo a única oportunidade para jovens sem qualificação e/ou experiência profissional. A falta de opções de trabalho para um ex-presidiário, por exemplo, é a principal causa da volta ao crime. Garantir uma oportunidade de recomeço é uma questão humanitária. Cortar este círculo vicioso do mundo do crime é fundamental para ex-detentos e, principalmente, para toda a sociedade”, destaca a coordenadora de Projetos do AfroReggae, Luna Rozenbaum.

No Paraná, outro case excepcional de inclusão social vem da Risotolândia, empresa tradicional do ramo de refeições coletivas, que por meio de um projeto denominado Liberdade Construída, está inserindo ex-detentos do sistema penal no mercado de trabalho. O projeto, realizado em parceria com a Secretaria de Justiça do Paraná por meio do Departamento Penitenciário (Depen), conta atualmente com 40 participantes e desse total, os 15 que conquistaram a liberdade foram efetivados pela própria empresa, que atua no Paraná, Santa Catarina e no interior paulista.

Benildes Vieira, gerente de RH da Risotolandia, destaca que o essencial nessas pessoas e a vontade de recomeçar a carreira profissional, com iniciativa e dedicação à oportunidade oferecida. Os detentos participantes do projeto são absorvidos como os outros colaboradores. Eles passam por todos os exames de admissão, fazem entrevistas e participam de análises nas áreas de segurança, psicologia e jurídica. Além de reduzir um dia na pena a cada três dias de trabalho na empresa, o Liberdade Construída – que atende as exigências da Lei de Execução Penal – também garante aos detentos remuneração, com 75% do salário mínimo nacional. A maior demanda é para as áreas operacionais.

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