Hotelaria independente

Até onde é realmente possível caminhar sozinho?

Cerca de 25 mil hotéis compõem o parque hoteleiro nacional e 70% desse universo ainda é composto de hotéis e pousadas de pequeno porte. São 18 mil meios de hospedagem, aproximadamente, operados de forma independente mas disputando a mesma fatia de mercado que tem sido alvo das grandes redes. Isso porque se tempos atrás aos grupos só interessavam as grandes capitais, hoje há poucos limites para os planos de expansão.

Dentro da hotelaria independente, no entanto, inserem-se também empreendimentos de médio porte, tradicionais em seus respectivos mercados, e que por quase duas décadas enfrentam como desafio a sobrevivência em meio à concentração dos grandes grupos. Uma tarefa particularmente difícil para as que se mantêm sob a administração familiar. “Historicamente, a indústria hoteleira nacional tem suas origens ligadas à administração familiar. E torná-la profissional, produtiva e competitiva tem sido a tarefa da ABIH Nacional”, afirma o presidente da entidade, Álvaro Bezerra de Mello, para quem mesmo diante da progressiva participação das redes, a hotelaria independente responderá sempre pela parcela mais significativa do setor.

Na esteira das mudanças significativas pelas quais o setor passa desde meados da década de 90, muitos ficaram no caminho, enquanto outros buscaram rapidamente a adequação necessária aos novos padrões que começaram a ser estabelecidos, ditados especialmente pelos grupos estrangeiros. Alguns seguindo de forma independente, outros buscando a solução em parcerias comerciais ou a consultoria de especialistas.

O Pergamon Hotel, em São Paulo, abriu no final de 99, com o boom da hotelaria em plena atividade. “Tivemos muita dificuldade porque a expansão estava acelerada, sobretudo na capital paulista”, conta o gerente-geral Francisco Delmário. A estratégia foi apostar no poder de negociação e buscar um posicionamento sólido junto ao mercado. “Buscamos a segmentação, focamos em um público-alvo e fomos atrás dele, participando ativamente de feiras, fortalecendo os acordos comerciais nas regiões com maior potencial para o nosso produto e, principalmente, estabelecendo diferenciais que estimulassem fidelização”. Entre as iniciativas que o hotel mantém até hoje Delmário cita a introdução de transfers para o deslocamento dos hóspedes entre o hotel e os aeroportos, por exemplo. Outra prática que faz questão de manter é o contato estreito com o hóspede, o que faz, religiosamente, no horário do café da manhã. O esforço foi reconhecido, segundo o gerente, que conseguiu formar uma carteira fiel de clientes de norte a sul do País, onde ele destaca, particularmente, os oriundos de cidades como Rio de Janeiro, Brasília (DF), Salvador (BA), Fortaleza (CE), Florianópolis (SC), e, de modo mais pulverizado, os que provêm do Rio Grande do Sul e do Paraná.

CASES

No Nordeste, onde a proliferação das redes ocorreu de forma menos agressiva, alguns destinos conseguem se manter quase que inteiramente dominados pela hotelaria independente. É o caso, por exemplo, de Alagoas. Na capital alagoana, segundo Alfredo Rebelo, presidente do Maceió Convention & Visitors Bureau, vice-presidente da ABIH-AL e diretor geral do Maceió Atlantic Suítes, 98,9% dos hotéis não ostentam nenhuma bandeira internacional ou ostentaram no passado e retomaram a operação independente, como é o caso do próprio Maceió Atlantic. Essa característica, no entanto, não tem impedido a expansão do parque local. “Isso é fruto de um trabalho compartilhado do setor público junto aos empresários locais, com o fortalecimento do destino Alagoas no mercado turístico nacional e internacional”, destaca a secretária de Turismo do Estado, Danielle Novis.

Outro exemplo semelhante vem do Rio Grande do Norte, mais precisamente do Pirâmide Hotel, de Natal, que há três anos retomou a operação independente. Para o gerente geral, Aleo Almeida Júnior, a operação recuperou sua identidade e está menos mecanizada. Na opinião do gerente, por mais bem sucedida que seja uma rede internacional, por vezes suas normas e diretrizes podem não surtir o mesmo efeito por aqui. Em contrapartida, cresce o nível de exigência do público e as soluções, no caso do Pirâmide, vieram com o reforço das áreas comercial e de Marketing. “Temos representantes atuando ativamente em todas as regiões do País e um trabalho operacional forte na retaguarda”, destaca.

Com uma realidade mais semelhante à de São Paulo, o Rio de Janeiro também já apresenta uma boa oferta de hotéis de rede. O Ipanema Plaza, por exemplo, buscou desde a abertura, há dez anos, o apoio de uma marca reconhecida internacionalmente e sua bandeira, desde então, é a Golden Tulip. Uma parceria em que o sucesso, segundo a administradora e diretora Mônica Paixão, está no modelo comercial adotado. “Mantemos nossa identidade independentemente da rede e temos total liberdade para desenvolver nossas próprias estratégias comerciais e promocionais”. Para a diretora, a marca é uma boa alavanca para as ações internacionais, por exemplo. “Por dois anos consecutivos fomos apontados como o melhor Golden Tulip das Américas e essa é uma referência importante para o público que não tem conhecimento profundo sobre o nosso mercado e nos chega por vezes via consulta a sites ou redes sociais”. A vantagem da distribuição via um GDS global também é apontada pela diretora, que tem, em média, 5% das reservas efetivadas por esse meio.

Mas e quanto às pousadas e hotéis realmente pequenos que não estão encontrando sustentabilidade nem despertam o interesse das grandes redes? De olho nesse nicho, Sérgio Carvalho, que dirige uma das mais novas franqueadoras do mercado – a Microtel Loft & Hostels -, chega com a proposta de somar uma carteira com 50 empreendimentos franqueados até 2014, incluindo aí alguns próprios entre as conversões. Segundo Carvalho, 95% dos pequenos empreendedores não são da área da hospitalidade. E entre esses, ele afirma, o índice de mortalidade dos negócios chega a 65% em menos de cinco anos. “As oportunidades no segmento da pequena e média hotelaria estão em plena ebulição, levando ao surgimento de inúmeras ideias que exploram todas as possibilidades de negócio no mundo. Estamos preparados para apresentar esse mercado aos investidores”, conta Carvalho, que tem a proposta de operação por meio de três diferentes bandeiras e o foco exclusivo na franquia de hotéis e pousadas com no máximo 50 quartos.

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