Gestão da água

Conheça como os meios de hospedagem nacionais estão lidando com a questão hídrica

Há cerca de quatro anos, a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que regula os recursos hídricos de domínio da União, lançou o chamado Atlas Brasil, publicação que mapeou as tendências da demanda e oferta de água nos 5.565 municípios brasileiros. À época o estudo apontou que 55% das cidades nacionais poderiam ter déficit no abastecimento já em 2015 e que seriam necessários R$ 22 bilhões de investimentos para evitar a escassez.

Passado o período citado, hoje presenciamos a concretização dessas projeções, já que muitas regiões do País sofrem com a crise hídrica. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, declarou que o Sudeste vive o pior cenário de escassez dos últimos 84 anos. Em São Paulo, apesar de medidas como campanhas de descontos para quem economizasse água e a utilização do volume morto do Sistema Cantareira, muitos bairros não escaparam da falta de abastecimento. Para se ter uma ideia, a lista divulgada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) das localidades afetadas com a redução de pressão nas tubulações de água contém mais de 15 páginas.

Mediante este cenário, governo e sociedade civil propõem diversas ações de incentivo à redução do consumo, para tentar evitar o agravamento da situação. A mesma mobilização acontece na hotelaria e muitos meios de hospedagem vêm investindo em novas tecnologias para diminuir os gastos com o recurso. Atualmente o estímulo para promover essas mudanças ultrapassa os aspectos financeiros, envolvendo também questões ambientais.

A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) está negociando a compra de equipamentos importados que proporcionam até 18% de redução no consumo de água, mas a um custo 15% menor do que o similar nacional. Alexandre Sampaio, presidente da instituição, explica como funciona essa tecnologia. “São aeradores de torneiras e chuveiros que ajudam na dispersão da água de maneira uniforme. Eles introduzem mais ar ao lado da água que sai, de modo que o jato tenha igual eficácia, mas consumindo menos água”, detalha Sampaio.

O representante afirma também que é difícil precisar a quantidade de consumo de água em uma unidade hoteleira, mas revela que os insumos fixos, como gás, luz e água, equivalem entre 5% a 12% dos gastos de um empreendimento. No Brazil Hospitality Group (BHG), por exemplo, esse valor é em média de 300 litros/hóspede por dia. Recentemente a empresa promoveu mudanças no quinto andar do Marina Palace, no Rio de Janeiro, visando diminuir essas despesas.

“O material utilizado nos chuveiros e torneiras gera a redução da vazão de 35 para 9,5 litros por minuto sem afetar a qualidade do banho. Além disso, estamos priorizando a troca das descargas de válvula de parede pelas de caixa acoplada de dupla vazão, que gastam, no mínimo, três vezes menos”, conta Eder Pereira, gerente patrimonial da empresa.

Exemplo de sustentabilidade

Em dezembro do ano passado, o empreendimento paulista Sofitel Guarujá Jequitimar ficou em segundo lugar na categoria meios de hospedagem na terceira edição do Prêmio Braztoa de Sustentabilidade, iniciativa que reconhece as melhores práticas sustentáveis desenvolvidas no País. A unidade instalada no litoral sul de São Paulo foi reconhecida pelo Projeto Emissão Zero, que reaproveita 100% da água da chuva.

Luis Fernando Matos dos Santos, gerente de Manutenção do hotel, fala que a ideia de implementar um sistema de reaproveitamento no local começou a ser desenvolvida há quatros anos, quando a cidade do Guarujá passava por problemas de falta d’água durante a alta temporada.

“São mais de 300 apartamentos no resort e não poderíamos ficar refém dessa situação. A minha formação é na área de Engenharia Civil e eu já havia feito um projeto semelhante quando trabalhei em outro hotel de Foz do Iguaçu, no início dos anos 2000. Aproveitei essa experiência e propus que fizéssemos o tratamento de água a partir do ozônio”, destaca Santos. 

O sistema consiste em duas estações de tratamento que captam a água pluvial e a tratam de maneira que possa ser reutilizada em vasos sanitários, jardins, lavagens externas e aquários. “São três procedimentos diferentes. No primeiro são tratados os efluentes do esgoto, a chamada água negra, que vêm dos sanitários, das pias da cozinha e banheiros. Após passar pela Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) instalada dentro do hotel, são encaminhadas para o sistema de reuso”, descreve.

“O segundo tratamento é realizado com a água do chuveiro, que é a de maior volume e com menos contaminantes, sendo a mais simples de tratar, através de filtrações. O último procedimento é o aproveitamento da água da chuva, que assim como as outras, são utilizadas na irrigação, vasos sanitários, no sistema de refrigeração e lavagens externas”, detalha.

Para realizar este trabalho, o empreendimento possui um contrato com uma empresa que realiza a manutenção semanal do sistema. Mesmo com o custo dos serviços, o valor cobrado chega a ser metade do que seria gasto com uma concessionária de água. “A economia de consumo e das despesas chega a 40%”, cita Santos.

Tecnologia a favor do meio ambiente

Desenvolvendo pesquisas sobre o tema desde 2003, o engenheiro e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ricardo Franci Gonçalves, elaborou um projeto para tratamento e reuso de água cinza – aquela residuária nas edificações sem contaminação fecal. Um dos primeiros locais a adotar o sistema foi em um hotel de luxo em Macaé, no Rio de Janeiro.

“A ideia é tratar as águas provenientes de lavatórios, chuveiros, banheiras, máquinas de lavar roupas e reutilizá-las para fins não potáveis, como descargas sanitárias, jardins e lavagens de pisos e de áreas externas. A utilização desse sistema pode reduzir até 30% o consumo de água potável e reduzir a poluição no meio ambiente”, afirma o professor.

Gonçalves explica que os empreendimentos interessados em implementar um projeto semelhante devem ter na própria edificação uma estrutura adequada para o sistema de tratamento, com tubulações de dupla alimentação, ou seja, uma para água potável e outra para não potável, e ter coleta segregada de águas cinzas. “É fundamental que as tubulações do sistema hidrossanitário já sejam previstas para o reuso, além da existência de reservatórios para água não potável. Infelizmente não temos normas que regulamentem a necessidade desse tipo de construções no País, mas nos últimos anos vem aumentando o número de unidades que optam por essa configuração”, detalha.

Segundo o engenheiro, o custo para implementar esta estrutura com dupla alimentação (água potável e não potável) e coleta segregada de águas cinzas representa 0,2% do valor da obra. “Em suma, as águas cinzas são coletadas em um sistema de tubulações exclusivo e encaminhadas para uma Estação de Tratamento de Águas Cinzas (ETAC) instalada na própria edificação. A água tratada, então considerada água de reuso, é encaminhada para o sistema de abastecimento de água não potável do empreendimento”, conclui.

Andar ecológico

O hotel alagoano Ritz Lagoa da Anta, situado em Maceió, tem entre as opções de estadia o chamado Eco Floor, ala inaugurada no início de 2011. Com a proposta de aliar design, modernidade e respeito ao meio ambiente, o empreendimento investiu R$ 1,5 milhão na reformulação dos 40 apartamentos, que foram ambientados pelo designer Osvaldo Tenório.

“A preocupação com o meio ambiente sempre esteve presente em todos os projetos do hotel. O interesse crescente em prol de ações sustentáveis motivou a construção de um andar exclusivo com este conceito, mas sem esquecer a sofisticação que o nosso público exige em suas acomodações”, revela Márcio Coelho, diretor da unidade.

A montagem do andar levou em conta as normas de preservação do meio ambiente, utilizando materiais à base de fibras naturais extraídas do bambu e casca de coco e toda madeira utilizada foi obtida de reflorestamento ou de demolição. Além das luminárias led que economizam até 90% em relação às lâmpadas comuns, os banheiros do Eco Floor possuem um sistema que reduz em até 70% o consumo de água.

“Os chuveiros são mais econômicos pois possuem vazão reduzida, através de uma tecnologia especial para bombear oxigênio no sistema de encanamento. São equipamentos que diminuem a pressão da saída de água, mas sem afetar a qualidade do banho. Outro elemento que ajuda na economia é a indicação das cores vermelho e azul nos chuveiros, informando ao cliente quando a água é quente ou fria. Isso facilita no momento de ajustar a temperatura, evitando grande perda de quantidade de água. A ducha higiênica também possui o mesmo sistema de redução da vazão, o que proporciona economia de até 20%”, afirma Manoel Messias Almeida, gerente de Manutenção do hotel.

A mesma tecnologia foi instalada em todas as pias dos 198 quartos do empreendimento, diminuindo em 15% os gastos. Segundo o executivo, a unidade estuda implementar o equipamento nos chuveiros do segundo e do quarto andares do hotel, já que nos pisos superiores a pressão do sistema dificultaria essa instalação.

Fonte de água limpa

Localizado no município amazonense de Novo Airão, a 180 quilômetros de Manaus, o hotel de selva Anavilhanas Jungle Lodge inaugurou em maio do ano passado uma fonte de água potável. Curiosamente a ideia surgiu da vontade de diminuir a geração de lixo e reduzir o impacto negativo das garrafinhas plásticas no meio ambiente. Para isso, a unidade passou a distribuir squeezes para serem utilizadas pelos hóspedes durante passeios e outras atividades. 

Com a medida houve diminuição de mais de 70% no consumo de água mineral engarrafada, assim como no volume de compras e de produção de lixo. “Em decorrência da operação da fonte, tivemos queda de receita com a venda de água e outras bebidas do bar. No entanto, o retorno positivo em relação a gratuidade da água, do squeeze que presenteamos, da facilidade e livre acesso a um bem tão essencial, gerou uma resposta muito positiva à nossa proposta de sustentabilidade e sensação de acolhimento”, enaltece Augusto Costa Filho, diretor e um dos proprietários do empreendimento.

O investimento para implantação do sistema foi de aproximadamente R$ 20 mil e o custo de operação gira em torno de R$ 2 mil mensais, incluindo a doação de garrafinhas individuais, testes laboratoriais e manutenção dos equipamentos. “A água é proveniente de um poço artesiano de 80 metros de profundidade, perfurado no meio da floresta. O projeto foi muito simples. Basicamente mandamos amostras de água para um laboratório de análises de Manaus por um período de três meses. Atestada a qualidade para consumo humano após esse período, tivemos segurança em relação à fonte em si. Então pesquisamos formas de garantir a potabilidade de águas provenientes de poços artesianos, instalando uma sequência de filtros e um dosador de cloro para manter a qualidade da água segura e estável”, detalha Costa Filho.

O diretor explica que como a qualidade da água é muito boa, sem a presença de qualquer fator contaminante mineral ou biológico, o processo de tratamento é apenas preventivo, não corretivo. A cloração e a filtragem são garantias de maior segurança, apesar dos laudos laboratoriais atestarem que a água é potável mesmo sem tratamento. Antes do consumo, a água passa por um dosador de cloro, por um sistema de filtros e depois é direcionada para um bebedouro comercial que faz a refrigeração, para então chegar nas torneiras da fonte.

Veja o que as edificações eficientes no uso da água precisam ter:

* Peças e equipamentos sanitários economizadores* Sistema de abastecimento de água “flex”, aceitando água potável e água não potável* Reservatórios, tubulações e sistemas de bombeamento específicos para cada tipo de água* Sistema de esgoto separado do sistema de reuso de água cinza

Ciência a favor do meio ambiente

Em tempos de escassez hídrica, estabelecimentos comerciais como restaurantes, hotéis e supermercados se esforçam para tentar reduzir os gastos com lavagens, mas sem afetar a higiene dos mesmos. São muitas as tentativas, como o uso de embalagens descartáveis ou a técnica de limpeza a seco, com produtos biodegradáveis que podem ser diluídos com pouca quantidade de água. No mercado nacional há ainda uma alternativa que dispensa o uso de água para lavagens, com um produto feito à base de enzima que consome toda a gordura do piso. Desenvolvido pela Ecolab, é possível economizar 1,5 mil litros de água por mês em uma cozinha de 250 m². 

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