Enxoval hoteleiro

Uma boa gestão pode garantir qualidade e longevidade às peças

Item fundamental em uma operação hoteleira, o enxoval representa uma movimentação aproximada de 77 kg/mês de peças para cada unidade habitacional. Nada mal para a economia do segmento, considerando que o parque hoteleiro brasileiro totaliza 25,5 mil empreendimentos. Não importa a categoria ou o púbico a que é voltado, nenhum meio de hospedagem pode prescindir de roupa de cama, mesa e banho, e a gestão de todo esse volume de roupa requer rédea curta no controle, sob pena de pesar na receita.

Faz parte desse controle o descarte de peças desgastadas e danificadas, o inventário do estoque e a elaboração de orçamentos para a compra e reposição das peças necessárias, o que demanda bastante tempo por parte da governança, como afirma Cláudia Costa, diretora de hospitalidade da Atmosfera Gestão e Higienização de Têxteis, empresa que tem 13% do seu faturamento concentrado nos negócios com a hotelaria.

Cerca de 35% dos hotéis brasileiros, segundo levantamento da empresa, se utilizam de lavanderias terceirizadas, razão pela qual é crescente o investimento em tecnologias que garantam a qualidade e longevidade das peças dos empreendimentos de que se encarregam – algumas só nas funções de limpeza e higienização e outras, como a Atmosfera, atuando também via sistema de locação.

Na rede Ibis, da Accor, segundo o gerente de Operações Francisco Sobrinho, para cada apartamento são feitas, em média, quatro trocas de enxoval, composto de lençol de casal, fronha, capa de Duvet e toalhas de banho e piso. A compra de enxoval é feita uma vez por ano, geralmente no segundo semestre. “As peças têm uma vida útil média de quatro anos, mas isso varia em função do tipo da peça e da rotatividade do hotel”, afirma Sobrinho. “Contamos com serviço de lavanderias terceirizadas para a limpeza do enxoval, que é transportado em gaiolas forradas com tecido para evitar danos”, explica. O controle para evitar furtos ou extravios, segundo o gerente, fica a cargo das camareiras, que ao efetuarem a limpeza, registram quantas peças são retiradas de cada apartamento. “Diariamente fazemos uma contagem das peças enviadas e recebidas da lavanderia. Ao fim de cada mês é efetuado um relatório sobre essa movimentação. Além disso, mensalmente é feito um inventário geral com todas as peças do hotel”, completa. Nessa rede, o enxoval representa em média 8% da despesa de operação, mas a participação pode variar em função dos custos em geral e da rotatividade, entre outros fatores.

Fernanda Gomes de Oliveira, gerente geral do Mercure SP Privilege – também do grupo Accor – diz que a negociação do enxoval é toda feita pelo setor de Compras Compartilhadas da rede, via contrato de consignação. “Recebemos o enxoval lavado e embalado. Os cuidados consistem em disponibilizá-lo em prateleiras separados por tipo para facilitar o manuseio. As camareiras são responsáveis por abastecer seus carrinhos para reposição e, ao abrir as embalagens para uso, verificar as condições de limpeza, alvejamento e passadoria. Constatando alguma inconformidade com os padrões estabelecidos, a peça é reenviada para a lavanderia para nova higienização ou descarte”, conta a gerente.

Cleide Balestri, gerente de Governança do Grupo Royal Palm Hotels & Resorts, de Campinas (SP), também atribui ao processo adotado pela lavanderia a maior ou menor longevidade do enxoval. “Quanto mais química for usada, maior será o desgaste e menor tempo de vida terá o enxoval. A qualidade do produto químico, aliás, também deve ser levada em conta”, afirma a gerente, que adota um sistema de rodízio na reutilização das peças após a lavagem, de forma garantir as 48 horas necessárias para o descanso da fibra. “É importante que o enxoval tenha algo que o identifique, como etiquetas de tecido com o logo do hotel, principalmente se a lavanderia for externa. A medida não garante a devolução em caso de extravio, mas é uma medida preventiva”, acrescenta.

Em Costa do Sauípe, na Bahia, outro megacomplexo turístico-hoteleiro, a compra de enxoval é feita via Capex, por isso não integra os custos da operação, como revela a gerente executiva de Hospedagem, Cecília Camargo. O estoque tem números bastante expressivos, especialmente de toalhas de banho (17,7 mil) e de piscina (15,8 mil). Fronhas e lençóis de casal são os outros dois itens com maior volume no estoque – 18,2 mil e 13,1 mil, respectivamente. “Anualmente fazemos a reposição do enxoval faltante devido à perda, dano, extravio e desgaste do material, de forma a voltarmos a ter o quantitativo do nosso estoque ideal. Tudo depende da quantidade de lavagens, mas de modo geral, cada peça pode durar no máximo dois anos”, informa Cecília.

Maristela Dafré, sub-coordenadora de Governança do Costão do Santinho, em Santa Catarina, diz que a reposição é feita uma vez por ano, geralmente no início da temporada, ou conforme a necessidade. Além disso, o preço é determinante no processo de compra. “Fazemos uma pesquisa de mercado para identificar o fornecedor que nos garante a melhor qualidade, o melhor preço e o melhor prazo de pagamento”, atesta.

Inovações no processo do inventário

O consultor e especialista em Administração Hoteleira e Hospitalar, Roberto Frias, afirma que a gestão hoteleira não pode focar a realização do inventário somente para registros de perdas por evasão, danos e redução de custos mas, principalmente, para aferir qualidade na hospedagem pela vida útil do enxoval. “A movimentação para realização do inventário na hotelaria é um evento que envolve uma forte estrutura, pessoas, dados e tempo”. A questão, na opinião do especialista, é saber quem paga o custo da realização desse inventário. Quem paga essa conta? Está no cálculo da hospedagem? Está no lucro? É prejuízo? Vale a pena o esforço e o gasto para realizar o inventário? O Custo não é maior do que o benefício? Essas são as principais dúvidas levantadas pelos empreendimentos que se deparam com a questão. “Na dinâmica do uso do enxoval é quase impossível realizar um inventário com eficiência. O enxoval está sempre em circulação (rouparia limpa e suja, copa, apartamento, reparos e costura, indo e/ou voltando para a lavanderia, na lavanderia) o que reduz a precisão e eficiência do inventário por não ser possível o procedimento pleno do cut-off”, esclarece.

De acordo com Roberto, em função desses desafios é muito provável que os dados coletados percam a fidedignidade interferindo nos resultados e principalmente na racionalidade das decisões sobre a gestão e custos do enxoval. Um recurso tecnológico que o consultor defende é o controle por Rádio Frequência (RFID). “Algumas lavanderias já reconheceram os benefícios do RFID para gerenciar operações de lavagem de grande porte há muitos anos. O foco não é apenas impedir o roubo; os benefícios incluem, de acordo com as empresas, a redução no tempo de inventário e de trabalho, a gestão mais eficiente das compras, melhoria no controle e economia no processo de lavanderia, aumento da vida útil das peças, melhor controle sobre o processo de check-in e check-out, e melhoria no planejamento para as próximas estações e eventos”, enumera Roberto.

Com o chip, segundo o consultor, é possível, entre outras coisas, armazenar informações referentes ao dono de cada peça, data de compra, fabricante e data da última lavagem. Essas informações são relevantes para gerenciamento do enxoval. O custo é justificado pelo resultado do controle. “A hotelaria não pode mais permitir que a gestão seja efetuada somente sobre as peças do enxoval retiradas do ciclo operacional. O objetivo da gestão está na vida útil e a meta na rentabilidade do ciclo de vida do enxoval. Nesse foco, o chip é a opção mais inteligente para a excelência na gestão do inventário”, conclui.

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