Eduardo Sanovicz: aviação se recupera lentamente e investe em protocolos

A aviação é um dos setores mais atingidos com a pandemia de Covid-19. Desde março, as companhias tiveram uma queda quase total na demanda de passageiros e, por consequência, adaptaram suas malhas aéreas, tanto no doméstico quanto no internacional, influenciadas também por restrições de viagens no Exterior. Agora, é possível notar um pequeno movimento de recuperação das empresas, que estão adicionando mais frequências e rotas, gradualmente, em paralelo com a adesão de novos protocolos de segurança e higienização.

Em entrevista para a Hotelnews, o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, faz um balanço do momento atual e revela as perspectivas para os próximos meses. Ele reforça que o turismo interno será o motor para a retomada das viagens e descarta uma possível guerra de preços entre as companhias aéreas.

Graduado em história, Sanovicz é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP e professor doutor do curso de turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. No currículo, tem experiências na Reed Exhibitions Alcantara Machado, International Congress & Convention Association (ICCA), Embratur e São Paulo Convention & Visitors Bureau.

Confira a entrevista abaixo:

Hotelnews: A aviação foi um dos setores mais impactados desde o início da pandemia. A demanda por voos domésticos caiu 85% em junho, sendo o terceiro pior resultado mensal desde 2000, segundo a Anac. Quais são as perspectivas do setor nos próximos meses?

Eduardo Sanovicz: Nosso momento de menor atividade foi abril, quando chegamos a 8% da malha no ar. Ou seja, o impacto foi de 92%. Ao longo dos últimos três meses, começamos uma leve recuperação e temos hoje 25% da malha. Projetamos para o fim do ano uma perspectiva otimista, ao redor de 60%.

HN: Já a demanda por viagens internacionais caiu ainda mais, com retração de 95,4% no mês passado. Quais fatores você acredita que serão determinantes para o aumento do interesse pelas viagens ao Exterior novamente e do crescimento da oferta pelas companhias?

ES: O mercado internacional sofrerá um processo de maturação ainda mais longo por conta dos desafios que envolvem a sensação de segurança dos consumidores em uma viagem mais longa e as decisões brasileiras de combate à pandemia, que nos trouxeram restrições em uma série de países. Teremos a retomada da confiança das pessoas no ato de viajar com os novos protocolos, que divulgamos massivamente, e sobre como vai se comportar a economia.

Será preciso considerar o volume de viagens que as empresas vão demandar dos colaboradores no corporativo e a demanda de eventos. Sobre o lazer, será determinante o volume de pessoas com capacidade e renda para viajar, considerando que muitos estão sem trabalho e renda. Há também uma interferência do câmbio, pois 51% do custo das companhias tem influência do dólar, que chegou a bater R$ 6 devido à crise e instabilidade política em Brasília, impactando o preço do querosene e do leasing.

HN: A pandemia de coronavírus forçou o comércio e, principalmente, a indústria de viagens a se adaptar aos novos protocolos de segurança e higienização. O que garante mais tranquilidade nos voos para quem viaja neste momento?

ES: Temos um processo de higienização de aviões extremamente radical. O filtro HEPA (High Efficiency Particulate Air) é o coração da segurança a bordo porque a cada 3 minutos ele renova 99,98% do ar, puxando para baixo. Você pode sentar de maneira tranquila ao lado de outro passageiro utilizando máscara.

A aviação brasileira tem sido extremamente resiliente desde que o setor parou completamente nos outros países. Estamos atuando em parcerias conjuntas, incluindo o movimento Supera Turismo e ações com o São Paulo Convention & Visitors Bureau e a Secretaria de Turismo, construindo todas as ações necessárias para garantir tranquilidade quando for o momento de voltar. A mensagem é que todos cuidem de suas saúdes, de suas famílias e sigam os protocolos. E estamos prontos para transportar quem precisa viajar neste momento.

HN: O turismo será aquecido, em primeiro momento, pelas viagens domésticas. Como você observa esta retomada?

ES: Tendo como base a nossa avaliação, muita gente que viajou ao Exterior nas últimas temporadas vai viajar domesticamente. Estou convencido de que a retomada será pelo turismo interno, em voos que duram até 2h30. Muito se fala sobre uma possível guerra de preços entre as companhias aéreas neste período, mas este é mais um desejo das pessoas do que um fato.

Não há pelo que brigar no momento e as tarifas já estão baixas. Guerra de tarifas acontece quando se tem mercado para disputar, e no momento não há demanda. O mercado era do tamanho de uma pizza e agora virou uma esfirra.

Deixe uma resposta