Destinos acessíveis

Lugares que investem no acesso de pessoas com deficiência aos benefícios da atividade turística

Uma recente pesquisa divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostrou que as viagens figuram no topo da lista entre os sonhos de consumo dos brasileiros. No total, essa foi a resposta de 27% dos entrevistados, ficando à frente de itens como comprar um carro e fazer uma cirurgia plástica. Nos últimos anos, muitas famílias brasileiras alcançaram o status de turistas graças ao aumento do seu poder aquisitivo, mas outro fator prático continua impedindo – literalmente – que mais pessoas desfrutem dos destinos nacionais: a falta de acessibilidade.  

A última edição do Censo, lançada em 2010, apontou que 23,9% dos brasileiros, ou seja, quase um quarto da população, declarou ter algum tipo de deficiência. O índice corresponde a 45,6 milhões de pessoas. Mesmo sendo uma parcela importante e numerosa para o turismo, e da promoção da acessibilidade ser garantida pela lei nº 10.098/2000, atualmente existem poucos atrativos e serviços adaptados para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Na opinião de Tânia Brizolla, consultora da Prisma Consultoria e promotora do Salão Acessibilidade no Festival de Turismo de Gramado (Festuris), este é um processo que ainda está no estágio inicial dentro do turismo brasileiro. “Estamos em fase de sensibilização, na qual os destinos e as cidades estão se preparando e tomando contato com a lei e com a obrigatoriedade de ter equipamentos adequados”, afirma.

A especialista detalha que estas mudanças para a inclusão de pessoas com deficiência através do turismo envolvem diferentes etapas. “Além das dificuldades estruturais, existe muito preconceito no atendimento com os visitantes devido ao despreparo das equipes na prestação de serviços. Os colaboradores não sabem ao certo como lidar com estes turistas e por isso têm dificuldades no momento de recebê-los”, explica Tânia. A consultora pontua que as capacitações são fundamentais para evitar situações de constrangimento, pois com elas os atendentes têm a chance de conhecer quais as limitações das pessoas com deficiência e podem aprender quais as melhores formas de tratar esses clientes.

Para Tânia, o bom planejamento é fundamental para garantir a inserção de um estabelecimento no universo adaptado. “A questão da acessibilidade precisa compor de antemão o projeto das construções, já que a alteração de uma estrutura já pronta é muito mais custosa do que a criação de um modelo dentro dos padrões. O poder público também pode trabalhar junto com a iniciativa privada, a partir de parcerias e programas de incentivo que facilitem a modificação de bares, hotéis e restaurantes, mas que garantam a infraestrutura do entorno”, destaca. 

Turismo de aventura e acessível

Localizado no interior de São Paulo, o município de Socorro é um exemplo de cidade brasileira que conseguiu aporte através do governo federal para a promoção da acessibilidade na região. Tudo começou em 2005, durante uma edição da Adventure Sports Fair. “O Ministério do Turismo (MTur) apresentou um projeto chamado Aventureiros Especiais, que tinha como proposta adaptar esportes de aventura para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida”, explica José Fernandes, proprietário do Hotel Fazenda Campo dos Sonhos e do Parque dos Sonhos, que esteve presente durante a palestra do MTur.

“A ideia era que alguma cidade se candidatasse para ser pioneira na questão de acessibilidade e que tivesse uma geografia favorável para a prática dessas modalidades. Nessa época não existia nenhum material para explicar como proceder para adaptar uma tirolesa ou uma escalada, fora o desafio de conseguir equipamentos que fossem seguros e ao mesmo tempo confortáveis para os praticantes”, conta Fernandes.

Por ser um município predominantemente montanhoso, com relevo acidentado onde se formam diversos rios e cachoeiras, Socorro foi escolhido para levar a iniciativa adiante, a partir de uma parceria entre a prefeitura – que colaborou com apoio de logística -, a ONG Aventura Especial – responsável pela coordenação do projeto -, os hotéis Parque dos Sonhos e Campo dos Sonhos; a empresa de rafting Rios de Aventura e o Parque Ecológico do Monjolinho- que dispuseram os espaços para serem executados os estudos de adaptação.

Após um período de dois anos de trabalho, o projeto foi finalizado e submetido ao aval do MTur. Ciente dos resultados, a pasta publicou os Manuais de Aplicação com as práticas desenvolvidas no local para servirem como modelo para outros destinos. José Fernandes revela que no início da operação das atividades, em 2007, seus empreendimentos recebiam em média 500 visitantes com deficiência. Já em 2013, após um período de maior divulgação e de mais visibilidade da cidade na mídia, esse número ultrapassou os quatro mil visitantes.

“Um dos efeitos que percebemos após nos tornarmos acessíveis foi o crescimento da nossa ocupação. Passamos de uma média de 60% para quase 90%. Como as pessoas com deficiência sempre vêm acompanhadas, isso contribui para termos um número maior de hóspedes. O incremento das nossas receitas foi tanto que já estamos construindo um terceiro empreendimento na cidade, também totalmente acessível, e que deve ser entregue depois do Carnaval”, celebra Fernandes.

As duas unidades do empresário, o Hotel Fazenda Campo dos Sonhos e Hotel Fazenda Parque dos Sonhos, possuem certificado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em Acessibilidade em Meios de Hospedagem. As atividades adaptadas disponíveis nos locais são cavalgada, canoagem, rapel, tirolesa, arvorismo, caminhada, passeio de trole, boia cross e acqua ride, todas com equipamentos especiais que permitem a realização destas modalidades por pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Desenvolvido há pelo menos oito anos, outro projeto de destaque na cidade é o Socorro Acessível. Também parceria do Mtur, da prefeitura e da Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência (Avape), a iniciativa contempla a adaptação de diversos espaços públicos do município, com a eliminação de barreiras e obstáculos que impeçam a livre circulação dos visitantes. 

“A maioria dos prédios do Centro Histórico são acessíveis, equipados com rampas e elevadores. As ruas possuem semáforos sonoros e as chamadas lombofaixas, que são travessias elevadas e ligam uma calçada a outra no mesmo nível”, explica Acácio Zavanella, diretor de Turismo da cidade. O gestor cita outras atrações adaptadas, como o Portal Colonial, o Centro de Eventos e o Horto Municipal, onde existe um jardim sensorial com descrições em braile e piso tátil para auxiliar na condução do caminho dos deficientes visuais.  

Zavanella também lembra de uma importante obra de acessibilidade realizada em 2011 no Museu de Socorro, referência turística do município. “Trata-se de um prédio histórico, da época do Império. Há quatro anos foi construído um anexo moderno, com elevador, seis banheiros – sendo dois deles adaptados para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida -, e uma ligação por rampas entre a estrutura antiga e a nova, permitindo assim a circulação de todos”, detalha.

Segundo o gestor, cerca de 10% de fluxo turístico na cidade são de pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.

Sol, praia e acessibilidade

Não faltam razões para o arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, ser um dos destinos mais procurados do País. Além do clima favorável, com temperaturas que variam entre 25° e 30°C o ano todo, paisagens paradisíacas, e ao menos três das dez praias listadas como as mais bonitas do Brasil, o local também foi pioneiro ao desenvolver uma estrutura que permitisse a visitação de cadeirantes e de pessoas com dificuldade de locomoção. Em setembro de 2012, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha ganhou trilhas suspensas acessíveis, feitas com materiais ecologicamente sustentáveis, passou a contar com monitores qualificados e a oferecer sanitários adaptados.

Na época, a primeira cadeirante a utilizar a passagem foi Mosana Cavalcanti, coordenadora do Programa de Turismo Acessível – Pernambuco sem Fronteiras. A turismóloga participou ativamente de outro projeto de inclusão no Estado, chamado Praia Sem Barreiras, elaborado pela Secretaria de Turismo de Pernambuco (Setur/PE) e pela Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur). Atuando como consultora, a profissional utilizou como referência a experiência que teve em Miami, nos Estados Unidos. 

Alinne Barbosa, gestora de Projetos Especiais da Empetur, afirma que apesar do modelo estrangeiro ter servido de base, a iniciativa funciona de acordo com realidade de cada praia brasileira. “São muitas especificações antes de iniciar o banho assistido. É feito um estudo da zona costeira para saber a viabilidade da prática no local, com a análise da incidência de tubarões e da dinâmica das correntes marítimas. Além da escolha da área e do horário mais seguro, o processo envolve ainda a compra das esteiras e das cadeiras anfíbias – que são importadas -, e o treinamento e a qualificação de pessoal”.   

A responsável conta que uma das premissas da ação é viabilizar a acessibilidade também no entorno, não ficando restrita a somente uma parte da praia. “Nós criamos rotas acessíveis. Não basta somente ter a cadeira anfíbia e a esteira na areia, nós estabelecemos parcerias com as gestões municipais para que haja também a adequação de calçadas até a faixa de areia”, enfatiza Alinne.

Desde 2013, o projeto atendeu mais de 2,8 mil visitantes, entre pessoas com deficiência e idosos, sendo que a maior procura foi na Praia de Boa Viagem, no Recife, local que concentrou mais da metade dos usuários.

Exemplos de fora

“O que mais sinto falta na cidade de São Paulo é o acesso – que nada mais é que o respeito às pessoas com deficiência. Com o acesso, você tem liberdade de ir e vir, participar da vida como tem que ser”, declara Mila Guedes, publicitária e autora do projeto Milalá, que busca estimular as pessoas com mobilidade reduzida a passear e a viajar.

Moradora da capital paulista e portadora de esclerose múltipla há mais de 22 anos, Mila decidiu tirar um período sabático para se qualificar no início do ano passado e decidiu fazer uma imersão para conhecer o trabalho de organizações que fazem a diferença nas questões práticas de acessibilidade e de cidadania. “Há muitos projetos, leis e outras atividades sendo desenvolvidas no Brasil, mas nosso país ainda é bastante carente de ações e conhecimentos. Faltam procedimentos e normas para o envolvimento da sociedade, a comunidade empresarial e, especialmente, a melhoria da qualidade de vida”. 

Com isso, a publicitária procurou informações sobre diferentes instituições com destaque na área, até encontrar a organização norte-americana Access Living, com sede em Chicago. O que mais chamou sua atenção foram as diversas ações realizadas visando uma vida independente das pessoas com deficiência. É sobre esta liberdade que Mila se orgulha ao contar como é viver na cidade estadunidense. 

“Aqui posso andar pelas ruas, admirar a arquitetura sem me preocupar em desviar ou cair em buracos. Sei que ao apertar um botão ou ao me aproximar as portas vão se abrir para eu entrar. Os banheiros são adaptados, as lojas possuem provadores de roupa para cadeirantes, e há rampas de acesso em todos os lugares. Posso ir ao mercado, à farmácia, lojas e afins sem pensar se conseguirei passar pelos corredores. Posso encarar a cidade de cabeça erguida porque faço parte dela”, destaca.

O transporte público também é outro ponto positivo na avaliação de Mila. “Nas cidades norte-americanas que estive, 100% dos ônibus são acessíveis, você anda de ônibus como se estivesse dentro de seu próprio carro. Além dos inúmeros táxis acessíveis, especificamente em Chicago há auxílio para entrar e sair do vagão de metrô. É a primeira vez que ando de metrô sozinha, pois eles colocam uma rampa para acessar e deixar o vagão”.

O município conta ainda com um Comitê Cultural de Acessibilidade (CCAC), que tem como missão adaptar os espaços culturais para que estes também possam receber pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Um exemplo é o Steppenwolf Theatre Company, que além de possuir uma estrutura totalmente acessível, disponibiliza cadeiras de rodas, serviço de audiodescrição e tradução para a linguagem de sinais.

“O segmento de turismo acessível é um negócio sério, comprovado por números, que envolve pessoas do mundo inteiro. A maioria das oportunidades oferecidas nesta área vem de países que olham o nosso público como consumidores e, sendo assim, investem em condições para nos receber da melhor maneira possível. Na minha opinião, quanto maior a consciência das pessoas envolvidas neste negócio, maiores serão as possibilidades de usufruir da paixão por viajar”, finaliza Mila.

Locais contemplados com Praia Sem Barreiras

30/01/2013 – Praia do Sueste (Fernando de Noronha-PE): banho assistido e mergulho com cilindro adaptado17/03/2013 – Praia da Boa Viagem (Recife-PE): banho assistido e vôlei sentado 09/05/2013 – Praia de Porto de Galinhas (Ipojuca-PE): banho assistido, passeio de jangadas adaptadas e mergulho com cilindro adaptado21/08/2013 – Praia do Bairro Novo (Olinda-PE) –> Projeto temporariamente suspenso;05/12/2014 – Praia de Candeias (Jaboatão dos Guararapes-PE): banho assistido21/12/2014 – Praia de Tamandaré (Tamandaré-PE): banho assistido27/12/2014 – Praia de Pau Amarelo (Paulista-PE): banho assistido

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