Copa do Mundo

Ganho ou perda para a hotelaria?

A menos de seis meses do início da Copa do Mundo, ainda não há consenso sobre os resultados efetivos nas taxas de ocupação da hotelaria antes, durante e principalmente depois dos jogos. Até 2016 – visando atender também a demanda pelos jogos olímpicos, no Rio de Janeiro – , o Brasil terá 422 novos hotéis, o equivalente a uma oferta adicional de 70.531 quartos à atual, segundo mapeamento realizado pela consultoria de investimentos hoteleiros BSH International.

De acordo com o estudo, a região Sudeste concentra a maior parte dos investimentos previstos (59%), com 250 novos estabelecimentos, seguida pelo Nordeste (13%), Sul (11%), Centro-Oeste (10%) e Norte (7%). A maioria dos novos hotéis em construção ou recém-abertos (158) é de categoria econômica, seguida por unidades midscale (150), supereconômicas (56), superiores (42), upscales (9) e resorts (7). Considerando apenas as 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ) lideram na ampliação da oferta estimada em 164 hotéis (28.248 UHs), com a abertura de 42 e 23 novos estabelecimentos hoteleiros, respectivamente.

Além desse reforço, o Ministério do Turismo quer por em prática um plano operacional para organizar, ampliar e divulgar programas de hospedagem alternativa durante o megaevento. Segundo o ministro Gastão Vieira, o objetivo é dar oportunidade para aqueles que não podem se hospedar em hotéis. Em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), já foram mapeados cerca de 60 mil leitos nas 12 cidades-sede em albergues, pensões, motéis e casas de aluguel para a temporada.

Apesar do otimismo do governo, o mercado teme impactos negativos dessa super-oferta. Na opinião da diretora-executiva do Fohb, Flávia Mattos, algumas localidades como Curitiba e Cuiabá estão no grupo de risco. “Estimamos que ocorrerá o que chamamos de displacement, ou seja, a substituição do hóspede de turismo de negócios pelos ganhadores de campanhas de incentivo, por clientes dos patrocinadores, pelas equipes, pela imprensa e pelos próprios torcedores individuais, que representam uma parcela menor nesse total”, afirma Flávia, para quem a demanda por eventos de cunho técnico-científico ou de convenções estará mais concentrada no primeiro e no segundo semestres, enquanto no período da Copa em si (12/06 a 13/07) haverá mais eventos relacionados às campanhas de incentivo.

Destinos localizados nos arredores das cidades-sede, se bem estruturados, podem capitalizar com o público, que para o lazer optará por viagens terrestres e de mais curta duração, possíveis de serem realizadas entre os jogos de seus times. Contra o risco da ociosidade, a palavra de ordem, segundo Flávia Matos, é promoção. Demanda além da oferta, ela acredita, só deve ocorrer em Manaus.

Estratégias do mercado
O hotel The Palms, do grupo Royal Palm Hotéis, de Campinas, vai hospedar a seleção portuguesa, que elegeu a cidade após 27 visitas a diversas regiões do Brasil. Os treinamentos ocorrerão no estádio Moisés Lucarelli, da Ponte Preta. “O fato de hospedarmos a delegação de Portugal certamente servirá de estímulo para a atração de hóspedes. E a proximidade à capital paulista pode também representar um ponto a favor. Independentemente da Copa, já temos constatado uma tendência de investimento dos nossos viajantes por uma hospedagem mais próxima e de curta duração, em função do alto patamar do dólar e do investimento de boa parte desse público em viagens sabáticas, focadas no estudo e no aprimoramento profissional. Com isso, diminui o tempo livre para viagens de lazer, o que favorece resorts urbanos como o Royal Palm”, afirma o diretor-comercial da rede, César Nunes.

O executivo, no entanto, acredita na queda significativa no volume de eventos no período, situação para a qual já se prepararam, captando boa demanda para o período de janeiro a abril. “O desafio agora passa pela prospecção de novos negócios para o segundo semestre. Em meio às incertezas econômicas no País, o mercado corporativo conteve ao máximo seu budget, mas começou a injetar recursos para eventos a partir do último trimestre do ano passado”. Segundo César, durante o período em que a seleção portuguesa se hospedar no hotel, o The Palms será exclusivo deles, portanto não receberá turistas. Para o Royal Palm Plaza, no entanto, a estratégia é reforçar a promoção voltada ao público de lazer.

Carlos Henrique Schmidt, diretor-superintendente da Rede Plaza de Hotéis Resorts & Spas, está entusiasmado e se diz bem preparado para receber os visitantes na Copa do Mundo de 2014 nas subsedes de Porto Alegre e Salvador, destinos em que opera três hotéis: Plaza São Rafael Hotel e Centro de Eventos e Plaza Porto Alegre, totalizando cerca de 400 apartamentos, e um hotel em condomínio fechado com 101 apartamentos em Camaçari, na região metropolitana da capital baiana. “Temos certeza de que a ocupação será excelente neste período. Já estamos com reservas em todas as frentes e nossos hotéis estão inseridos nas listagens da Fifa”, diz Schmidt. “O sorteio foi amplamente benéfico para nossas subsedes e acreditamos em lotação total”, completa o superintendente, que não teme o risco de ociosidade na área de eventos. “Nos nossos hotéis eles continuam em alta. Muitos habituais do período da Copa foram realocados para outras datas e estamos com nossas agendas lotadas também para eventos de outras naturezas, além do futebol”, afirma.

Para Vanessa Pires Morales, diretora operacional do Vivence Suítes Hotel, o ano será uma incógnita, não só por conta da Copa mas também pelas eleições presidenciais no mês de outubro. “Certamente, a realização desses dois grandes eventos terá uma atenção especial em nosso planejamento estratégico, mas fora esses períodos específicos estamos com boas perspectivas para atrair visitantes de negócios e também pessoas que visitam a capital goiana a lazer. Nossa expectativa é fechar o ano com uma taxa de ocupação em torno de 80,4%, mas como nosso empreendimento encontra-se em um mercado de turismo de negócios, podemos sofrer consequências negativas no período em que as atenções estiverem voltadas à competição”, afirma a executiva que pretende oferecer pacotes promocionais e vantagens aos hóspedes que se interessarem em visitar a capital goiana, que não é cidade-sede, mas está próxima de Brasília.

Jeferson Munhoz, diretor de Vendas da Bourbon Hotéis & Resorts, aposta no aumento significativo das viagens de carro como preferência das famílias que buscarão evitar a interferência da logística aérea. “Isso vai ajudar muito os empreendimentos próximos de grandes capitais brasileiras. Estão sendo previstas mudanças nas rotas em prol dos jogos e os preços tendem a se manter altos. Isso vai inviabilizar viagens longas para férias em família”. “Estamos nos preparando para atacar em todas as frentes de trabalho. Focamos em manter o faturamento de eventos nos períodos fora da Copa do Mundo, trabalhando com ações e campanhas para aperfeiçoar o corporativo também nestes períodos”.

De acordo com o diretor, já há determinadas datas entre janeiro e abril em que não se encontram mais salas e apartamentos disponíveis nos grandes hotéis de eventos. “Já no lazer para os nossos resorts, estamos planejando crescer significativamente em decorrência das férias antecipadas e de termos empreendimentos de proximidade e com forte apelo, inclusive para assistir a Copa do Mundo em família. Quem tem criança, principalmente, não vai querer desperdiçar todo o mês de férias em casa por conta dos jogos, sem contar que temos unidades selecionadas em Atibaia, São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e Curitiba que receberão times, patrocinadores e turistas em decorrência do mundial”, afirma Munhoz.

Gargalos
O executivo cita, ainda, como fato preocupante alguns dos gargalos que se impõem como desafios para o sucesso de uma Copa do Mundo. “Talvez o que mais preocupe hoje seja a infraestrutura logística de nosso País. Os aeroportos são pequenos, as estradas de boa qualidade se limitam ao eixo Rio de Janeiro – São Paulo, e não há sistema fluvial e ferroviário. Será muito difícil deslocar volumes de pessoas em um país de proporções continentais. Mas acredito que nas outras áreas, como hotelaria e gastronomia, daremos conta do recado”, conclui.

“A demanda para o período da Copa do Mundo nas cidades-sede é grande e temos recebido muitas solicitações de pré-reserva. Desta forma, caso as reservas feitas pela Match para jogadores, colaboradores e turistas em geral não sejam vendidas por eles, já temos um grande número de clientes interessados em se hospedar em nossos hotéis”, afirma Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels, que tem 14 hotéis de sua rede credenciados. “Notamos que as companhias querem aproveitar a Copa do Mundo para apresentar os seus produtos, serviços e até mesmo engajar suas equipes. É o caso dos patrocinadores da competição, que têm esse momento para proporcionar vivências completamente diferenciadas aos seus parceiros, clientes e colaboradores. Por outro lado, acreditamos que os locais próximos às cidades-sede devem ser buscados como alternativas de hospedagem aos espectadores, tendo em vista a alta demanda local. No entanto, como será um período de férias escolares, é possível que as famílias também busquem alternativas mais focadas no lazer para descansar, principalmente após as competições”, pondera a empresária.

Assim como Jeferson Munhoz, Chieko Aoki vê a infraestrutura como o maior desafio desta Copa. “Além dos estádios, é fundamental que os aeroportos e estradas estejam adequados para suprir a demanda dos turistas com agilidade, conforto e praticidade a fim de que todos fiquem satisfeitos e possam desfrutar ao máximo da estada no País. Essa é uma grande oportunidade e precisamos apresentar o nosso melhor para que os turistas tenham vontade de voltar e, quem não veio, saiba que o Brasil tem muito a oferecer”.

A empresária lembra, ainda, o papel social intrínseco nesse processo. “Cada cidadão brasileiro pode e deve se mostrar atencioso, gentil e prestativo com os turistas, honrando o Brasil como país amigo e caloroso, atitude capaz de minimizar eventuais problemas por quais possam passar. Por isso, mais do que sermos observadores, sejamos protagonistas do sucesso. Outra Copa do Mundo não acontecerá em breve no País, mas podemos ser sede para turistas de todo o mundo ávidos por atenção. Só depende de cada um de nós”, finaliza.

Conheça as sedes das 32 seleções

AMÉRICA DO SUL
Brasil – Teresópolis (RJ)
Argentina – Belo Horizonte (MG)
Colômbia – Cotia (SP)
Chile – Belo Horizonte (MG)
Uruguai – Sete Lagoas (MG)
Equador – Viamão (RS)
AMÉRICA DO NORTE E CENTRAL
Estados Unidos – São Paulo (SP)
México – Santos (SP)
Honduras – Porto Feliz (SP)
Costa Rica – Santos (SP)

EUROPA
Alemanha – Santa Cruz de Cabrália (BA)
Rússia – Itu (SP)
Holanda – Rio de Janeiro (RJ)
Espanha – Curitiba (PR)
Suíça – Porto Seguro (BA)
França – Ribeirão Preto (SP)
Portugal – Campinas (SP)
Croácia – Praia do Forte (BA)
Itália – Mangaratiba (RJ)
Grécia – Aracaju (SE)
Bósnia – Guarujá (SP)
Bélgica – Mogi das Cruzes (SP)
Inglaterra – Rio de Janeiro (RJ)

ÁFRICA
Camarões – Vitória (ES)
Nigéria – Campinas (SP)
Gana – Maceió (AL)
Costa do Marfim – Águas de Lindóia (SP)
Argélia – Sorocaba (SP)

ÁSIA
Ir㠖 Guarulhos (SP)
Coréia do Sul – Foz do Iguaçu (PR)
Japão – Itu (SP)
Austrália – Vitória (ES)

Deixe uma resposta