Comando Y

Jovens na faixa dos 30 anos têm pressa e estão chegando mais rápido ao poder

Os Millennials ou Geração Y, como são mais conhecidos os jovens nascidos a partir da década de 80, estão chegando cada vez mais rápido aos cargos de comando em suas empresas. Não que a experiência não conte mais hoje em dia, mas pesa a favor desse grupo o alcance irrestrito às informações e ao conhecimento que gerações anteriores custavam a recolher em anos a fio de estudos e quilômetros percorridos na trajetória profissional.

“Os Y vieram para ficar e representam a geração que vai estar à frente dos negócios do futuro”, diz Trícia Neves, sócia-diretora da Mapie Especialistas Estratégicos em Serviços, que recentemente conduziu um estudo sobre esse público, suas necessidades e conflitos. A consultora lembra, no entanto, que as gerações se influenciam e os X têm de compartilhar o mundo dos Y, onde tudo está conectado e há abundância de ofertas para profissionais competentes.

Na prática, significa dizer que os X já estão sendo um pouco Y e precisarão se reinventar ao longo da sua permanência no mercado de trabalho. “Temos ouvido muito dos líderes brasileiros que a nova geração ‘não tem comprometimento e não cria vínculo’ e esta é uma geração que cria laços com empresas quando é envolvida por propósitos, por projetos que os façam se sentir parte e em desenvolvimento”, pontua Trícia, para quem o grande desafio imposto às corporações é ter identidade e propósito, buscar e encontrar pessoas que se identifiquem com elas, para que a partir daí se construa um novo mercado, o que já é uma realidade em diversos segmentos.

Paulo Gustavo Gomes, gerente de Marketing da Blue Tree Hotels, ingressou na Hotelaria em 1997, simultaneamente ao primeiro ano do curso de Administração Hoteleira no Rio de Janeiro. “Comecei na área de vendas, como contínuo do então Rio Atlantica Hotel, quando ainda fazia parte das Organizações Globo”, conta. Em pouco tempo, com apenas 26 anos, assumia a coordenação de Marketing e Comunicação da rede Pestana Hotels & Resorts para América do Sul. Hoje com 34, comemora feliz o primeiro ano de uma já bem sucedida trajetória dentro da Blue Tree. “Posso dizer que este período está sendo uma etapa enriquecedora e muito gratificante na minha carreira profissional. É um grande aprendizado e uma imersão na cultura e no DNA japonês de qualidade, foco, gestão. Além disso, estamos em um momento de crescimento, com vários hotéis por inaugurar e várias conquistas e contribuições em nossa área”, conta PG, como é mais conhecido no ‘trade’.

Sobre os desafios da relação com os mais velhos, PG tem uma teoria. “Sou um libriano, gosto da diplomacia e do hábito de cultivar amigos e relacionamentos, mas certamente durante todos estes anos deve ter havido alguns desencontros de opiniões ou pontos de vista, mas nada que não encare de forma natural”, afirma o executivo que, curiosamente, é o mais velho do time de Marketing da rede. “Em outros níveis hierárquicos, superiores, meus líderes são mais velhos e considero isto muito bom. Existe uma fluidez natural de troca de experiências e uma grande oportunidade de aprendizado com profissionais que já trilharam o momento que vivo hoje e tem uma rica bagagem a contribuir. A meu ver, o que define um bom profissional são os seus valores, caráter e atitudes, independentemente da idade, geração ou senioridade. Nosso time é jovem e, aliás, também assim me considero. Acredito muito na energia positiva da química entre a sagacidade do jovem e a experiência da maturidade. O mundo virou de ponta cabeça com a revolução tecnológica e a geração Y é o DNA deste momento. A conclusão é de que temos um cotidiano fantástico de sinergia e lições entre ambas as partes”, resume.

Carolina Korody, de 28 anos, é gerente de Treinamento do Grand Hyatt São Paulo, onde está há cinco anos, tendo iniciado como assistente de Treinamento. É formada em Hotelaria pelo Senac, mas cursou High School na Austrália e está completando os estudos com uma pós em Gestão de Negócios na Fundação Dom Cabral. “Depois que iniciei meu trabalho no RH, busquei alguns cursos que falassem sobre departamento pessoal, entrevista de seleção por competências e especializações em treinamentos, jogos e dinâmicas para treinamentos, formação de treinador departamental etc. Todos esses cursos foram realizados entre 2006 e 2012 em escolas de negócios. Tive também oportunidade de participar de inúmeros cursos oferecidos pela Hyatt, todos relacionados à minha área de atuação – alguns fora do País, como a certificação no treinamento Situational Leadership, que realizei em Dubai, nos Emirados Árabes. Busquei também cursos de extensão sobre assuntos que me interessam fora da minha área de trabalho específica, mas que acrescentaram na minha vida profissional diária”.

A gerente conta que ainda estava na faculdade quando ingressou na Hyatt, inicialmente auxiliando na logística dos treinamentos, comunicação interna, nos programas de reconhecimento e nas atividades sociais desenvolvidas para os funcionários. Depois de pouco mais de um ano, migrou para a área de Recrutamento e Seleção, onde permaneceu por um ano como responsável pela primeira entrevista e pela gestão dos processos seletivos internos e externos do hotel. De volta à área de Treinamento e Desenvolvimento, já como gerente, Carolina é responsável por programas que envolvem estagiários e trainees, entre outras atribuições. “Sempre me interessei pelo tema da sustentabilidade, então também fiz parte como coordenadora, professora e voluntária de programas de responsabilidade social e ambiental que acontecem dentro do hotel. Fui aproveitando as oportunidades que iam aparecendo, fazendo sempre o meu melhor, tentando aprender com as pessoas que já tinham experiência e me voluntariando para novos projetos que me trouxessem mais responsabilidades. Me candidatei a funções que talvez não estivesse totalmente pronta para assumir, mas tive a confiança de meus líderes e todo o suporte durante o processo de aprendizado”.

A receita de sucesso ela atribui ao amadurecimento profissionalmente, que busca alcançar aprendendo com os erros, principalmente quando trabalha ou gerencia pessoas com características diferentes das suas, seja de personalidade, idade ou experiência. “Busco entender e absorver os pontos fortes destas pessoas para poder aproveitar o melhor de cada um. Por ter sido exposta a tantos desafios como fui, acredito que isso colabore com a minha vontade de desenvolver outros profissionais, para que eles também aproveitem as oportunidades que o local em que trabalhem possa oferecer, seja uma nova posição, a gestão de um projeto ou novas responsabilidades”, finaliza.

Respeito acima de tudo

Com apenas 30 anos, Thiago Sbarai é gestor de Desenvolvimento em RH da Estanplaza Hotels, respondendo pelos projetos de desenvolvimento de estagiários e futuras lideranças da área operacional da rede, além de apoiar ações nos projetos de avaliações de líderes, captação de estagiários, pesquisas de clima e entrevistas de desligamento. Formado em Hotelaria pela Universidade Anhembi Morumbi, pós-graduado em Gestão de Negócios em Serviços pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Thiago tem especialização profissional em Hotelaria pela Universidade de São Paulo e atualmente conclui o mestrado em Hospitalidade pela Universidade Anhembi Morumbi. “Entrei no mercado de trabalho em 2002 como estagiário de Recepção no antigo Meliá Confort Jardins, hoje Slaviero. Em 2003 ingressei na Estanplaza, inicialmente como estagiário da unidade Berrini, chegando dois anos depois a Líder de Recepção do Estanplaza Funchal Faria Lima”.

Com dez anos de ‘estrada’, apesar da pouca idade, Thiago considera que ser gestor de uma área que hoje impacta no desenvolvimento de tantos colaboradores é uma conquista e também um desafio. “Quando entramos no mercado, queremos funções com visibilidade, atribuições que geram consequências na organização, mas quando tudo isso chega é preciso ter consciência de que cada passo seu esta sendo observado, questionado e avaliado. Mais do que um gestor você precisa ser um exemplo de profissional e isso muitas vezes é mais importante que a própria função”, afirma Thiago, que pretende seguir a carreira na área de Desenvolvimento de Pessoas.

A quem quer que esteja iniciando sua trajetória profissional, a professora Elizabeth Wada, diretora de Pós-Graduação Stricto Sensu, coordenadora do Programa de Mestrado em Hospitalidade e Diretora da Escola de Turismo e Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi, lembra que o essencial é buscar conhecimento constante, não somente em Hotelaria, mas em Artes, Economia, Política, Tecnologia e principalmente em cultura geral. “Quando receber uma promoção e passar a coordenar os trabalhos de uma equipe, lembre-se de tudo o que vivenciou até então. A carreira profissional não é uma arena de ‘vinganças’. Caso você tenha passado por situações que não gostou, não faça a mesma coisa com uma pessoa de sua equipe. A realização profissional, nessa ou em qualquer profissão, vem da alegria em atender a cada uma das demandas, simples ou complexas; para um hóspede, encontrar seu pijama dobrado em uma gaveta talvez seja mais importante que a aprovação do orçamento anual ou a ampliação do centro de convenções. Para aqueles que gostam de ‘gente lidando com gente’ a Hotelaria é uma área de realização plena”, atesta.

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