Chá, uma bebida ancestral

Milhares de sabores e combinações vindas dos quatro cantos do planeta

Cercada de mistérios e histórias, o chá é uma das bebidas mais antigas do mundo e teria nascido ao acaso quase cinco mil anos atrás. Segundo uma lenda chinesa, em 2.737 a.C o imperador Shen-Nung, que muito preocupado com a higiene só tomava água fervida, estava sentado sob uma árvore quando algumas folhas caíram em seu copo. Ao beber a curiosa infusão, o imperador sentiu uma sensação inexplicável de bem-estar. A árvore era uma Camellia sinensis e, assim, nascia a ancestral bebida.

Índios, por sua vez, atribuem a descoberta do chá ao príncipe Bhodi-Darma, filho de Kosjuwo, rei das Índias. O príncipe teria viajado para a China durante o reinado do Imperador Xuanwudi pregando o budismo e defendendo a meditação, o cultivo da mente. Durante a viagem, teria feito o voto de meditar por sete anos sem dormir. No final de cinco anos, o príncipe estava sendo vencido pelo cansaço quando reuniu algumas folhas de uma árvore desconhecida e as mastigou. Os benefícios desta planta proporcionaram força para que Bhodi-Darma cumprisse sua promessa.

Na versão japonesa, após três anos o jovem cai no sono e sonha com a mulher que ele um dia amou. Ao acordar, furioso com sua fraqueza, arranca as próprias pálpebras e as enterra. Retornando ao local, tempos depois, nota que um arbusto desconhecido nascia ali. O príncipe então masca algumas folhas e nota que elas produzem o efeito de manter seus olhos abertos.

Fantasiosas ou não, as informações sobre a origem do chá são divididas entre órgãos dedicados ao estudo da bebida, como o United Kington Tea Council, na Inglaterra, e a companhia Mariage Frères, na França. Este último possui diversos salões de chá espalhados pela França, Alemanha e Japão, um empório e um museu sobre o tema.

Já no Brasil, há registros de que as primeiras mudas de chá teriam sido plantadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a mando de Dom João VI, pelas mãos de um grupo de chineses trazidos de Macau, então colônia portuguesa. No final da matéria, publicamos uma entrevista com o secretário geral da Mariage, Philippe Cohen-Tanugi.

A arte do bem receber

Em 2002, Maria Helena Petry transformou em pousada a casa de veraneio da família, localizada na praia de Jurerê, uma das mais badaladas da capital catarinense. Inspirada no velho hábito de servir o chá das cinco, verdadeiro ritual de confraternização para Maria Helena, o novo empreendimento foi batizado de Pousada dos Chás, e a bebida virou tema central da hospedagem.

A pousada possui três categorias de apartamentos – Superior, Luxo e Super Luxo – além das suítes Master. Todas com decoração clean e nome de chás – Guaco, Hortelã, Confrei, Erva da América, Ginseng, Cravo da Índia e Eucalipto. No jardim da propriedade são plantadas algumas das ervas servidas no ritual das cinco horas.

Encantando os hóspedes tanto no sabor quanto na beleza de suas guloseimas fashion, o hotel londrino The Berkeley oferece o Pret-à-porter, chá da tarde inspirado no mundo da moda, com temas e cores renovados a cada seis meses. Além de bolos, canapés e sanduíches em formatos inusitados, como chapéus, bolsas, sapatos e vestidos, o serviço oferece uma seleção de infusões e chás feitos com folhas soltas em sabores marcantes, como baunilha, chocolate com menta, camomila, âmbar, entre outras opções.

Em todos os spas da rede Banyan Tree espalhados pelo mundo a tradição é a mesma – uma xícara de chá é servida antes e depois do tratamento, o que muda é o sabor já que as folhas são frescas e dependem das possibilidades de cada região. Nos hotéis Tivoli, o cliente é recebido com um chá de menta com mel para ajudar a iniciar o processo de relaxamento. “Após o tratamento, oferecemos uma opção de gengibre com mel para revitalizar corpo e mente”, explica o diretor de Marketing e Vendas da rede portuguesa no Brasil, Cristian Bernardi.

Boutiques de chás

Inaugurada no final do ano passado no Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, a Talchá comercializa cerca de 60 blends vindos de diversos países como China, Japão, África do Sul e Índia. “Nunca fui aficionada pela bebida. Minha experiência na infância era quando eu ficava doente – e, diga-se de passagem, não era nada agradável -, e na praia no Rio de Janeiro, com o famoso mate. Também não achava aqueles chás de saquinhos saborosos”, conta a proprietária Mônica Rennó.

A empresária só descobriu o gosto pelo chá após uma viagem a Paris, onde ela e a filha Mariana Schvartsman conheceram a casa de chás Mariage Frères. “Ficamos maravilhadas com a beleza do lugar. Experimentamos os chás e fomos surpreendidas pelos sabores e aromas. Depois dessa experiência resolvemos estudar e nos aprofundar acerca da Camellia sinensis, que é a planta responsável pelos chás brancos, verdes e pretos. Deste estudo surgiu a ideia de criar uma marca brasileira de chás gourmets”, explica Rennó.

Antes de abrir a Talchá, Mônica vendeu os produtos pela internet durante quatro meses. No período, a empresária disse ter percebido que o público preferia as opções aromatizadas. Hoje, os mais procurados na casa de chás são os brancos, verdes e pretos aromatizados. “Os aromas mais apreciados são frutas vermelhas e as tropicais, como abacaxi. O rooibos, uma erva da África do Sul também tem agradado pelo sabor naturalmente adocicado e por não conter cafeína. Já as infusões de frutas fazem muito sucesso entre as crianças”, pondera. Entre os mais exóticos, destaque para o Flowring Tea, uma flor costurada ao chá que se abre em contato com a água quente.

Também em São Paulo, a The Tea Gourmet oferece um mix de casa de chá e loja, aposta dos empresários e amantes assumidos da bebida Daniel Neuman e Leandro Toledano. A loja oferece 35 opções divididas entre pretos, brancos, verdes, rooibos, oonlong e ayurvédicos e podem ser consumidas geladas ou quentes. O produto chega à mesa in natura, acompanhado por uma jarra preparadora transparente. Assim, o cliente pode vivenciar a experiência sensorial da preparação do chá.

Para acompanhar a bebida, a chef Rita Taraborelli prepara uma seleção de doces feitos com ingredientes selecionados incluindo os próprios chás da marca. Algumas opções: crumble de maçã com Masala Chai (versão do chai tradicional no Norte da Índia), o bolo de frutas secas com Cinnamon Orange (laranja com canela) e o Brownie de chocolate Amma com Rooibos Bourbon (mistura de caramelo e baunilha).

Para Mônica Rennó, os chás combinam com qualquer tipo de comida. “As harmonizações ressaltam os sabores e completam a refeição. Os brancos e verdes ficam melhores com pratos leves e doces suaves. Os pretos pedem sabores mais encorpados e sobremesas marcantes, como chocolates”, explica ao afirmar que sempre deixa a escolha do chá que vai acompanhar o prato para o cliente, mas sugere um gelado para a refeição e outro quente para finalizar. “A melhor harmonização e a nossa satisfação é ver o cliente degustar um chá aqui na loja e, depois de toda a sua experiência, levá-lo para casa”, finaliza.

Confira a entrevista exclusiva com o francês Philippe Cohen-Tanugi, secretário geral da Mariage Frères.

Hotelnews – Quantos tipos de chás existem no mundo atualmente?
Philipe Cohen-Tanugi – Hoje são milhares deles. Todos os chás vêm da mesma planta, a Camellia sinensis, o que os difere é a forma como as folhas são processadas. A Mariage Frères divide os chás em oito categorias: brancos, verdes, amarelos, azuis, pretos, maturados, comprimidos e aromatizados.

HN – Qual é o mais consumido?
PCT – O chá verde é o favorito dos japoneses e dos chineses, enquanto os indianos e os europeus consomem mais o preto. Aqui na Mariage Frères, ambos são escolhidos pelo sabor suave e natural combinados a fragrâncias secretas de frutas e flores da China e do Tibet.

HN – O chá apresenta terroir, como os vinhos e chocolates?
PCT – Certamente. A noção de terroir é muito importante na composição dos chás. Da mesma forma que os grandes vinhos franceses são identificáveis pela sua vinha, o chá também exibe as características da região. O clima e as condições do solo de uma região podem ter um efeito espetacular sobre o sabor final e o aroma das folhas. As diferentes altitudes, drenagem da água das chuvas, química do solo, condições de vento e temperatura conferem mais ou menos força, aroma e cor à bebida.

HN – Além da infusão, o que mais é possível fazer com o chá?
PCT – A popularidade do chá cresce a cada dia. A bebida satisfaz o desejo atual de produtos que unem os diversos sabores do mundo aos comprovados benefícios à saúde. O sucesso a longo prazo, no entando, está enraizado em uma combinação de criatividade artística e inovação. Pensando nisso, a Mariage Frères revolucionou o setor ao lançar suas geleias, velas perfumadas e incensos feitos com diversos tipos de chá.

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