Alexandre Sampaio: precisamos de hotelaria em regiões do agronegócio e polos industriais

A pandemia de Covid-19 afetou diretamente a hotelaria, devido à paralisação das viagens de lazer e corporativas. E segundo o presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), Alexandre Sampaio, o principal desafio hoje é sobreviver na crise e não fechar as portas. Em entrevista para a entidade Global ReformBnB Forum, Sampaio destacou as ações de apoio à hotelaria que deveriam ser tomadas pelo governo federal e também o cenário ideal para o setor.

Uma grande oportunidade para a retomada, de acordo com o presidente da FBHA, seria uma expansão nas áreas do Brasil em que o agronegócio é forte e também nos destinos tradicionais de outras atividades envolvendo mineração e petróleo. A Hotelnews é parceira global do ReformBnB e tem acesso ao conteúdo com exclusividade.

Confira a entrevista abaixo:

ReformBnB: Qual é o maior desafio para a hotelaria do Brasil neste momento?

Alexandre Sampaio: Na atual conjuntura, entendo como desafio para a hotelaria nacional a sobrevivência, mantendo o pagamento de funcionários, honrando contratos, fazendo frente a tributos e também liquidando as despesas de fornecedores. O governo federal criou mecanismos que ajudam neste quadro, mas a dúvida é se o “antigo normal” retornará após a vacinação. Temos uma grande controvérsia a respeito dos mercados de lazer, corporativo e de eventos, se eles retornarão aos níveis pré-pandemia a curto prazo.

RB: O que o governo tem feito para ajudar o setor nas dificuldades?

AS: O governo federal estruturou uma série de procedimentos legais, através de portarias e leis que tiveram que ser ratificadas no Congresso. As medidas contemplaram o adiamento no pagamento de tributos e suspensão de vencimentos de parcelas de financiamentos de bancos públicos e privados, estes últimos através de compensações pelo Banco Central.

Houve ainda a possibilidade de suspensão dos contratos de trabalho e/ou lay off – redução da carga horária, com a proporcional diminuição da remuneração paga. Nestes dois casos, a autoridade pública complementou parte do salário e exigiu a manutenção do vínculo empregatício (estabilidade). Ainda criou mecanismos de garantia para a tomada de empréstimos pelas pequenas e micro empresas para que elas acessassem o sistema financeiro.

Também alavancou através de fundos de bancos estatais a fiança parcial para que médios e grandes empresários conseguissem capital de giro no sistema bancário privado, financiou a folha de pagamentos com juros subsidiados e alterou a regulamentação do consumidor para que fornecedores de turismo não tivessem necessidade de devolver depósitos antecipados até o fim da pandemia. Ainda prorrogou a validade de certidões de adimplência de impostos públicos para que não houvesse dificuldade em tomar financiamentos e capitalizou um fundo específico para o segmento turístico, visando empréstimos com carência, prazos longos e juros baixos.

RB: E o que o governo poderia fazer em complemento a estas ações?

AS: Creio que falta adiar ainda mais o pagamento de tributos federais, dado que os empreendimentos que voltaram a funcionar com protocolos estão com pouco faturamento e falta de consumidores em níveis satisfatórios, operando com prejuízo. As medidas trabalhistas citadas acima precisam vigorar até o fim do ano e as autoridades locais precisam flexibilizar as exigências do limite de oferta, desde que as empresas tenham medidas sistemáticas e rígidas de segurança médica e sanitária para garantir a saúde de colaboradores e clientes.

RB: Qual foi o pior cenário da hotelaria brasileira até agora na pandemia?

AS: Tivemos a perda de milhares de empregos, fechamento de estabelecimentos, a imagem do País com uma pandemia descontrolada e centenas de milhares de óbitos. O fechamento de nossas fronteiras impossibilitou a vinda de estrangeiros e promoveu um dano à cadeia produtiva, que vai demorar a se restabelecer.

RB: E qual seria o contexto mais desejado?

AS: Seria termos hotelaria em fronteiras agrícolas do agronegócio com alta ocupação, assim como nas regiões produtoras de petróleo, mineração e polos industriais, geralmente no interior do País. O PIB brasileiro, apesar da queda, tem tudo para se recuperar rápido, beneficiando parte dos hotéis dos grandes centros. E o profissionalismo dos empresários de regiões turísticas é o que está gerando bons níveis de ocupação, muito pela seriedade deles no que diz respeito à segurança para receber os hóspedes.

RB: O que precisa acontecer internacionalmente para o setor lidar com a crise?

AS: É preciso iniciar urgentemente o processo de vacinação em massa, pois somente com a imunização da população o turismo tem chances de voltar lentamente aos níveis pré-pandemia. Há um longo caminho pela frente até o setor se recuperar totalmente. No entanto, muitas empresas não sobreviverão. Precisamos de grandes campanhas com a Organização Mundial do Turismo (OMT), incentivando todos a viajar de maneira segura.

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