Afroturismo é muito mais que turismo

Por Tania Neres

Quando se ouve a palavra afroturismo o que vem em mente?  Segundo o Google na primeira procura ele sugere que alteremos para Agroturismo. Mas e você já afroturistou alguma vez? Muitas vezes já mas ouviu a história que foi escrita pelo opressor.

O afroturismo que faz parte do Turismo Étnico é o segmento que mais cresce no mundo, este crescimento deve-se a todas as barreiras que foram quebradas pela população do continente africano e toda a população negra em diáspora. E porque não continuar como Turismo Étnico? Porque étnico entra todas as etnias e o que queremos desenvolver e promover é o Turismo Afro para desenterrar toda a história de um povo que foi apagada devido a força que este povo tem .

Estar na África do Sul e poder visitar todos os museus e estátuas que contam a história de um povo que lutou contra o Apartheid é somente a ponta do Iceberg, além da história moderna o turista pode visitar o Museu Human Kind onde descobrirá a história do Primeiro Homem.

O afroturismo se fortaleceu no momento que uma estátua de um opressor foi derrubada, e esperamos que muitas outras sejam levadas abaixo e que no lugar delas que sejam levantadas a história de pessoas que foram realmente importantes na construção da Humanidade, tais como Tebas – arquiteto escravizado que será homenageado por sua importante participação – se faz necessário e urgente a ressignificação de fragilidade, de um povo que criou a matemática, a engenharia, o papel, a escrita e tudo de mais importante para o desenvolvimento de toda uma civilização.

No Brasil já existem muitas empresas de turismo que tem como sua especialidade o afroturismo, para desfrutar experiências em Comunidades Quilombolas, Visitar Terreiros de CandombléCaminhada Negra revisitando pontos turísticos das cidades com intuito de apresentar lugares, estátuas e histórias que foram apagadas. Sugiro que as operadoras brasileiras procurem incluir em seus catálogos de vendas os serviços destas empresas que tem como base serem negros e expert no produto, não há nada para ser criado. Lembrando que o afroturismo não foi feito tão e somente para o público afro, é feito por negros para todos, pois para o negro a experiência o empodera e para o não negro a experiência o faz repensar sobre o racismo e fortalecer a quebra deste mal.

O afroturismo tem e terá um papel muito mais amplo do que uma atividade turística. Ele trará a possibilidade de reconectar os negros, principalmente os brasileiros com sua cultura e história. É muito mais que uma visita a um quilombo. Com aumento do afroturismo, podemos transformar o setor para que o atendimento a turistas negros seja antirracista.

Sim, hoje temos muitos relatos de turistas negros que sofrem racismo em suas viagens, infelizmente. Por isto a importância do afroturismo. Definição de turismo são as atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e permanência em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano consecutivo, com fins de lazer, negócios ou eventos e acrescento a atividades na mesma cidade  visitas a restaurantes, a museus , tours por locais históricos, atividades culturais como artes cênicas ou shows.

E quando um negro viaja ou faz uma atividade ligada a um dos itens descritos acima é afroturismo. Segundo pesquisa nacional realizada em dezembro do ano passado pelo Grupo Croma em parceria com a Créditas sobre o principais desejos de consumo dos brasileiros este ano , viagens nacionais ocupam o segundo lugar ( 39% ) e viagens internacionais o terceiro lugar ( 17% ). E se pensarmos que no Brasil os negros são 56% da população, podemos entender o potencial do afroturismo, reforçando que o afroturismo pode ser praticado por todos. 

Ampliar a compreensão sobre o afroturismo é muito importante para que sua prática entre como opção quando as pessoas estiverem planejando suas viagens ou passeios. Atualmente ainda são tímidas as buscas por viagens com este perfil e acredito que muito por falta de conhecimento das opções já existentes.

Infelizmente, também temos pouco espaço e interesse das midias tradicionais do setor do turismo, o que torna nossa batalha pela divulgação ainda maior. Mas acreditamos que devido aos crescentes movimentos sociais que pedem mais diversidade e inclusão em todos os setores, cada vez mais haverá o interesse pela pratica do afroturismo.  

Investir no apoio ao afroturismo pode ser muito benéfico para o turismo no Brasil , pois se temos mais negros engajados em viajar para vários destinos nacionais, aumentamos as receitas do setor, principalmente para este momento da pandemia em que o turista interno será o principal cliente do setor.

E volto a repetir, se a população negra é a maioria no país, acredito que é uma questão simples pensar no potencial de retorno. Hoje, os negros não tanto quanto poderiam, pois o turismo tradicional, com raríssimas exceções, não demonstra empatia em combater o racismo. Para um negro que viaja, estar em certos espaços, é um ato de coragem.

Por que vocês acham que tem poucos negros em voos, hotéis, restaurantes, etc? E para desmistificar o questão financeira, informo que o potencial de consumo da população negra brasileira é de R$ 1 trilhão e 700 mil reais. Parece até óbvio ter que repetir mas se isentar no combate ao racismo ou ignorá-lo gera prejuízos para qualquer negócio que deseja se lucrativo no Brasil atualmente.  

Afroturismo é muito mais do uma visita (necessária e importante) a um quilombo ou uma viagem para países do continente africano. Você pode praticar afroturismo realizando um tour com um guia ou uma agencia afro em lugares históricos na sua própria cidade. Indo a um restaurante afro ou com gastronomia afro diaspórica , você pratica afroturismo. Um negro viajando a negócios, lazer ou eventos é afroturismo.  E por isto a importância de aumentarmos o conhecimento sobre o tema , para consequentemente aumentar a sua prática. “


Tânia Neres é supervisora de Viagens e Lazer do Grupo Salvatur 


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