Academia e mercado

Como os cursos de graduação em hotelaria estão fazendo a ponte?

De um lado o mercado ávido por mão de obra qualificada, de outro um contingente de profissionais recém graduados e ansiosos pela primeira oportunidade de trabalho. A ponte entre um e outro nem sempre é um caminho fácil a percorrer e passa, necessariamente, por uma instituição de ensino. Buscando aproximação cada vez maior entre uma ponta e outra da cadeia, os cursos de hotelaria – para manter a discussão do tema em nosso campo – têm flexibilizado a grade formada a partir das diretrizes curriculares do Ministério da Educação para adequá-la às reais necessidades do mercado.

Levando em conta a rapidez com que o mercado caminha ou alterna suas necessidades, o ideal seria uma atualização de conteúdo constante, como acredita Mariana Aldrigui, docente do bacharelado em Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, que teve o tema como assunto principal de sua tese de mestrado. “A alteração de uma grade ou matriz curricular para inserir novas disciplinas é muito trabalhosa em termos burocráticos. Já a atualização de conteúdo é mais fácil porque depende apenas do professor e da coordenação”, avalia.

Não opinião da professora, ainda falta profundidade aos conteúdos de gestão efetiva dos cursos de Hotelaria, Turismo e Lazer, geralmente mais concentrados em aspectos operacionais específicos. “Da mesma forma, os alunos destes três cursos sabem muito pouco sobre aspectos contábeis e de gestão financeira, o que, convenhamos, é fundamental para a atuação na média e alta gerência”, pondera. Esse pode ser o motivo que explica a queixa recorrente dos formandos em hotelaria mantidos em funções operacionais enquanto os cargos estratégicos são ocupados por egressos da Administração do ou Marketing. “Alunos mais interessados acabam fazendo pós graduação em finanças, por exemplo”, completa Mariana.
Para Elizabeth Wada, coordenadora de Mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi e consultora em Gestão Estratégica, a questão da colocação do egresso da área em atividades operacionais é habitual no início da carreira. “A dissonância está nesse conceito de início de carreira. Para a Geração Y, são seis, nove meses, enquanto que as empresas ainda consideram que dois anos na mesma função é perfeitamente aceitável”.

A coordenadora lembra que a espinha dorsal de qualquer hotel é a área operacional e que, portanto, formados em Hotelaria precisam ter a correta compreensão e o desenvolvimento de habilidades e competências para o domínio dessa área. “Idealmente, somente após uma intensa e rica vivência operacional, poderia haver a primeira oportunidade administrativa. Também é necessário compreender que há setores que não podem abrir mão de especialistas, tais como Finanças, Recursos Humanos, Engenharia e Manutenção, Marketing. Se o estudante tiver a vontade e a intenção de atuar numa das áreas de especialidade, deverá buscar o complemento de formação numa pós-graduação lato sensu (especialização, MBA) ou stricto sensu (Mestrado e Doutorado)”, recomenda.

Teoria e Prática

O Fiesta Hotel Group, que estreou suas operações no Brasil com a abertura do Grand Palladium Imbassaí Resort & Spa no ano passado, trouxe executivos da Espanha – Luís Fráguas (gerente geral) e Oscar Mas (diretor de Vendas Cone Sul) – para ocupar os cargos principais, fato que também é comum entre as grandes redes. O gerente comercial, Thiago Pacos, é brasileiro, mas formado em Administração e em sua equipe, no escritório em São Paulo, apenas dois dos oito profissionais têm formação em Hotelaria. A equipe mista, na opinião de Pacos, amplia o foco da gestão para além do operacional.

Oscar Mas lembra, ainda, que como o resort ocupa uma área de proteção ambiental, o IMA (Instituto do Meio Ambiente) da Bahia, determina que 70% dos colaboradores sejam locais, oriundos de um dos nove vilarejos vizinhos de Mata de São João, o que também reduz em muito a oferta. A seleção foi feita em parceria com o Instituto Imbassaí, que avaliou cerca de 800 candidatos em diversas áreas relacionadas à Hotelaria e Turismo. A rede espanhola, segundo Mas, também se vale de metodologia e procedimentos próprios para capacitar a equipe e estimula planos de carreira desenvolvidos por meio de intercâmbio dos executivos nos destinos em que mantém operação.

A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG), são três das dez instituições de ensino que obtiveram quatro pontos na avaliação do Ministério da Educação sobre os seus cursos de Hotelaria. Para formar o ranking, o MEC avalia o conceito da instituição de ensino, do curso, as instalações, titulação do corpo docente, pesquisas realizadas e inserção na comunidade, entre outros fatores.

O curso de Bacharelado em Hotelaria da PUC-RS, segundo a coordenadora Elisabeth Abdala, existe desde 2004 e tem o conjunto de disciplinas composto com base nos resultados obtidos através da realização de pesquisas junto ao mercado, estudos acadêmicos bem como nos conhecimentos e experiência dos professores. “A matriz do curso é atualizada a cada revisão do Projeto Pedagógico, que ocorre sempre que detectada a necessidade de mudança a fim de manter a formação profissional adequada às demandas do mercado”, conta.

Segundo a coordenadora, o subaproveitamento do egresso dos cursos pelo mercado foi identificado pela PUC-RS em meados de 2007, quando se formou um grupo de estudo para analisar o contexto e suas razões. Esse trabalho deu origem, já em 2009, ao Curso Superior de Tecnologia em Hotelaria, com ênfase nos processos de gestão e não nas atividades operacionais, como ela explica. A atividade prática é enfatizada na maior parte das disciplinas do curso, nos laboratórios próprios da instituição e em visitas técnicas.

No Nordeste, a primeira instituição de ensino a oferecer uma graduação em Hotelaria foi a Universidade Federal de Pernambuco, em 1996. Segundo a atual coordenadora, Viviane Salazar, o curso já foi construído com foco na gestão de empresas hoteleiras. A absorção dos alunos pelo mercado, no entanto, esbarra em uma questão circunstancial. “A grande maioria dos hotéis da cidade tem administração familiar e os proprietários, geralmente, uma mente mais fechada. Isso prejudica a ascensão dos formandos, que chegam no máximo aos cargos de gerência média”, lamenta.

Adriana dos Reis Ferreira, que coordena o curso de Turismo e Hospitalidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, no campus Goiânia, diz que a grade atual é a mesma desde o reconhecimento em 2004, mas as ementas e os conteúdos são semestralmente avaliados, com os ajustes e complementos necessários. O grande problema do curso, segundo a coordenadora, é a evasão dos alunos antes do término e um dos motivos apontados é a baixa remuneração do mercado.

Entre as particulares, uma das mais antigas e tradicionais é a Castelli – Escola Superior de Hotelaria, em Canela (RS), que mantém convênios com redes nacionais e internacionais de hotéis no Brasil e com a rede Relais Chateaux na França, o que favorece a introdução do aluno no mercado de trabalho por meio de estágios, programas de trainees e até mesmo a contratação efetiva. “ Em média, 90% dos alunos concluintes são selecionados. Atualmente, temos ex-alunos ocupando cargos gerenciais em diversos hotéis de ponta pelo País”, atesta a vice-presidente Silvana Castelli.

A Estácio é outra instituição que tem reforçado as parcerias internacionais para garantir mais conteúdo e vivência prática aos seus bacharéis. “Em 2006, formatamos uma parceria com a Ecole hôtelière de Lausanne, na Suíça, e passamos a oferecer o bacharelado com essa chancela”, conta o diretor de Mercado e Cursos de Nicho, Marcus Carruthers. “Nossos alunos também podem estudar de seis meses a dois anos em Lausanne, ou em qualquer instituição parceira ou afiliada à EHL, em países como México, Dubai, China, Portugal, Cingapura e India. “No Rio de Janeiro temos 100% de empregabilidade e exemplos de alunos ocupando cargos de gerência e direção em hotéis como Fasano Rio, Copacabana Palace e Sofitel, apenas para citar alguns”, ressalta.

No Centro Universitário Senac, a organização curricular também é pautada num diagnóstico que leva em consideração a heterogeneidade do mercado hoteleiro e as demandas de formação do mercado de trabalho nesta área. “Trabalhamos com a construção de um perfil de competências”, como ressalta Thaís Carvalho Lisboa, coordenadora do curso que já formou cerca de cinco mil alunos ao longo de sua história. “Acredito que como em qualquer profissão, existe o tempo de evolução e ganho de experiência para galgar posições de gestão. Porém, nossas coordenações percebem que muitos dos alunos que se esforçam para atuarem em boas posições no mercado, geralmente as conquistam”, finaliza.

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