A logística da desmobilização

Com a onda de renovações e retrofits, que destino dar ao que é substituído?

Não é difícil imaginar o quão complexa pode ser uma logística de desmobilização hoteleira. Dobre a bitola quando pensar nas grandes redes, que passam incontáveis vezes pelo mesmo processo, e agora triplique considerando a forte onda de renovações e retrofits que invadiu o setor, de norte a sul do Brasil.

No mês de outubro, durante o seu fórum anual de compras, a Accor reuniu 350 fornecedores ávidos pelas oportunidades de negócios com a rede que deve fechar 2013 com um volume de atividades no valor de R$ 2 bilhões. Desse montante, cerca de R$ 600 milhões são destinados à compra de insumos que mantêm em operação os 181 hotéis inseridos hoje na sua carteira de administração na América Latina.

A acelerada expansão da rede, especialmente da bandeira econômica Ibis, é apontada pelo diretor de Compras para a América Latina, Sebastién Brunel, como um grande desafio ao seu departamento, tanto pelo ponto de vista da competitividade quanto pela logística, considerando a implantação em cidades mais distantes das grandes capitais. E quase na mesma proporção que novos projetos vão sendo lançados, os antigos entram em fase de renovação, é um processo contínuo, constante e não muito diferente do que acontece em todo o mercado.

Na mudança mais recente e ampla, a Accor está investindo R$ 15 milhões na implantação de um novo modelo de cama, a Sweet Bed by Ibis, especialmente produzida para essa bandeira. Sorte dos colaboradores, que terão prioridade na compra das antigas pelo preço quase simbólico de R$ 90. Segundo Brunel, a prerrogativa da distribuição do que é substituído é quase sempre do RH, principalmente móveis e equipamentos eletrônicos. A rede também reserva uma parte para doações, caso dos enxovais, por exemplo, e alguns itens entram na chamada logística reversa, quando o próprio fornecedor se incumbe da dar destino ao que repõe.

Essa é também a solução mais utilizada pela Atlantica, como conta Leandra Gallo, gerente-geral do Radisson Faria Lima, na capital paulista, um dos hotéis administrados pela rede, que recentemente finalizou a quarta etapa de uma renovação iniciada há três anos. O maior volume de artigos desmobilizados, segundo a gerente, tem origem nos apartamentos, não apenas nos momentos em que acontecem as grandes renovações, como agora, mas nas trocas periódicas de itens mais sujeitos a desgaste.

Desse universo, o que não é doado ou descartado – caso das placas de madeiras usadas em acabamento – é posto à venda para os colaboradores, dentro de um processo que demanda tempo e muita organização. Os itens são separados por gênero, contados, fotografados e catalogados para a venda, em dias e horários específicos. As peças de enxoval, segundo a gerente, têm saída quase instantânea. “Na última troca, vendemos tudo em uma hora e meia”, conta. Como as renovações acontecem por etapas e grupos de andares, a movimentação é facilmente percebida pelos colaboradores, que já ficam por ali de olho no que e quando será substituído. “Temos que colocar regras rígidas para que ninguém seja privilegiado, por isso só depois de tudo catalogado é que abrimos as vendas”, completa.

Novo nicho de negócio
Essa solução de distribuição interna pode parecer simples, mas não é, considerando toda a logística envolvida no processo. Por esse motivo, há quem acabe optando pela terceirização desse trabalho a empresas especializadas em leilões ou vendas virtuais, que também têm lucrado com o aquecimento do setor hoteleiro.

O hoje sócio na empresa eStoks.com.br, Ricardo Salazar de Farias, atentou para a movimentação do segmento, quando atuava no ramo da construção civil. A empresa foi constituída em 2010, inicialmente com o foco na venda do mobiliário usado na montagem dos apartamentos decorados que as construtoras e incorporadoras utilizam nas fases iniciais de lançamento dos projetos residenciais r corporativos. Entre o público comprador, Ricardo já tinha pequenos hotéis, pousadas, hostels, hospedarias e pensões, e observando o número crescente de reformas promovidas pelos hotéis de maior porte, e principalmente redes, entendeu que este era um segmento que também poderia virar fornecedor.

Assim sendo, criou uma divisão específica para a hotelaria e a partir de uma base no Rio de Janeiro, foi agregando parceiros em diversas outras localidades do País para a composição de um novo inventário, a partir da desmobilização do setor, ou seja, a empresa toma para si a responsabilidade de conduzir todo aquele processo citado pela gerente-geral do Radisson. “Fazemos tudo pessoalmente, o inventário, a catalogação e a precificação, e só somos remunerados se realmente a venda for efetivada”.

A base de compradores do site da eStoks é formada por 25 mil pessoas, que se cadastram para poder adquirir os produtos com até 70% de desconto sobre o valor de item similar no mercado. Quando se tratam de seminovos, o desconto é um pouco menor, em torno de 50%. Os consumidores se responsabilizam pela retirada das peças e, claro, não têm direito à devolução nesse modelo de negócio.

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