A hora e a vez do retrofit

Hotéis apostam na estratégia como forma de renovação e reposicionamento de mercado

O retrofit virou palavra de ordem em um momento em que a hotelaria brasileira acelera o passo para chegar renovada a 2014. A estratégia que está movimentando o setor e os profissionais da construção civil ganhou força na última década, embora o conceito seja muito anterior a isso. Hotéis emblemáticos, como o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, já lançaram mão da estratégia como forma de recuperar “o glamour” da época de ouro da hotelaria carioca, como lembra o consultor hoteleiro e presidente do Secovi, Caio Calfat, que entende o retrofit como uma poderosa ferramenta para empreendimentos e destinos que aspiram um novo posicionamento no mercado.

Com o exemplo do Copa, Calfat cita também a renovação do Hotel das Cataratas, ambos pertencentes ao grupo Orient-Express, e reprojetados pelo arquiteto francês Michel Jouannet com investimentos milionários, e o antigo Santapaula Iate Clube, na beira da Represa do Guarapiranga, em São Paulo, para citar um case fora da hotelaria, e que está acompanhando mais diretamente. “O local ficou abandonado por mais de 20 anos até que os proprietários vislumbrassem ali uma oportunidade de resgatar não apenas a propriedade, como toda a área do entorno, dentro de um amplo projeto que pode virar um marco arquitetônico”, conta. A obra, quando concluída, vai contemplar um centro de convenções do tamanho de meio Anhembi e um hotel, entre outras instalações que podem surgir ao longo de uma área de 13 quilômetros da orla de Guarapiranga, que já é considerada a praia dos paulistanos.

Mas é, de fato, na hotelaria que se concentra hoje a maior parte dos projetos de renovação. Somente na Atlantica Hotels, segundo a diretora de Produto e Segmentos, Regina Segui, 40% das unidades sob a administração da rede estão passando por alguma espécie de intervenção. “Quando incorporamos a administração de um hotel assumimos também a responsabilidade de garantir o patrimônio e dar retorno aos investidores. A atualização constante do produto é uma necessidade premente nesse processo, que visa também conferir mais competitividade aos empreendimentos. Nossos hóspedes são, na grande maioria, executivos estrangeiros e brasileiros que viajam com frequência e estão habituados aos padrões da hotelaria internacional, por isso temos de nos manter alinhados com as tendências mundiais”, conta Regina.

O grande desafio, segundo a diretora, é conduzir as obras sem prejuízo à ocupação, o que por vezes estende a execução por dois ou três anos. “Tem de haver muita sinergia entre todas as áreas do hotel e uma programação bastante apurada, que começa com a definição de um cronograma de prioridades”, explica. No Radisson Faria Lima, por exemplo, a renovação concluída no último mês de março vem sendo conduzida há três anos e já passou por diversas etapas.

Há dois anos sob a gestão da GJP Hotéis &Resorts, o Iguassu Resort, em Foz do Iguaçu (PR) é outro hotel que entra agora na segunda etapa de reformas iniciadas no ano passado. “Estamos animados com esta nova fase do Iguassu Resort. Perceber que os hóspedes estão aprovando as mudanças e os novos serviços nos motiva a seguir apostando nestas melhorias”, destaca o gerente geral Jan von Bahr. Somente na primeira etapa foram investidos R$ 12,5 milhões. A segunda etapa das reformas, além das áreas recentemente inauguradas, prevê ainda melhorias no paisagismo, piscinas, saunas, fitness, campo de golfe, antigos apartamentos, centro de eventos, spa, kids club, entre outros itens. “Os hóspedes podem aguardar mais uma novidade gastronômica na unidade. A área previamente ocupada pelo antigo restaurante The Club será totalmente reformada e dará espaço a uma nova opção que agradará os apreciadores de carnes nobres”, adianta von Bahr. Paralelamente à obra da unidade em Foz do Iguaçu, a rede conduz também uma restauração completa no GJP Hotel da Bahia, localizado em Salvador.

QUANDO E PORQUÊ
Na opinião do consultor Ariel Yaari, presidente da Greenwald Business Corp, o mercado hoteleiro brasileiro vai sofrer profundas mudanças em muito pouco tempo. “Vejo a questão do retrofit hoteleiro como pauta absolutamente urgente para os empreendimentos em operação. Tenho participado de várias reuniões com grupos estrangeiros interessados em se instalarem ou expandirem no Brasil e com operadores hoteleiros ávidos por crescerem não só em cidades com mercados já consolidados e maduros, mas também nas chamadas cidades secundárias”. Para a hotelaria independente que não contemplar em sua estratégia a união com bandeiras consolidadas, como avalia o consultor, a única saída será investir em diferenciais muito específicos que fidelizem seus clientes. “Em ambos os contextos, o retrofit é fundamental”, acrescenta.

Elias Filho, proprietário do Grand Hotel Minas, optou por se manter independente, mas tem em andamento um programa de retrofit que está envolvendo 100% da propriedade e explica porque: “Primeiramente por termos uma construção histórica com mais de 120 anos que deveria ser preservada e, principalmente, pela necessidade de eficiência na operação e gestão do hotel. Quando se fala em prédios antigos ou construções históricas, pensa-se imediatamente em restauração, que nada mais é do que uma intervenção para trazer de volta o edifício à sua condição original, mas não era apenas isso que queríamos”, conta.

Elias ressalta que enquanto uma reforma visa tão somente a introdução de melhorias, sem a preocupação com as condições anteriores e originais da construção, o retrofit agrega a preocupação com a preservação da história do hotel, a manutenção das características originais do prédio e sua adequação aos padrões atuais no que se refere aos materiais, equipamentos, padrões de segurança e itens que assegurem seu alinhamento com o que há de melhor no mercado e garantam uma utilização mais eficiente e consciente do espaço físico do empreendimento.

“Esta é uma decisão sempre desejada, porém difícil. Temos um hotel que está com suas portas abertas há 125 anos e que no curso de sua própria história já passou por diversas intervenções para adequar-se aos padrões que a época exigia. O hotel está na família há 25 anos e, desde então, temos conduzido a administração buscando sempre manter a estrutura atualizada, sem perder as características históricas do prédio. Entretanto, nos últimos anos, acompanhando o bom momento econômico do País, vimos que o nível de exigência dos clientes que nos procuravam estava cada vez maior e não poderíamos deixar de nos atualizar e reposicionar o produto dentro de características que sempre tivemos, mas nunca aproveitamos”, conta.

Ainda segundo o proprietário, a prática do retrofit pode compor de forma decisiva a equação de viabilidade do empreendimento hoteleiro, pois justifica a prática de diárias a preços mais equilibrados e contribui para o aumento das taxas de ocupação em virtude da elevação do nível de conforto, dos serviços e da própria gestão mais eficiente do empreendimento”, completa.

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