A era das chaves digitais

Busca por competitividade e mais segurança decretam uma quase extinção da fechadura manual

Símbolo tradicional da hotelaria, a chave é hoje um objeto em extinção. À exceção de alguns hotéis históricos ou de charme, são poucos os que ainda podem dar-se ao luxo de resistir ao apelo da tecnologia e aposentar o item que tão bem e universalmente representou a indústria da hospitalidade.

Na capital paulista, o San Raphael é um dos hotéis que começam 2014 praticando o desapego. “Resistimos muito para trocar as fechaduras usadas no hotel desde 1949 por achar que perderíamos o contato mais estreito com os nossos hóspedes, mas tudo tem seu tempo e ele chegou também para nós”, conta com quase pesar o gerente-geral Erivan Dantas de Oliveira, ressaltando que nunca teve qualquer problema com as fechaduras usadas até então. O investimento de R$ 150 mil garantirá a substituição total do sistema antigo pelo eletrônico e a segurança de que até mesmo o hóspede mais tradicional hoje não prescinde.

“Nos últimos anos, a hotelaria tem experimentado uma revolução radical quando o assunto é segurança”, afirma Nicolas Aznar, presidente para a América Latina e o Caribe da VingCard Elsafe, empresa do grupo sueco Assa Abloy que foi pioneira na introdução da fechadura eletrônica por cartão magnético, em 1979, e hoje tem seus produtos instalados em mais de sete milhões de quartos de hotel em 166 países. “Desde que os hóspedes recebiam as chaves presas a uma peça de madeira, grande e pesada o suficiente para impedi-los de guardá-las no bolso, muita coisa mudou na tecnologia associada às fechaduras, mas ainda há muito por vir”, pondera Aznar. “Hoje a abertura de uma porta com cartão de proximidade e até utilizando o próprio celular já é uma realidade na hotelaria mundial, graças à substituição da tradicional banda magnética pelo sistema de proximidade por rádio frequência (RFID)”, explica.

Entre as principais vantagens está a neutralização do risco de clonagem dos cartões, que agora vêm criptografados e com código de segurança, motivo que estimulou um investimento adicional na atualização da tecnologia adotada há menos de um ano pelo Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. “Em 2012, quando concluímos a reforma do prédio principal e trocamos as fechaduras mecânicas pelas eletrônicas, já visávamos mais segurança para os hóspedes e maior controle da operação. O novo sistema trouxe mais confiabilidade nos controles de acesso, mais agilidade no uso e menor índice de defeitos e manutenção. Além disso, nos dá a possibilidade de evoluir para a integração de soluções ainda mais abrangentes, como controle de presença nos apartamentos e otimização dos consumos de energia e de ar condicionado”, explica o diretor de Engenharia do hotel, Paulo André Pozzobon.

Um dos motivos do baixo índice de manutenção, segundo Aznar, é a selagem de todos os componentes do cartão tornando-o mais resistente a fatores externos, ou seja não existem ranhuras por onde possam entrar qualquer sujidade ou elemento que afete os leitores magnéticos. “A tecnologia RFID também permite uma maior flexibilidade na utilização de distintos meios de acesso que não se limitam aos cartões tradicionais, mas podem evoluir para pulseiras, chaveiros etc; até o cartão de fidelidade que o hotel emite para o hóspede pode virar uma chave de acesso, o que diminui também os custos dos hoteleiros com a compra do plásticos, sejam magnéticos ou de proximidade, sem mencionar o alinhamento com as políticas de sustentabilidade, com a redução no consumo desse material.”

Ganho de escala
Atenta a tendência que tem ganhado escala no País, a brasileira Saga Systems, fundada há apenas três anos, já contabiliza 840 clientes entre hotéis e hospitais e um faturamento médio anual de R$ 4 milhões. “No ano 2000 o mundo viu nascer essa nova tecnologia para fechaduras eletrônicas, e os antigos cartões de banda magnética começaram a dar lugar aos de tecnologia RFID, muito mais seguros e duráveis. No Brasil o sistema ainda está em fase de implantação, mas o produto veio para ficar”, aposta Jessé Resende, presidente da Saga Systems Brasil.

Resende afirma que hoje os hotéis já trazem as fechaduras eletrônicas em seu memorial na fase de construção, e entre os que ainda trabalham com chaves mecânicas o motivo apontado – não justificado, em sua opinião – é a falta de recursos para investimento. “O custo é muito acessível; uma fechadura com sistemas de RFID contém preços muito próximos aos dos de banda magnética, o que por si só já não justifica a compra da antiga tecnologia”, pondera.

Na opinião de Resende, o momento atual pode ser comparado à revolução que houve com a substituição do cartão perfurado pelo de banda magnética. “Esse sistema era totalmente mecânico, o cartão continha furos que combinados com a mecânica da fechadura abria a porta, mas a cada novo hóspede era necessário trocar o segredo. A chave eletrônica, embora continuasse sendo perfurada, eliminou a etapa da ida do mensageiro até a porta do hóspede para troca do segredo, porque a furação do cartão passou a ser feita por uma prensa automatizada na recepção”, lembra. Já a nova tecnologia conta com sistema de chaves digitais que podem ser incorporadas a chips em softwares de aparelhos celulares de diversas marcas. O sistema não permite fraude e impede a perda de informações contidas em sua memória, a temida desmagnetização comum aos antigos cartões”, lembra o empresário. “Após o lançamento desses produtos a nossa empresa deve atingir uma média de crescimento de 70%. Seguramente vamos ultrapassar a marca de mil hotéis este ano”, conclui.

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