Intercâmbio de mão de obra

No vai e vem do mercado, cresce o movimento de exportação e importação de know how
Há cada vez mais estrangeiros interessados em trabalhar no Brasil e redes internacionais ávidas pela mão de obra brasileira. A crise econômica que desta vez passou longe do País e o número crescente de brasileiros viajando ao exterior explicam, em parte, o vai e vem do mercado que tem estimulado a transferência de conhecimento entre profissionais da hotelaria.

Lucila Quintino, consultora e sócia da HotelConsult, lembra que as maiores barreiras do intercâmbio são a língua e todo trâmite legal. “O mais comum são estrangeiros que estão trabalhando em empresas multinacionais entrando em processo de expatriação. Os europeus, principalmente portugueses, têm tido muito interesse pelo fato de falarem o mesmo idioma”.
A consultora aponta, ainda, outro fator bastante determinante. “Quando o assunto é resort, falta mão de obra especializada, principalmente para assumir a posição de gerente geral, por isso muitos acabam recorrendo à experiência de profissionais estrangeiros”, diz.

Segundo Lucila, posições como a de gerente de A&B e chef de cozinha também são frequentemente ocupadas por mão de obra importada. “Quando o assunto é cargo estratégico, a empresa se permite despender mais tempo e dinheiro para trazer um bom profissional, pois vivemos essa realidade da falta de mão de obra para alguns cargos no Brasil”, pondera.
Para alguns grupos, no entanto, a transferência de conhecimento não é apenas necessidade, mas a própria filosofia. Este é o caso do Club Med. “Trabalhamos com diferentes nacionalidades tanto em nossos villages quanto em nossos escritórios, por isso mantemos GOs brasileiros nos villages do mundo onde os clientes brasileiros frequentam e GOs franceses e de outras nacionalidades onde temos GMs dos países em questão. Assim, todos se sentem mais confortáveis e atendidos. Para o profissional, trabalhar em outro país significa uma evolução na carreira. Essa fase do trabalho é uma excelente oportunidade tanto para seu desenvolvimento pessoal quanto profissional, pois a troca de experiências acontece nos dois âmbitos”, revela Vikash Limbeea, diretor de RH do Club Med América Latina, que nasceu nas Ilhas Maurício.

A questão da documentação, segundo o diretor, fica toda a cargo da rede francesa. “Quando enviamos um GO brasileiro para fora, fazemos questão de que ele participe de todas as negociações para que haja clareza nas demandas de cada país e também no escopo do trabalho que será desenvolvido por ele. É importante lembrar que cada país tem suas exigências em relação à documentação, então não há um padrão a ser seguido. É preciso apenas conhecer todas elas para que não haja nenhum problema”, ressalta Limbeea.

Exemplo disso é o mineiro Daniel Guimarães, que aos 32 anos comanda o village do Club Med de Cherating Beach, na Malásia. “Acredito que o primeiro desafio, sem dúvida, é o idioma. Quando você não domina completamente, a integração se torna muito mais difícil. Em seguida vem o choque cultural, pois cada país possui suas regras, religião, costumes, etiquetas etc, e é muito importante saber que nem o país nem os seus colegas de trabalho irão se adaptar a você. Ao contrário, é você quem terá de se adaptar a eles, principalmente nos seus princípios de gerenciamento. É importante mencionar a culinária que, dependendo do país, pode ser uma grande frustração por ser muito diferente daquela que você está habituado”, destaca.

A dica de Daniel, depois da familiarização com o idioma (ele fala três línguas), é pesquisar e contactar pessoas que já tiveram a mesma experiência para evitar os mesmos erros. “Você pode tentar antecipar ao máximo, mas na verdade o grande segredo para a integração se chama ‘mente aberta’ – nada de prejulgamentos ou aplicação de rótulos”, lembra Daniel, que é formado em Contabilidade e está no Med há 11 anos. Nesse período, Daniel teve oportunidade de visitar 15 países e atuar em três, fora o Brasil e a Malásia, onde está agora: Marrocos, República Dominicana e Tunísia. Sob sua responsabilidade hoje no Cherating Beach estão 320 funcionários.

Sérgio Assis, sócio-diretor da Imago Capacitação, afirma que o fenômeno da globalização trouxe mudanças significativas ao mercado de trabalho, bem como novas necessidades ou reajustes por parte do mundo corporativo. Neste contexto, os expatriados, termo utilizado para os profissionais que têm uma transferência internacional para exercer o trabalho em outro país, se tornam cada vez mais comuns. “As vantagens são muitas mas os desafios também, e um deles está na forma que lidar com as diferenças culturais e políticas, leis e formas de conduta nos negócios. “Viver e trabalhar em outro país, além de tudo, é uma rica experiência de vida”, afirma.

O brasileiro Delfim Pinheiro contou com apoio total da família para aceitar o desafio de gerenciar o Ibis Medelin, na Colômbia. “A primeira impressão do executivo e de sua família será fundamental para a adaptação”, afirma o gerente, lembrando aspectos práticos dessa mudança como, por exemplo, a diferença no custo de vida de um destino para outro. Nesse aspecto ele sugere uma consulta ao índice Mercer, como forma de evitar uma perda salarial considerável, pesquisar também as taxas de imposto de renda, leis trabalhistas e sistemas de remuneração e férias, além de:

– Conhecer a fundo o sistema de saúde público e privado e suas carências e limitações, se existirem;
– Saber se o novo país tem acordo bilateral com o Brasil para evitar bi-tributação do seu dinheiro ao enviá-lo ao Brasil. O site da Receita Federal indica todos os países com os quais o Brasil tem acordo bilateral;
– Negociar com sua empresa um valor mínimo para que você continue pagando individualmente o INSS no Brasil enquanto estiver fora e possa garantir a contagem do tempo de trabalho quando for requerer a aposentadoria;
– Garantir um seguro de vida para você e, se possível, para família;
– Pesquisar antes as faixas de aluguel de imóveis e negociar bem o valor para que ele seja livre de impostos. Neste caso, pense mais na sua família do que em você, pois para eles o impacto da mudança é muito maior e o mínimo é deixá-los bem alojados e cômodos;
– Se desejar levar seus pertences, negocie antes como será sua mudança em valor e metros cúbicos. Verifique a voltagem elétrica do novo local. Aparelhos com compressores e resistências dificilmente podem ser alterados de voltagem;
– Negocie também um check-up médico executivo anual ou, pelo menos, bi-anual;
– Solicite apoio da filial da sua empresa para que ajudem com os vistos de trabalho ou com despachante indicado;
– Negocie quantos bilhetes aéreos você sua família terão por ano para visitar seu país de origem.

Para a empresa contratante, o consultor Sérgio Assis, vê muitas vantagens na manutenção de uma boa política de intercâmbio. “Além da troca de conhecimento e competências que isso pode gerar em toda equipe, vale ressaltar o fato de que se a empresa recebe um número grande de hóspedes de uma determinada nacionalidade, o fato de ter um funcionário conterrâneo vai gerar imediatamente uma identificação, o que facilita a prestação do serviço e do atendimento, principalmente pela empatia intrínseca nessa relação, fator primordial para um atendimento memorável”, destaca. Os trâmites, ele lembra, devem passar pela assessoria de escritórios e advogados especializados em regulamentação do emprego de mão de obra estrangeira, porque a lei trabalhista brasileira, por exemplo, é bastante protecionista. “A empresa terá que comprovar ao Ministério do Trabalho a real necessidade da contratação de um estrangeiro”.

Depois de passar por três hotéis Bourbon em diversas localidades brasileiras, Fernando Macedo foi enviado ao Paraguai, onde comanda a gerência geral do Bourbon Conmebol Assunção Convention Hotel. “A adequação à cultura está sendo fácil, me adapto bem. Estou inclusive tomando terere”, ironiza, referindo-se à bebida tradicional do país e que se assemelha ao nosso chimarrão, só que tomado frio. A língua nativa, porém, mostrou-se um problema. “Já tinha conhecimento do espanhol, mas aqui eles falam o guarani em casa e o espanhol, ou castelhano, apenas socialmente”, conta Macedo, que no entanto recomenda a experiência a todos os profissionais que tenham oportunidade. “O Paraguai tem o custo de vida mais baixo das capitais da América do Sul, o que acaba sendo um incentivo para os estrangeiros e é um país acolhedor e seguro, que fica a apenas duas horas das principais capitais do continente”.

Francisco Calvo, diretor de Negócios para Hotéis Urbanos da Bourbon, diz que a rede também está sempre atenta às oportunidades de transferência de conhecimentos com a contratação e manutenção de profissionais estrangeiros no Brasil. Um exemplo é o francês Jerôme Dardillac, chef-executivo corporativo para os 13 hotéis da empresa. “Ainda na área de A&B, apostamos na contratação de alguns profissionais chilenos, tendo em conta o crescente interesse dos brasileiros por vinho. Este é um diferencial a mais que oferecemos aos clientes e aos nossos colaboradores brasileiros, que aprenderão mais com a absorção desse conhecimento”, conclui Calvo, que também experimentou a vivência internacional ao atuar por 16 anos em hotéis na Espanha e no Caribe.

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