O turismo brasileiro vive um momento de bons resultados, com recordes na chegada de visitantes internacionais e perspectivas de crescimento da receita, mas a hotelaria parece não acompanhar esse ritmo. A avaliação é de Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), durante painel apresentado no Fórum do FOHB, realizado ontem (14), em São Paulo.
Ao mesmo tempo em que os indicadores apontam espaço para expansão da atividade, mudanças estruturais na economia brasileira colocam novos desafios para as empresas do setor. “Do ponto de vista da geração de receitas, a perspectiva é boa. O crescimento dos setores de turismo e serviços está mais uma vez acima da média da economia”, afirmou Bentes. Para o economista, no entanto, o desempenho poderia ser ainda melhor. “Ou o setor está falhando ou o governo não está fazendo seu papel”, afirma.
Entre os principais pontos de atenção, Bentes aponta a regulamentação da reforma tributária, a possível mudança da jornada de trabalho, com o fim da escala 6×1, e seus efeitos sobre a folha de pagamentos, além do impacto de mecanismos como o split payment, previsto para avançar na implementação do novo sistema tributário.
Reforma tributária no radar
A poucos meses da entrada em vigor de parte do novo sistema, ainda existem definições importantes em aberto, especialmente em relação às alíquotas e aos efeitos sobre diferentes setores. Para a hotelaria, Bentes chama atenção para o impacto potencial sobre empresas enquadradas no lucro presumido.
Segundo o economista, os cálculos realizados pela CNC indicam um aumento de cerca de 50% na alíquota efetiva para essas empresas. “É para se desesperar? não, não é. Especialmente nesse setor”, ponderou, ressaltando, entretanto, que o cenário exige atenção por parte das empresas.
Outro ponto de preocupação destacado no painel é o imposto seletivo, que poderá incidir sobre produtos como bebidas alcoólicas, entre outros. A questão ganha relevância para a hotelaria porque boa parte da receita dos empreendimentos vem justamente da comercialização desses produtos.
Bentes também destacou a necessidade de acompanhar a implementação do split payment, mecanismo pelo qual o recolhimento dos tributos ocorre de forma automática no momento do pagamento da operação. A mudança pode afetar diretamente o fluxo de caixa das empresas.
Hoje, como explicou o economista, o prazo entre a realização de uma venda e o recolhimento dos impostos permite que parte das empresas utilize esse intervalo como uma espécie de capital de giro. Com o novo sistema, esse recurso deixa de estar disponível. A necessidade de financiar o caixa, em um cenário de juros elevados, pode representar um custo adicional relevante.
Reflexos do fim da escala 6×1
A possível mudança da jornada de trabalho, especialmente o fim da escala 6×1, também foi apresentada como um fator de preocupação para setores intensivos em mão de obra. Na hotelaria, em sua análise, o impacto potencial é particularmente significativo.
Segundo os dados apresentados por Bentes, 92% dos trabalhadores formais do setor estão em jornadas superiores a 40 horas semanais. A CNC estima que uma eventual redução da jornada poderá elevar em aproximadamente 27% o custo trabalhista do setor de turismo ao longo de dois anos.
“Não se aumenta a produtividade na marra”, afirmou Bentes. Na avaliação do economista, a redução da jornada não significa automaticamente aumento da produtividade por hora trabalhada. Ao contrário, pode pressionar os custos justamente em um setor que já enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra.
Nos cálculos apresentados pela CNC, cada aumento de um ponto percentual na folha de pagamentos gera impacto estimado de 0,43 ponto percentual nos preços. Bentes explica que diante de um aumento agregado de 35 pontos percentuais nos custos da folha, o repasse integral para os preços poderia provocar uma alta de aproximadamente 15,3%, com potencial redução de quase 7% no volume de receita do setor. O próprio economista, no entanto, ressalvou que esse é um exercício econométrico, e não uma previsão de que o cenário necessariamente ocorrerá dessa forma.
Hotelaria cresce menos que o turismo
A pressão sobre custos ganha relevância diante de outro dado apresentado no painel do economista, que indica que embora o turismo brasileiro venha apresentando forte recuperação, a hotelaria não acompanha o mesmo ritmo.
Bentes citou dados da Embratur e da ANAC que apontam recordes tanto na receita gerada pelos turistas estrangeiros quanto na movimentação de passageiros. A expectativa é de que o fluxo internacional continue crescendo em 2026, com a aproximação de mais uma alta temporada.
“Se o ano passado registrou recorde de turista estrangeiro, isso continua crescendo ao longo de 2026”, observou. Para o economista, esse cenário reforça a necessidade de a hotelaria aproveitar o momento para maximizar o retorno dos investimentos e melhorar sua eficiência.
A discrepância também aparece na concorrência com as plataformas de locação de curta duração. Estudo da CNC apresentado no Fórum indica que o avanço desse modelo já produz efeitos sobre a ocupação hoteleira em determinados mercados. No caso do Rio de Janeiro, a entidade identificou uma redução de aproximadamente dois pontos percentuais na ocupação a partir da aceleração desse tipo de serviço.
Para Bentes, a discussão não deveria ser apenas sobre ampliar a concorrência, mas sobre garantir condições mais equilibradas entre modelos de negócios com estruturas de custos distintas. Um hotel, destacou, emprega proporcionalmente mais pessoas e está sujeito a uma carga tributária e trabalhista diferente daquela de uma unidade disponibilizada por uma plataforma.
Competitividade como agenda para 2027
Por trás das discussões tributária e trabalhista está uma questão mais ampla: a competitividade do Brasil. Bentes lembrou que a carga tributária sobre o consumo no país chega a cerca de 34%, enquanto é de aproximadamente 21% na China e 27% nos Estados Unidos.
A diferença, segundo o economista, ajuda a explicar por que produtos e serviços brasileiros podem chegar ao mercado em desvantagem diante de concorrentes internacionais. “Quando a gente pressiona o custo, colocamos o setor em uma corrida com um adversário que larga dez posições na frente”, comparou.
Para 2027, a CNC pretende manter a pressão por medidas que reduzam distorções e ampliem a competitividade das empresas brasileiras, independentemente de quem estiver no governo.
Falando aos hoteleiros presentes, a mensagem deixada por Bentes no Fórum é de que o bom momento da demanda não elimina os desafios estruturais, muito pelo contrário. Na sua avaliação, com o turismo crescendo e novas oportunidades surgindo, a capacidade de controlar custos, investir em produtividade e preservar competitividade pode determinar quanto desse crescimento efetivamente chegará aos hotéis.

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