Jornada 5×2: a hotelaria está preparada?



A adoção de uma escala com dois dias de descanso pode melhorar a produtividade e a qualidade de vida dos colaboradores, além de diminuir o turnover?
Por Eduardo Vessoni
Desde que a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) propôs a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana, o setor hoteleiro se viu diante de uma discussão inédita que vem dividindo opiniões. Se até agora o foco era o hóspede, o setor começa a voltar os olhos também para aqueles que cuidam de seus clientes.
Em meio às discussões globais sobre novos modelos de trabalho e qualidade de vida, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 8/25) submetida por Hilton, protocolada em fevereiro na Câmara e com a adesão de 226 deputados, sugere uma escala 4×3, em uma jornada máxima de 36 horas semanais sem diminuição de salário.
Propõe-se também facultar a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho. “Levar bem-estar para os colaboradores é um tema de extrema relevância. O impacto econômico [para o hotel] é pequeno, se comparado aos benefícios a longo prazo, como um maior engajamento com a empresa”, analisa Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA).
Apesar da diversidade de perfis entre os empreendimentos da associação, com hotéis de luxo que vão de sete a mais de 300 unidades habitacionais, Camilla acredita que as atuais regras trabalhistas devem ser repensadas, a partir de modelos mais avançados de empregabilidade. “É preciso entender que a flexibilidade é fundamental. Os colaboradores devem ter autonomia em um ambiente de confiança em que eles sejam apoiados”, completa.

No entanto, não é o que pensa o presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), Alexandre Sampaio, para quem uma nova escala só pioraria a produtividade em todos os setores brasileiros, inclusive na hotelaria. “O custo operacional será onerado e, inevitavelmente, repassado para os valores dos serviços, aumentando o gasto de nossos clientes e com consequências, como inflação e perda de competitividade com destinos internacionais”, diz.
Sobre os aumentos de custos, Sampaio cita também a reforma tributária proposta para o ano que vem, os encargos sobre a folha de pagamento (“um dos mais altos do mundo”), a concorrência das plataformas de hospedagem e os benefícios oferecidos pelos programas sociais do governo, que tornam “difícil conseguir mão de obra para cargos que exijam menos qualificação. Diante disso, as diárias vão subir, com certeza”, aposta.

Já Mariana Aldrigui, professora do curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), na USP Leste, não vê impactos econômicos, apesar da ameaça que tem sido feita pelas associações do setor. “Acredita-se que o custo de operação é muito elevado em relação à margem, que já é muito baixa. Não é uma relação linear, é possível estruturar esses ajustes de preços”, explica Mariana, há mais de duas décadas na docência em instituições públicas e privadas.
Para a professora, se as novas tecnologias forem usadas como aliadas, o gasto de um hotel não se elevará a ponto de gerar desemprego ou prejuízos econômicos. “Hoje, com o apoio de qualquer interface de IA, é possível montar escalas, indicando o número de pessoas no estabelecimento e as restrições de horários”, sugere.
A proposta de Mariana é convidar o empresário a pensar que os melhores talentos não vão se sujeitar a uma “exploração” se tiverem condições melhores em outros empregos. Mesmo assim, a professora afirma que ainda são as raras as vagas 5×2 no setor de A&B.
Mudança de rota
Em uma das discussões propostas em sala de aula, Mariana Aldrigui questionou o porquê de seus alunos estarem trocando empregos na hotelaria para trabalharem em setores ainda mais intensos, como o de eventos. Surpreendentemente, a resposta foi o status da área. “Para a geração nativa digital isso faz muito mais sentido. Não são jovens que não querem trabalhar, eles só não entendem qual é o sentido de um trabalho tedioso. Em eventos, a pessoa vai gramar no início, mas pode virar um bom produtor e construir conhecimento. A impressão que dá é que na hotelaria isso é muito lento e chato. E [trabalhar na] recepção, reservas e acabou. Não se apresenta um setor como espaço de acolhimento. Perdeu-se o glamour que tínhamos [na hotelaria]”, conclui.

A docente aponta ainda que o pós-pandemia de teve uma queda significativa no número de jovens interessados nas áreas de turismo, lazer e hotelaria, sobretudo em países de economia diversificada como o Brasil. “Com as ofertas de trabalho remoto, eles perceberam um ganho de qualidade de vida, como menos tempo no transporte público. Em termos de remuneração, não tem diferença entre um emprego 6×1 na hotelaria e em outra área. Por que aceitar algo cansativo e sem benefícios agregados?”, questiona.
A professora lembra que, atualmente, ao migrar para um cargo de chefe de hospitalidade de um shopping, por exemplo, o profissional chega a ganhar até quatro vezes mais do que em um hotel. Ela cita também o setor hospitalar e os serviços de concierge de luxo, que oferecem uma remuneração mais atrativa aos profissionais. “Um pequeno investimento seguraria essas pessoas na hotelaria”.
Entre as fontes ouvidas para essa reportagem, todas foram unânimes em apontar a migração de profissionais para empresas de outros setores da hospitalidade, como hospitais, bancos digitais e até corretoras de valores.
Com o aumento dos negócios de luxo no Brasil, segundo Camilla Barretto, as habilidades profissionais desenvolvidas na hotelaria passaram a ser vistas em diversos outros ramos de negócios, por isso o mercado hoteleiro precisa saber se posicionar. “O empresário deve olhar para dentro e encontrar a forma de fazer o funcionário estar mais engajado. Não é uma questão de aumento de remuneração, mas de melhoria do ambiente. É preciso trabalhar internamente para reter as pessoas”, diz.
Antecipando o futuro
Enquanto a proposta de mudança na escala de trabalho atual não avança, alguns empreendimentos já se anteciparam. Em setembro, o Palácio Tangará, em São Paulo, anunciou um investimento de R$ 2 milhões anuais para a implementação do regime 5×2. A iniciativa para os colaboradores de todos os setores exigiu 10 meses de análises, estudos e negociações, e inclui também auxílio-creche por seis meses, a partir do retorno da parturiente, e redução de jornada para 42 horas semanais. “Como um hotel referência que espera doação total dos colaboradores, é justo também que possamos oferecer-lhes o que estiver a nosso alcance. Nada mais indicado do que proporcionar uma qualidade de vida um pouco melhor com essa escala 5×2”, diz Celso Valle, diretor geral do empreendimento.
Com relação às outras unidades da Oetker Hotels, da qual o Tangará faz parte, Valle lembra que a política trabalhista varia de acordo com o país de atuação, como na França, cuja carga atual é de 35 horas semanais.

Para o executivo, o maior desafio foi convencer os investidores da necessidade de contratar 27 novos colaboradores. “Vemos isso como um investimento, não como uma despesa, pois teremos maior fidelidade e menor rotatividade, além de aumentar a atratividade para aqueles potenciais profissionais que possam vir a trabalhar conosco”, completa Valle, quem garante que os custos da operação não foram repassados para as diárias e seguem a demanda de cada temporada.
Do outro lado do país, em Nova Airão (AM), o Anavilhanas Lodge também oferece para seus 128 funcionários um novo regime de trabalho desde junho deste ano. “É um caminho sem volta e acho difícil uma empresa resistir sem trazer isso para si. A ideia de repensar a jornada veio por entendermos que uma escala 6×1 é puxada”, explica Guto Costa Filho, que começou a trabalhar na hotelaria com a “barriga no balcão”, em 2007, e chegou a ficar dois anos sem folga.
A medida foi uma forma de atrair mão de obra para cargos mais qualificados, como gerente, supervisor e chefe de recepção, devido não só à localização do hotel, a três horas de Manaus, mas também pelo interesse de outras empresas de serviços por profissionais do setor de hospitalidade, como shoppings, bancos e atendimento a clientes de grandes varejistas. “Percebe-se hoje em dia que o funcionário da hotelaria de luxo tem qualidades importantes para outros setores”, analisa o sócio do Anavilhanas Lodge.

Apesar de ter que arcar com os custos da redução da jornada de 48 para 40 horas semanais, a princípio, Guto Costa Filho não descarta o ajuste no valor das tarifas para compensar o aumento de cerca de 10% em seus gastos. Outro desafio apontado pelo executivo foi a resistência inicial quando a redução foi anunciada pelo hotel, já que os funcionários teriam 8h semanais a menos, incluindo as quatro horas extras já contabilizadas na folha de pagamento. Para evitar a redução de rendimento, a solução foi incorporar essas horas nos salários.
Para ele, a nova escala trouxe benefícios para toda a região, como a abertura de novas vagas de trabalho e funcionários tocando, paralelamente, negócios próprios em áreas como manutenção de ar-condicionado e lavagem de roupa.
No interior paulista, também há empreendimento que segue no mesmo caminho. E não é de hoje. Há três anos, a pousada boutique Ronco do Bugio, em Piedade, já vinha adotando informalmente a escala 5×2 com parte de seu quadro de 25 funcionários de áreas como recepção, salão e cozinha. No final do ano passado, todos os contratos foram oficialmente alterados para esse modelo.
“Faz uma grande diferença para eles e também para nós, que somos um hotel pequeno. Funcionário feliz impacta no atendimento”, compara a proprietária Gabi Majolo, ao afirmar que o aumento na folha de pagamento foi de cerca de 20%. Porém, por ser um empreendimento de pequeno porte, a pousada conseguiu balancear alguns custos após oito meses de trabalho, evitando, por enquanto, o aumento no valor das tarifas.

É preciso lembrar que, ainda que a proposta de redução da carga de trabalho tenha ganhado eco com a deputada Erika Hilton, a discussão tomou a internet, em 2023, com o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), idealizado pelo atual vereador do Rio de Janeiro, Rick Azevedo, cuja petição ultrapassou a marca de um milhão de assinaturas em maio de 2024 e gerou a PEC protocolada no Congresso Nacional por Hilton. “Assim como todos aqui, já tive sonhos frustrados pela rigidez da escala 6X1. Tornei-me uma pessoa doente, desanimada e sentindo-me culpado por tudo que nunca deu certo em minha vida”, publicou Azevedo, em uma de suas redes sociai

Saúde hoteleira
Sob condição de anonimato, uma pessoa do setor falou com a reportagem sobre sua experiência profissional de quase uma década. No ano passado, após um diagnóstico de depressão profunda e uma tentativa de suicídio, percebeu que era hora de parar, recalcular a rota e mudar de área.
“Minha vida era em função do trabalho, me organizava de acordo com minha rotina no hotel. Eu não conseguia nem marcar uma consulta médica”, conta em seu depoimento. Entre os problemas de saúde que acredita serem consequências da rotina exaustiva de até 11 horas diárias, estão gastrite, problema na bexiga (“porque não respeitava as necessidades básicas do meu corpo e demorava para ir ao banheiro”), infecção urinária, alopecia, burnout e crises de ansiedade e pânico.
Apesar dos primeiros diagnósticos terem sido em 2022, foram precisos mais três anos até tomar a decisão de mudar de área, sobretudo pelo receio de deixar para trás os benefícios oferecidos. “Nós nem conseguimos usufruir deles. São uma maquiagem, a venda de uma imagem boa, mas também uma espécie de assédio, pois com eles vêm também a cobrança. A própria diretoria [do hotel] tem o discurso de que lá é bom e que não vamos encontrar um lugar melhor. É uma relação abusiva”, explica.
Atualmente em um trabalho com escala 12×36, a fonte foi categórica ao dizer que não voltaria mais a trabalhar na hotelaria, porém, acredita nos benefícios de uma possível mudança na escala de trabalho no setor. “Essa discussão é essencial paraa hotelaria e é preciso trazê-la à tona, só assim conseguiremos ir para frente. Um dia de folga por semana é desumano”, completa, lamentando as vezes em que se ausentou nos encontros familiares, como Natal e Ano Novo.

notícias recentes
Candidatos ao governo de Minas apresentam propostas para o turismo
Rock in Rio proporcionou ocupação acima de 85% para hotéis da capital fluminense
Accor renova contrato dos hotéis Grand Mercure e Mercure em Brasília
notícias relacionadas
Hospitalidade Regenerativa
O sono como experiência
O turismo em 2026