Estadias mais longas
Hoteleiros começam a entrar no segmento de locação por temporada, que já conta com fortes players impulsionados pelo trabalho remoto
Lideradas pelo Airbnb, novas plataformas chegaram ao mercado nos últimos anos popularizando a locação por temporada no Brasil, seja ela de curta ou longa duração (em inglês, short e longterm rental). O grande diferencial destas empresas é a tecnologia, pois utilizam ferramentas que ajudam a reduzir os custos das operações e equipes, tornando o negócio mais atrativo para investidores.
Housi, NOMAH, Charlie, Casa Temporada e Vrbo são nomes que estão decolando e, com pouco tempo de vida, viraram uma dor de cabeça para a hotelaria tradicional, que se viu no dilema sobre o que fazer para não perder público e se manter lucrativa. Algumas redes já se adiantaram e escolheram o caminho do ditado popular “se você não pode vencer seu inimigo, junte-se a ele”. Inclusive, vários grupos hoteleiros começaram a montar uma nova estratégia, que inclui divisões e reposicionamentos de marca para competir no segmento.
O sócio-diretor da HotelInvest, Pedro Cypriano, explica que as empresas de locação por temporada têm uma penetração maior em segmentos com número de pessoas e permanência média acima dos meios de hospedagem convencionais. No entanto, elas podem sim atender também ao menos uma parte da demanda dos hotéis, seja a negócio ou lazer. “Muitos desses produtos são modernos, estão em localizações atrativas, têm preços geralmente mais baixos e usam as OTAs como canais de distribuição. A competitividade entre os modelos de negócios é inevitável, ainda que secundariamente. A ameaça para os hotéis tradicionais dependerá do volume de oferta em estruturação e da capacidade de absorção de cada mercado”.
A demanda por longa permanência sofreu um “boom” durante a pandemia de coronavírus, passando de 14% em 2019 para 22% no início de 2021, segundo relatório do Airbnb. Em São Paulo, este percentual foi ainda maior, atingindo 24%. “Apesar da procura ser baixa em hotéis, ela existe em outros negócios imobiliários e certamente é significativa para os novos empreendimentos residenciais em desenvolvimento. No pós-pandemia, com a flexibilização do trabalho e do home-office, existem fundamentos para que os números sejam maiores que o registrado em anos pré-Covid”, avalia Cypriano.
Novos protagonistas
Os players novatos entraram neste segmento para captar uma demanda que ainda não era atendida. Alexandre Lafer Frankel, CEO da Housi, revela que o negócio consiste na “moradia por assinatura”, disponibilizando opções a partir de um mês ou reservas de poucos dias. “Quando fundei a construtora Vitacon, notamos que quem estava consumindo eram pessoas que não queriam comprar propriedades, mas usar o produto de outra forma. Nossos investidores não tinham ninguém para cuidar dos imóveis e dos próprios clientes, então criamos uma área dedicada na empresa. Depois de seis meses recebemos aporte de um fundo que foi o primeiro a aplicar dinheiro na Netflix”.
A antiga Uotel, aberta em 2016 por Thomaz Guz e Fabio Bertini, passou por um rebranding neste ano adotando a marca NOMAH, além de receber investimento de R$ 50 milhões da Loft. Presente em 12 localizações na cidade de São Paulo, a previsão é expandir até o fim do ano para outras oito, além de capitais.
“Em 2016 conheci o Fabio e percebemos que existia um gap muito claro: de um lado, a hotelaria convencional, onde se paga um valor um pouco mais alto com serviço que muitas vezes não utilizamos, e do outro o Airbnb, que tem milhares de oportunidades, mas sem padrão, com cada anfitrião atendendo de um jeito. No entanto, não havia nada no meio do caminho ou uma plataforma que conectasse os dois mundos com locação prática, flexível e conforto”, relembra Thomaz.
Em poucos cliques, a NOMAH mostra opções de aluguel flexível de apartamentos mobiliados e equipados, deixando a critério do cliente a contratação dos serviços de terceiros, como limpeza e café da manhã. “Transformamos as residências quase em um item de e-commerce. É como se fosse uma nova fase da locação, até por isso mudamos a nossa marca”.
Criada em julho de 2020 por Allan Sztokfisz, Flavio Ghelfond, André Pezeta e Thais Sztokfisz, o Charlie é uma startup especializada na gestão de locações e de ativos por meio de uma plataforma digital proprietária. “Investimos na tecnologia aliada a uma operação mais enxuta. Muita coisa é desnecessária em termos de estrutura e equipes, então deixamos vários serviços sob demanda, com um número menor de funcionários. Isso reduz imediatamente os nossos custos”, diz Allan.
O Charlie faz parte do Grupo HX, que surgiu em 2007 e entrou na hospitalidade ao abrir um dos primeiros hostels de São Paulo, na Vila Mariana, em 2009. “Também assumimos em 2011 a operação do nosso primeiro hotel, que era um prédio arrendado na Bela Vista. Tivemos várias experiências anteriores”, relembra Allan.
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