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O que mudou nos protocolos após quase 2 anos de pandemia

Parece que março de 2020 foi ontem, quando praticamente todos os setores da economia tiveram que paralisar suas operações em razão da chegada do coronavírus. E no turismo esse impacto foi ainda mais forte, com fronteiras fechadas e hotéis registrando ocupação quase nula – isso considerando a realidade de quem não fechou as portas na época. Após a Organização Mundial da Saúde decretar estado de pandemia da Covid-19, houve uma movimentação para garantir o máximo de segurança nos serviços, algo que resultou em protocolos a nível hospitalar.

Quase dois anos depois, especialistas já entendem o que é necessário para conter a crise sanitária e os excessos cometidos simplesmente por precaução. “No início da pandemia, não sabíamos quais seriam exatamente as implicações e quase nada sobre o comportamento desta doença. Elevamos as barreiras sanitárias ao máximo para garantir que ela causasse o menor ‘estrago’ possível e o menor número de mortes. Estávamos ouvindo pela primeira vez a respeito do comportamento do vírus e percebendo sua gravidade, nos baseando em desdobramentos na China e depois nos países da Europa”, explica o consultor e especialista em Hotelaria Hospitalar, Marcelo Boeger.

Apesar de ainda não haver toda a clareza sobre a doença e seus efeitos, o conhecimento sobre a Covid é muito maior hoje. “O uso correto das máscaras, lavagem das mãos, distanciamento social, ventilação natural e sanitização de ambientes continuam sendo armas poderosíssimas como métodos preventivos no combate à transmissão”. Para Boeger, a maior mudança nas medidas foi influenciada pela constatação de que a contaminação por superfícies não ocorria com a mesma severidade que se imaginava inicialmente.

“Recomendávamos uma frequência e regularidade que tinha como base aquilo que fazíamos nas áreas comuns das instituições de saúde, e que sempre nos protegeu contra todos os tipos de vírus e bactérias com extrema segurança, usando os mesmos cuidados que temos em precaução por contato. Atualmente percebe-se que não existe a necessidade da mesma frequência que inicialmente fazíamos, mas isso não significa, por exemplo, que devemos parar de usar desinfetantes nas superfícies ou que lavar as mãos não é uma prioridade. Muito pelo contrário”.

A presidente nacional da Associação Brasileira de Governantas e Profissionais de Hotelaria, Maria José Dantas, avalia que este momento de cuidado serviu para profissionalizar equipes. Inclusive, hotéis investiram na aquisição de produtos químicos mais eficientes e equipamentos de proteção individual (EPIs).

“As empresas se prepararam e foram maduras, adotando protocolos e processos novos, correndo atrás de produtos, materiais e equipamentos, algo que não acontecia antes em muitas delas. No entanto, cometemos alguns excessos por precaução e cuidado com vidas. Para aquele momento, as recomendações eram muito pertinentes porque não tínhamos informação e tampouco vacina”.

Entre esses excessos, Maria José menciona – além da higienização constante de superfícies – a antiga recomendação de desinfecção de colchões após cada check-out, lavagem dos duvês, retirada das almofadas e outros acessórios de ornamentos, tornando o ambiente mais vazio na decoração. “Agora podemos repensar esses aspectos, já que o momento é de flexibilização. Em suma, o cuidado excessivo que devemos ter é, principalmente, com as vias respiratórias e ambientes fechados”.

Boeger menciona outro caso comum de super cuidado. “Encontramos às vezes colaboradores com face shield em cima da máscara descartável, dentro de um ambiente que irá mais atrapalhar do que ajudar. Ou ainda pior, usar a N95 ou PFF2 por cima da máscara cirúrgica. O que faz destas máscaras tão eficientes é justamente sua capacidade de vedação, e utilizar estas máscaras por cima da máscara descartável irá prejudicar isso. E o contrário também não é correto. Colocar uma máscara descartável por cima de uma N95 não faz o menor sentido, somente se o objetivo for mantê-la limpa”.

Adaptação na rotina

Os especialistas não consideram os novos protocolos algo “difícil” de se aplicar, mas por serem diferentes, exigiram mais tempo de adaptação. “Os protocolos são absolutamente viáveis e de fácil aplicabilidade. Mas como tudo que é novidade, exigiu que fosse acomodado dentro da rotina da operação. Para estabelecimentos mais bem organizados, as mudanças foram menos impactantes, pois muito das exigências, principalmente dentro de uma cozinha ou na governança, já são parte de regras sanitárias consagradas, mesmo no pré-Covid”, diz Boeger.

Maria José reconhece que os hotéis tiveram execução difícil e demorada no começo da pandemia, se perdendo um pouco, mas agora há um equilíbrio. “Todos tiveram um ganho importante de eficiência e aprendizado ao colocar em prática essas medidas mais profissionais. E houve ainda um entendimento claro sobre o papel das equipes em garantir a segurança dos hóspedes e de si mesmas. Várias empresas não trabalhavam com produtos profissionais e, devido à Covid, incorporaram isso à sua rotina”.

Além disso, locais abertos e com ventilação natural são a bola da vez na retomada. A circulação de ar é maior e, por isso, há menos chance de contato com o vírus. “Vejo muito lugares valorizando estas experiências e potencializando-as comercialmente, mas as precauções devem continuar, pois ainda assim existe o risco. Imagine a realização de um evento ao ar livre e no momento do coffee break todos tiram suas máscaras (ao mesmo tempo), para desfrutar das bebidas e comidas existentes em um buffet e se aglomeram – não levando em conta o distanciamento e conversam entre si. Isso é absolutamente comum de ocorrer”, reflete Boeger. “A relação social é espontânea e, mesmo que possamos evitar de falar, não vamos deixar de respirar ou ter absoluto controle do momento de tossir ou espirrar. Todos estes fatores podem potencializar a transmissão”.

O que continua

Maria ainda lista quais protocolos precisam ser mantidos, mesmo no pós-pandemia. “Os protocolos estão muito atrelados às orientações dos órgãos oficiais e, em algum momento, vamos parar com as máscaras e distanciamento. Só que o processo de higienização e limpeza aprendido e implementado pelas equipes, num formato profissional, é o que deve permanecer. QR Codes, aplicativos e outros elementos também continuam como legado, até porque são também evoluções tecnológicas”.

Apesar de uma situação melhor hoje, Boeger pede cautela. “Fico preocupado com o imediatismo das pessoas. Se induzirmos elas a achar que uma pequena queda na taxa de mortes significa o fim da pandemia, isso pode gerar uma transgressão ao protocolo de forma irresponsável e uma interpretação equivocada. Não devemos baixar a guarda”.

Foto de capa: Matteo Jorjoson/Unsplash

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