2015: o ano do ajuste

Quais expectativas de um período que começa mergulhado em incertezas econômicas

Passada a correria e a euforia das festas de final de ano, janeiro marca o início de um novo período, e como todo começo, chega aos poucos, devagar, sem tanta empolgação. Em um mês que prevalece a sensação de incerteza em relação ao que deve vir adiante, não faltam apostas e previsões sobre o que nos aguarda a seguir. E desta vez não é diferente. Após o fraco desempenho da economia em 2014, que resultou na perda de confiança do empresariado nacional para investir, são inúmeras as projeções sobre o que deve acontecer em 2015, chamado o ano do ajuste pelos especialistas financeiros.

As mudanças para tentar retomar o crescimento econômico começaram com a troca da equipe do governo, com Joaquim Levy assumindo o Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa ficando responsável pelo Planejamento e Alexandre Tombini se mantendo à frente do Banco Central. Como as contas públicas registraram saldo negativo no ano passado, o reajuste para reverter esse cenário foi repassado para o contribuinte. Até o momento, já foi anunciado o aumento de tributos sobre combustíveis, sobre produtos importados e também sobre operações de crédito. A expectativa é arrecadar R$ 20,6 bilhões com as alterações.

Na avaliação do economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e ex-presidente do Conselho Federal de Economia, a combinação de determinados fatores nos últimos anos resultaram em uma situação desfavorável para o setor financeiro do Brasil e de outros países emergentes. “A conjuntura internacional contribuiu para enfraquecer a situação econômica de muitas nações exportadoras, não só pela crise na Europa, mas especialmente por causa da desaceleração da China, uma das maiores compradoras mundiais de petróleo, minério de ferro, entre outras commodities. Eles mantinham um ritmo de crescimento de 10% ao ano, taxa que foi para 7% em 2012, o menor em uma década”, explica Lacerda.

Para o professor, os instrumentos utilizados pelo governo brasileiro para estimular a economia se esgotaram e agora é necessário que a nova equipe apresente um plano claro de recuperação para modificar o clima de insegurança no mercado nacional. “Durante um tempo o Brasil foi favorecido pela alta dos preços dos minérios e dos grãos, mas posteriormente foi afetado com a forte queda nos preços da soja e da carne. Houve erros de condução na macroeconomia, como as desonerações oferecidas em diferentes segmentos que acabaram comprometendo as contas públicas. A adaptação internacional pediu correção no mercado doméstico”, enfatiza.

Repercussão no Turismo

Assim como qualquer outro ramo que integra a economia nacional, o segmento de viagens também está sujeito aos efeitos das medidas que visam a estabilidade financeira. Na opinião do economista, a forte correção no câmbio deve estimular o turismo interno, tornando-o mais favorável e competitivo. “Na média, é esperado que o valor do dólar varie de R$ 2,70 a R$ 2,80. É provável que quem costumava ir para Miami repense o destino. Este é um bom momento para o empresariado brasileiro investir em marketing e em preços competitivos, mudando a postura oportunista recorrente no setor de elevação exagerada dos preços quando há alta na demanda. Isso espanta o turista, que é um agente disseminador e poderia fazer uma propaganda positiva do seu empreendimento”, comenta Lacerda.

A professora do curso de Lazer e Turismo da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, Mariana Aldrigui, avalia que as famílias brasileiras já incorporaram as viagens como um bem de consumo possível dentro do orçamento e não devem abrir mão do sonho de postar nas redes sociais fotos na Estátua da Liberdade ou na Torre Eiffel. “Um destino que provavelmente vai sentir falta dos brasileiros é a Grã-Bretanha, já que a cotação da libra está muito alta. Mas dificilmente os viajantes nacionais vão deixar de ir para o exterior. Se até 2014 eles tiveram acesso aos bons serviços turísticos de fora e conheceram as vantagens de fazer compras por lá, é pouco provável que mudem esse padrão de comportamento agora”, afirma.

Mariana também destaca que é ingenuidade acreditar que o consumidor não é capaz de comparar as experiências de outros clientes e que vai se contentar com serviços precários. A professora lembra que em diversos casos os valores de uma viagem para o Nordeste se equiparam com os gastos para ir até a Argentina ou República Dominicana. “O ponto positivo de trabalhar no Turismo é a facilidade de adaptação e flexibilização de tarifas e de produtos. Aqueles que estiverem mais antenados vão responder melhor às flutuações”, enaltece. Ela aposta que uma tendência para este ano são as viagens menores, especialmente nos finais de semana e feriados, e que deve aumentar o número de pacotes curtos, com duração de apenas quatro dias. 

Quem também acredita que o brasileiro deve optar por roteiros com menor duração é Jurandir Oliveira, coordenador adjunto do curso de Turismo da Universidade Anhembi Morumbi. Para ele, o lazer deve ser beneficiado com o calendário favorável deste ano, que contabiliza mais de dez feriados prolongados. “A expectativa é que essas datas contribuam com mais oportunidades para o turismo interno. Para se ter uma ideia da alta na movimentação, em 2013 foram registrados 89 milhões de desembarques domésticos. Já no 1º semestre do ano passado este número cresceu 7% e a projeção é que aumente ainda mais”, pontua.

O docente afirma que a propensão a viajar está alta, e por conta desse interesse cada vez maior, é preciso seguir investindo em boas instalações e na qualidade do atendimento, realizando treinamentos constantes entre os colaboradores. “Muitos empresários pensam que economia só é feita na folha do pagamento e acabam prejudicando o serviço”, diz. Outra tática em tempos de incerteza econômica, segundo Oliveira, é priorizar a fidelização do cliente. “Investir em promoções na baixa temporada e na facilidade de pagamento são alternativas para conquistar o consumidor. Por exemplo, com a troca de pontos e milhas por produtos e mimos durante a viagem”.

Repercussão na Hotelaria

De acordo com as projeções indicadas pelo estudo ‘Perspectivas de Desempenho da Hotelaria’, elaborado pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), no acumulado de 2015 a taxa de ocupação deve ter uma oscilação positiva bastante moderada, abaixo dos 2% na maioria dos casos analisados. Roberto Rotter, presidente da instituição, avalia que o cenário econômico que se apresenta hoje para o Brasil é de instabilidade, o que reflete diretamente no setor hoteleiro. Por isso, o crescimento dos índices deve ser baixo, e a variação na diária média não deve ultrapassar os 4,5%.

“O principal indicador do nosso negócio é o RevPAR, ou seja, a receita por apartamento disponível. O estudo mostra que neste ano o índice deve chegar a 5,4%. Se considerar que a inflação ficou superior aos 6,5% em 2014, esse número representa praticamente uma correção monetária em função da inflação. Mas é importante comentar que cada mercado tem a sua relação entre oferta e demanda e que, sendo o Brasil um país continental, os valores variam significativamente de cidade para cidade”, diz Rotter.

O hoteleiro comenta que, de uma maneira geral, os resultados de 2014 foram satisfatórios para o setor, e que agora os empresários devem manter-se atentos ao controle orçamentário. Para Rotter, uma postura conservadora em relação aos investimentos pode ser útil para evitar maiores danos ao longo deste ano.

“Observamos que as expectativas dos nossos associados são que os melhores desempenhos relativos ocorram em São Paulo, onde há um parque hoteleiro compatível com a demanda da cidade, e que os piores sejam os de Belo Horizonte, cuja oferta aumentou significativamente em função de um incentivo da prefeitura. É preciso haver equilíbrio entre oferta e demanda para que o mercado seja saudável”, observa Rotter.

Ricardo Mader, diretor da área de Hotéis e Hospitalidade da consultoria Jones Lang LaSalle para a América do Sul, identifica no segmento de eventos uma área que pode ser afetada com o cenário econômico atual. “O Brasil passa por um problema de credibilidade enorme e com isso os investimentos estão sendo segurados. A hotelaria é muito dependente do segmento corporativo – quase 66,7% da demanda – e as empresas estão cortando gastos em viagens e eventos. As feiras ligadas ao setor industrial também estão sentindo os impactos da retração. Desde o ano passado vem caindo o número de expositores e visitantes”, alerta.  

O executivo lembra que ainda pode demorar para haver mudanças na percepção em relação ao mercado nacional. Com a desvalorização do real, Madder aposta no fortalecimento do segmento de lazer puro, que também deve ser impulsionado pela recuperação da economia da Europa, que depois da Argentina, é o principal emissor turístico para o Brasil.

Novos negócios

“A crise traz oportunidades para quem está atuando, para quem está focado e bem informado”. A afirmação é de Antonio Setin, presidente da construtora Setin, e investidor no ramo hoteleiro há mais de 15 anos. O gestor se diz otimista em relação às mudanças anunciadas pelo governo, e apesar de achar que os lançamentos e as comercializações serão difíceis, considera este um ano positivo.

“O setor imobiliário vai pagar a conta junto com outros segmentos. As medidas são um remédio amargo, mas ainda bem que vieram. Se demorassem mais, estaríamos adiando o inevitável. Faz 36 anos que eu ouço muita má notícia e já presenciei diversas outras crises. É preciso apostar na melhora e no futuro, já que a confiança é o motor de uma economia”.  

Em relação aos novos investimentos, Setin acredita que em épocas de desaceleração as grandes redes costumam ficar mais cautelosas e a tendência é que esperem mais tempo para sentirem a reação do mercado. “O hotel cresce na medida em que o PIB do país aumenta. É importantíssimo que a economia volte a avançar para que a hotelaria acompanhe essa evolução”, pontua. Atualmente o investidor responde pelos empreendimentos ibis Styles SP Anhembi, ibis Expo Casa Verde, ibis budget Vergueiro e Pullman Ibirapuera, todos instalados na capital paulista e pertencentes à rede francesa Accor.

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