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2019
09
05

Falta alma ao hoteleiro brasileiro?

Voltei de uma viagem a Santiago de Compostela. Uma experiência fora do tradicional. Esqueça os clichês e guias tradicionais. Optei por uma viagem sem sofrimento, privações e albergues. Sim, é possível hoje, através de operadoras especializadas, percorrer o célebre caminho com propósitos nobres e desfrutar, nas paradas, de boa (eno) gastronomia e muito conforto.

Escolhi o caminho português, muito mais tranquilo e curto que o francês – embora menos conhecido- e que o espanhol. Pude me hospedar a cada dia, depois de percorrer 20km, em Pousadas e Paradores. Para quem não sabe, as Pousadas de Portugal é uma marca que reúne hoje 43 empreendimentos em edifícios históricos que pertencem ao Estado mas são geridas pelo Grupo Pestana.

Já os Paradores na Espanha seguem um conceito semelhante. São edifícios lendários, em cidades igualmente históricas. Todos repletos de peças antigas que nos fazem regressar no tempo. Embora meu interesse na viagem estava em Santiago, um dos três lugares mais importantes de peregrinação católica- assim como Jerusalém e Roma- poderia tranquilamente viajar por outra razão pelo norte de Portugal e Galícia e ficar encantado em minha jornada com as experiências de gastronomia e hospitalidade.

Temos espalhados pelo Brasil muitos prédios com arquitetura autêntica e dentro dos nossos parâmetros, com certa história. Poucos são aproveitados por empreendedores da indústria da hospitalidade. Muitos empresários se queixam da falta de investimentos do poder público e a completa desorganização estratégica do Ministério e Secretárias de Turismo para promoção do país. É verdade também que temos de enfrentar sérios problemas de infraestrutura. Mas há também a falta de visão e coragem dos hoteleiros brasileiros fora dos grandes centros de negócios.

Nesta mesma viagem a Península Ibérica, um amigo, operador de turismo, me contou que no final de semana anterior a nossa jornada, seu irmão o convidou para ir a São José dos Campos e passar o final de semana em um hotel de grande rede, criado para atender homens e mulheres de negócios. A experiência, como se poderia prever, foi altamente decepcionante.

Escapadas ao interior, de qualquer estado brasileiro, estão muito aquém daquelas feitas no interior de outros países. Fazendas mal aproveitadas, pousadas mal cuidadas. Tudo muito básico, sem charme, sem alma. E embora a gastronomia esteja na moda, e não faltem chefs saindo das faculdades,  poucos hoteleiros se empenham em criar experiências culinárias em seus empreendimentos.

Crescemos com a imagem, hoje notoriamente falsa, de que somos o povo mais hospitaleiro e criativo do mundo. Nossa hotelaria, com raríssimas exceções, não tem nada de original e acolhedora.  Os hotéis que funcionam são os dirigidos por grandes multinacionais em grandes centros urbanos. Famílias e casais gostariam de ir mais vezes para o interior e as praias, mesmo fora de alta estação. Não o fazem menos por vontade mas por lógica de consumidor. Os potenciais clientes também viajam menos porque é pouco interessante o que está sendo oferecido no mercado. Isso sem mencionar as tarifas praticadas em baixa estação, que são desproporcionais à qualidade do se oferece.

Falta originalidade. Falta criatividade. Falta humor nos pequenos empreendimentos no interior do país. A pretexto de parecerem lugares conectados ao mundo, pequenas lojas, restaurantes e pousadas copiam, de forma simplória e vexatória, o que veem nas grandes cidades. A parede de pau a pique é recoberta com revestimento cerâmico branco e o chão, que poderia ser de pedra, de porcelanato.

Fuxico, rendas, bonecas do Jequitinhonha, culinária regional, compotas são valores que deveriam compor nossa hotelaria. Assim como mitos e lendas. E quando aparecem, é de forma pouco original. Não concebo hotéis do interior do Brasil com neutralidade. Cada estado possui riqueza cultural regional pouquíssima aproveitada.

A globalização é inevitável e necessária. Mas não pode destruir o que torna cada cidade, cada região única. É preciso ao hoteleiro brasileiro o orgulho de preservar tradições e estéticas regionais. E apresentá-las como experiências aos hóspedes, daquela forma criativa e calorosa, como pensamos, equivocadamente, ter em nosso DNA.

Sim, embora hoteleiros brasileiros sejam heróis em lidar com um mercado tão complicado, falta-lhe orgulho do regionalismo, coragem de ser diferente e também autocrítica. E se tais elementos são essenciais em um destino turístico consagrado, eles podem ser a única salvação em um país que não tem consciência de seu potencial de viagens.

Ricardo Hida é diretor de estratégia e imagem da Promonde Food & Travel Marketing.

 

 

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