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2017
09
08

Luigi Rotunno (ABR): Os resorts em prol do turismo brasileiro

Luigi Rotunno, presidente da Associação Brasileira de Resorts (ABR), é também hoteleiro e proprietário do resort La Torre All Inclusive, localizado em Porto Seguro (BA). Filho de pais italianos e natural de Luxemburgo, o profissional é formado em Economia e cursou faculdade de Direito. Trabalhou no Banco Geral de Luxemburgo e na Bolsa de Valores do País. Iniciou sua trajetória na gastronomia e está no Brasil desde 2001, exercendo papel fundamental dentro do turismo, à frente da associação há dois anos.

Hotelnews: A Associação Brasileira de Resorts (ABR) foi fundada em 2001 para identificar, avaliar e discutir a situação do segmento no País. Qual é o trabalho da entidade no mercado brasileiro?

Luigi Rotunno: Temos 50 associados, tendo em vista que no panorama brasileiro não existem mais do que 75 resorts. Entre eles, 75% são propriedades independentes. Não há muitas redes de resorts no Brasil, e esta é uma característica própria do País, diferente do que acontece no México ou outras localidades. De forma geral, eu diria que a entidade cresceu muito desde sua fundação. Nosso ponto forte sempre foi o foco comercial. Nós realizamos workshops, participamos de feiras e promovemos capacitação de agentes de viagens.

HN: O que um empreendimento precisa ter para ser membro da ABR?

LR: Por não ser uma associação quantitativa, e sim qualitativa, é necessário que a propriedade preencha os requisitos de uma matriz de classificação exigente criada pela ABR, com a finalidade de garantir a qualidade do produto. Nem todo empreendimento que se intitula como resort é reconhecido por nós. Para que seja sócio, ele precisa passar por uma auditoria externa, contratada para avaliar o futuro candidato.

HN: Quais são os principais critérios de seleção para associar-se?

LR: O resort deve suprir todas as necessidades dos hóspedes, e o ambiente deve ser 100% sustentável, ou seja, obrigatoriamente precisa oferecer atividades de lazer diversificadas para todas as faixas etárias, alimentação 24 horas e variedade de restaurantes, área verde por metro quadrado suficiente por pessoa e espelho d’água compatível com o número de apartamentos. Estas são algumas das principais regras para selecionar novos associados.

HN: Existem propriedades com potencial para integrarem o quadro da ABR?

LR: Sim. Vemos hoje diversos meios de hospedagem que perceberam a necessidade de realizar investimentos para se tornarem resorts. Nesse momento, temos quatro empreendimentos em processo de auditoria, que dura em média três meses.

HN: Caso um hotel tenha características e/ou problemas que o impeçam de entrar na associação, vocês oferecem consultoria para melhorar os pontos em questão?

LR: Sim. Temos um consultor que orienta quais pontos o empreendimento precisa aprimorar. Assim, avaliamos o que é crítico e apresentamos um relatório ao meio de hospedagem, indicando o que precisa ser mudado. Nosso interesse é obviamente agregar ao mercado e divulgar a cultura dos resorts; não mostrar superioridade. Queremos explicar a importância e as vantagens de ser associado, mostrando que o resort terá mais visibilidade, fluxo mais intenso de hóspedes, a participação constante em comitês temáticos, além do acesso a números de diária média e outras informações relevantes.

HN: Qual o perfil do público consumidor de resorts atualmente?

LR: Ele é constituído, em sua maioria, por famílias. Porém, alguns resorts estão se reposicionando para um público mais jovem. Hoje, o target está entre 28 e 38 anos, com duas crianças menores de seis anos. Sobre o poder aquisitivo, são em sua maioria visitantes de classe B.

HN: Como é feita a divulgação da associação?

LR: Investimos em novo site e aplicativo, entrando também com um forte propósito nas redes sociais. Hoje, temos duas páginas no Facebook: uma corporativa e uma focada no público final, que já conta com mais de 300 mil likes e um excelente engajamento (acima de 10%). No Instagram, que possui cerca de 8,3 mil seguidores, lançamos agora nosso primeiro concurso nacional, para envolver o público dentro da experiência vivenciada no hotel.

HN: O resort associado também colabora com a ABR? Existe essa moeda de troca?

LR: Claro. Um dos projetos que nos orgulhamos é a criação dos comitês temáticos, que começaram no ano passado e estão funcionando muito bem. Isso é uma superação, pois é raro no associativismo que os comitês deem bons resultados. São duas reuniões por ano, nas quais os associados mandam o gerente, o diretor, ou alguém que atue com responsabilidade dentro do empreendimento. Juntos, eles trocam experiências sobre um determinado assunto. Conseguimos quebrar também, nos últimos dois anos, um tabu sobre a confidencialidade das informações. Estamos implementando aos poucos essa filosofia de que, hoje, não existe mais segredo. É preciso entender que, com o meio digital, todo mundo sabe tudo. Não adianta você querer esconder seus dados numéricos. Hoje, nós emitimos até mesmo relatórios qualitativos de competitividade entre todos os associados.

HN: De acordo com o levantamento realizado pela última edição anual da publicação “Resorts em números”, distribuída pela associação, 2016 foi o melhor ano da história em relação à taxa de ocupação, chegando a 63,6%, número quase 11% maior se comparado a 2015. A que vocês atribuem o bom resultado?

LR: Existem vários fatores. Eu insisto em dizer que, em primeiro lugar, o problema não está no câmbio, como afirmam frequentemente. Os associados chegaram a dois níveis de maturidade. O primeiro é o qualitativo: nunca a qualidade dos resorts brasileiros esteve tão boa como está agora, e podemos avaliar isto por meio de relatórios. O segundo ponto é que hoje os resorts caíram no gosto do brasileiro, tornando-se um produto assimilado no consumo. Viajar para um resort não é mais inacessível e, inclusive, é algo necessário, especialmente para famílias; virou um hábito. O crescimento continua também em 2017.

HN: Mas como a ABR mede a competitividade de seus resorts em relação a empreendimentos no exterior?

LR: Um dos nossos desafios no mercado internacional foi de, primeiro, entender a competitividade dos resorts brasileiros. Com a ferramenta online utilizada pela ABR, fizemos uma comparação com o México, que é um bom termômetro. O turista sul-americano que viaja para resorts sempre compara Cancun e Brasil. Na ferramenta, temos 84% de excelência para o México e 87% para o Brasil. Nós devemos entender que a qualidade destes resorts é igual ou superior à de outros países. Não sou eu que faço essa afirmação, é o consumidor.

HN: Como a associação se posiciona no mercado do Turismo?

LR: Queremos nos colocar no mercado não apenas como uma entidade que defende os resorts, mas o turismo brasileiro como um todo, pensando no setor como cadeia produtiva. Em vista disso, temos uma agenda política extensa. Por sermos uma associação Federal, nossa atuação não tem limites.

HN: Como é a sinergia com as entidades ligadas ao turismo? Existem pontos divergentes?

LR: É excelente. Conseguimos criar uma aliança muito boa com todas as outras entidades Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), e Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB). O trade faz um ótimo trabalho em conjunto. Temos percebido que os resultados são bem melhores quando todos se unem. Mostramos, portanto, mais uma vez, uma excelente harmonia. Vemos claramente que o Ministério do Turismo (MTur) se sente cada vez mais pressionado frente a entidades de turismo. Por outro lado, é claro que sempre existem divergências. A hotelaria independente está sofrendo mais do que resorts e, por isso, a ABIH precisa ter uma postura mais defensiva com os hotéis associados, que estão realmente fechando todo dia, enquanto eu represento meios de hospedagem que estão batendo recorde de ocupação. Nos apoiamos, independente das diferenças no mercado.

HN: Sobre as plataformas de economia compartilhada, como o Airbnb: a ABIH defendeu, por algum tempo, a isonomia da cobrança de impostos. Foi proposto também o não pagamento de ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) para todos os hotéis. Qual a opinião da ABR sobre este assunto?

LR: Existe uma constante mudança de opinião sobre este assunto entre os líderes das entidades, que é estimulada pela evolução progressiva destas plataformas. Enquanto estamos conversando, elas já mudaram de economia, de conceito e a forma de cobrança. Eles são tão rápidos na evolução, que a legislação não consegue alcançar uma visão do que deve ser feito. Nós - da ABR - apoiamos uma comissão de economias compartilhadas (que está sendo criada na Câmara dos Deputados). O assunto deve ser tratado de forma independente e objetiva, não só dentro do turismo. É preciso ter um marco regulatório para o assunto e que ele seja claro. Não cabe só ao turismo tentar regulamentar e não é só uma questão de ISS; 2% ou 5% não muda nada na realidade das plataformas. Mesmo se pagassem 5%, a competição seria desigual. A maior carga de um hotel é o custo de funcionamento, e não a tributação.

HN: Qual a sua opinião sobre a transformação da Embratur em agência?

LR: Estamos totalmente carentes em relação à captação de mercados internacionais. A Embratur faz o que pode, mas não tem espaço de manobra. Aliás, nem a Embratur e nem o próprio MTur. Se ela for transformada em agência, terá um conselho consultivo composto de cinco entidades - entre as quais obviamente já estamos pleiteando a participação - para fazer parte das políticas públicas da captação destes viajantes. Atualmente, as verbas que o Brasil destina ao Turismo são ridículas. Não estou de forma alguma cobrando o presidente da Embratur ou o ministro, e sei que eles não têm as ferramentas necessárias para trabalhar.

HN: O que poderia ser feito para melhorar a promoção turística do Brasil?

LR: A emancipação da Embratur sem dúvida é importante, mas existem dois problemas: o primeiro é a transformação da entidade em agência, e o segundo é a questão da captação de verba. A meu ver, somente a mudança da Embratur não resolve o problema, e isto é uma questão de consciência e cultura política. Em Brasília (DF), não se enxerga no turismo uma indústria. Por outro lado, nos últimos anos, vários políticos estão dando atenção ao setor. Esse sinal me deixa muito feliz, porque nunca tivemos tanto deputados como temos hoje abraçando a causa. Nós temos uma empresa na capital federal que representa a ABR e faz um trabalho de lobby na cidade. Eu, inclusive, cumpro uma agenda lá, e este trabalho vem dando resultado.

HN: O MTur é aberto às reivindicações do trade?

LR: As entidades têm um canal aberto e direto com Marx Beltrão atualmente. Entretanto, muitas decisões não dependem somente do ministro (se a reivindicação impacta, por exemplo, em outros ministérios), o que muitas vezes impede o avanço de algumas questões levadas pelo trade. Frente à Casa Civil e aos outros ministérios, o Turismo tem um peso muito baixo.

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