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Edição 409

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Do mundo para a Amazônia

Ruy Carlos Tone já esteve nos quatro cantos do mundo, mas foi na Amazônia que resolveu empreender


Depois de percorrermos 200 km de carro pela estrada que separa Manaus de Novo Airão (AM), chegamos ao restaurante flutuante Flor do Luar e fomos recepcionados com drinques e comidas recheadas de sabores amazônicos, como tambaqui assado acompanhado de farofa, banana e baião de dois. Um momento em que já começamos a desacelerar e entrar no ritmo da floresta.


Logo após o almoço e um temporal, com direito a muitos banzeiros (ondas intensas) no rio, chegou a hora de embarcamos com a Expedição Katerre para desbravarmos a Amazônia. Eis que o Jacaré-Açu surge e aporta no flutuante. Fabricado com madeira nobre no estilo das embarcações locais, o barco de 64 pés tem oito cabines duplas com banheiro e ar-condicionado, salas de estar e jantar, e um deck no andar superior, onde passamos grande parte do tempo ao longo da viagem entre paisagens de encher os olhos, boas conversas e risadas.


Nos despedimos do sinal do celular assim que começamos a navegar pelo Rio Negro rumo ao Parque Nacional do Jaú, declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco. A natureza é a grande protagonista e o lema “desconectar para reconectar” dá o tom da viagem. Foram quatro dias off-line, sem saber o que estava acontecendo no mundo, uma das melhores terapias que o ser humano pode vivenciar.


Explorando a selva


Ao iniciarmos o percurso entre as centenas de ilhas do Parque Nacional de Anavilhanas - o segundo maior arquipélago fluvial do mundo -, o guia Josué Basílio explicou a  programação da expedição, falou sobre a fauna e flora da maior floresta tropical do mundo e também das diferenças da região nos períodos de seca e cheia dos rios. 


Além de Josué e dos marinheiros, a tripulação conta com arrumadeira e duas cozinheiras que preparam as refeições com muito carinho e abundância de ingredientes regionais, como peixes pirarucu, tambaqui, matrinchã e tucunaré, assim como açaí, cupuaçu e tapioca. Juntou-se também a essa aventura, Ruy Carlos Tone, um dos sócios da Katerre e idealizador de um grande projeto social na região.



Comunidade da Cachoeira



A nossa estreia na Amazônia não poderia ter sido mais autêntica. Logo na primeira noite fomos convidados a dormir em uma rede no Mirante do Madadá, que abriga um quiosque de dois andares e sem paredes laterais. Em um primeiro momento, pernoitar no meio da floresta pode soar um tanto desconfortável se pensarmos nos animais que podem surgir, mas Josué ficou no piso inferior de prontidão para espreitar qualquer perigo. Adormecer ouvindo os sons da mata e sentido a refrescante brisa nos faz sentir parte dessa gigante natureza.


Os dias passaram lentamente, explorando este cenário único no planeta. Caminhada pela floresta adentro, com direito a práticas de sobrevivência demonstradas por Josué, mergulho no Rio Negro, banho de cachoeira, passeios noturnos de voadeira para focagem de jacarés, pesca de piranhas ao amanhecer e visitas às comunidades ribeirinhas fizeram parte da programação da expedição.


Dependendo da época do ano que se navegue, as paisagens são bem diferentes. Cada uma tem seus encantos e belezas e isso vai influenciar em alguns passeios. Enquanto na cheia (janeiro a junho) predominam os igarapés, canais dentro das matas principalmente nas áreas alagadas (igapós); na seca formam-se praias e cachoeiras. Um dos momentos mágicos da viagem foi quando deslizamos de canoa entre os igarapés da Ilha dos Macacos Bicó, que estava inundada.


E foi nessa imersão na Amazônia regada a muitos bate-papos no deck do barco, emoldurado por cenários arrebatadores, que Ruy Tone contou como nasceu a paixão pela região e a sua trajetória: de jovem estudante, explorando o mundo de mochila nas costas, até investir no turismo sustentável em plena selva amazônica.



 


O mundo é o limite


De família japonesa e formado em engenharia civil e administração de empresas, Ruy Tone foi mochileiro por muito tempo, viajando principalmente pela América do Sul e Brasil. Foi assim que conheceu o País de norte a sul, leste a oeste. “Logo que me formei, os companheiros de viagens começaram a desaparecer, ou porque tinham que trabalhar ou porque estavam casando. Nesse mesmo período veio a cobrança para administrar a construtora da família. Me vi em um dilema: poderia ganhar mais dinheiro do que precisava, mas não teria liberdade para usufruir da forma como acredito ser melhor, que é conhecendo o mundo”, reflete.


O processo de libertação iniciou quando resolveu montar uma agência de viagens, a Mundus. Desta forma, Tone desenhava roteiros para os lugares mais diferentes, principalmente os que queria conhecer, e montava um grupo. “Já são quase 20 anos de Mundus e continuamos fazendo viagens para destinos remotos, lugares com acesso complicado. Lançamos muitos roteiros em locais que somente agora estão se abrindo para o mundo, como é o caso de Myanmar. Começamos a viajar para lá há 15 anos”.


Com um currículo que inclui mais de 120 países, inevitavelmente surge aquela curiosidade de qual seria o lugar mais exótico visitado por este viajante. Ruy não hesita em afirmar que a viagem mais emblemática foi para o Chade, país localizado na África Central. “O Chade é o mais dramático do ponto de vista cênico, mas eu tenho uma relação afetiva com Myanmar, gosto muito das pessoas de lá”, conta.


Entre os destinos mais incomuns, o empresário cita o Monte Kailash (Tibet), na fronteira com a Índia e o Nepal. “É a meca dos budistas tibetanos que vão fazer o kora,  peregrinação a pé ao redor da montanha considerada a mais sagrada para budistas e hinduístas. Experiência para ser realizada apenas uma vez na vida”, afirma Ruy Tone, que cita também o deserto do Danakil, entre a Etiópia e a Eritréia, como uma viagem exótica. “É uma depressão a mais de 100 metros abaixo do nível do mar. Uma cratera vulcânica com lagos sulforosos (Dallol), uma paisagem de outro planeta”.



Barco Jacaré-Açu                                                              Explorando a Amazônia de voadeira



Paixão brasileira


Em 2004, depois de rodar muito por este mundo e ver várias operações diferenciadas, Tone pensou na possibilidade de formatar um produto brasileiro para mostrar a autenticidade do País. “Eu queria algo que fizesse o viajante se perder por uma região”, explica. “Comecei a procurar primeiro pelo Pantanal e não achei nada. Então, fui para a Amazônia e encontrei o Cleber, que tinha um barquinho chamado Katerre. Fiz uma viagem com ele até Barcelos, subindo o Rio Negro, e me apaixonei pela região”, conta com os olhos brilhando como se tivesse descoberto uma mina de ouro.


Foi assim que Ruy entrou como sócio investidor da empresa, que veio a se chamar Expedição Katerre. Nos anos seguintes, já com o Jacaré-Tinga - barco que conta com apenas três quartos -, a dupla desbravou o Rio Negro e seus afluentes, como o Jaú e Xixuaú. “Nesta época, vendíamos uma expedição a cada seis meses e vários amigos viajavam com a gente. O bom foi que só íamos para lugares desconhecidos”, recorda.


Foi apenas em 2010 que construíram uma embarcação maior, o Jacaré-Açu. Formataram os roteiros e começaram a operar de fato. Com o tempo sentiram a necessidade de fazer um deque mais estruturado em Novo Airão, para que os passageiros pudessem embarcar e desembarcar com mais conforto. A ideia inicial era que a estrutura tivesse restaurante, bar e piscina, mas Tone vislumbrou naquele local um pequeno hotel e, assim, nasceu o Mirante do Gavião, em 2014. 


A proposta inicial era vender o meio de hospedagem integrado ao barco (a expedição mais uma ou duas noites no hotel),  mas o empreendimento ficou tão bacana que decidiram promovê-lo de forma independente da Katerre. “É muito mais fácil comercializar o Mirante do Gavião do que o barco, pelo simples motivo de que no hotel o hóspede pode entrar e sair quando quiser, e no barco não dá para ser assim”, pontua. 


Passeando de canoa na Ilha dos Macacos



Investimento social


Além da Expedição Katerre e do Mirante do Gavião, Ruy Tone também é sócio do restaurante flutuante Flor do Luar, em Novo Airão; do restaurante Caxiri e do hotel Casa Teatro, ambos em Manaus; e da operadora Turismo Consciente, que atua em outras áreas da Amazônia, como Belém e Ilha do Marajó, Alter do Chão e Tapajós (PA), Rios do Amazonas e Aldeias Yawanawa (AC).


Parte do lucro da Katerre, do Mirante do Gavião e do Caxiri é destinada a dois projetos sociais na região: a Fundação Almerinda Malaquias, em Novo Airão; e a Escola Vivamazônia, na comunidade ribeirinha Gaspar, que fica no rio Jauaperi, quase divisa com o estado de Roraima.


Para Ruy, a melhor forma de ajudar os ribeirinhos é criando uma atividade permanente como o turismo, e cita o exemplo da Comunidade da Cachoeira, onde paramos durante a expedição. “Pagamos uma taxa à comunidade para ancorar o barco lá, aquele passeio de canoa na ilha dos Macacos, e os condutores também foram remunerados. O ideal é que fosse realizada uma expedição por semana para aumentar a renda deles”.


E o futuro?


Com este espírito empreendedor, não é difícil de imaginar que Tone ainda tenha grandes ambições para este pedaço tão especial do País. Acredita que é possível replicar o modelo da Wilderness Safaris - operadora de ecoturismo e lodges sustentáveis pelo continente africano - e construir muitos hotéis pequenos, com até dez quartos, em regiões distintas da Amazônia, para que os viajantes possam entender os biomas e seus contrastes. “Estou em busca de um investidor que acredite nesse projeto”, afirma o empresário.


“Fico preocupado se aparecer alguém com uma ideia maluca de fazer um hotel de 200 quartos em Novo Airão. As comunidades em volta não suportariam. Começaria a ocorrer um movimento em massa de comércio com esses turistas, o que destruiria o equilíbrio das relações. O ideal seria ter 20 empreendimentos com dez quartos, assim cada um se mobilizaria para ajudar uma comunidade. Dessa forma, ficaria um negócio mais bem distribuído”, assegura.


O mesmo conceito se aplica para os barcos. Ruy acredita que se tivessem 20 barcos navegando sincronizadamente pelo mesmo trecho do Rio Negro, mas sem se encontrar, e fizessem paradas em diferentes comunidades, os viajantes teriam uma experiência mais autêntica. O impacto seria positivo para todos: turistas e comunidades. “O turismo não pode alterar o status quo. Se o objetivo é enxergar como as pessoas vivem, não podemos modificar o local. O turismo não pode ser elemento de alteração”, afirma categoricamente.


E conclui: “uma das minhas maiores decepções é a postura dos brasileiros de não valorizar o turismo no Brasil. Por que a Amazônia tem que ser mais barata do que Miami? Uma garrafa de vinho no meio do Rio Negro tem que ser mais cara do que em São Paulo. A Amazônia é o lugar onde os brasileiros deveriam pensar com mais carinho”.


Veja a matéria na página 38 da edição 409


 


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