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Edição 409

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Sintonia com o social

Horta comunitária na preparação de jovens aprendizes no Grand Palladium Imbassaí (BA)

Hotéis assumem responsabilidade social e mudam a vida de comunidades


Se negócios que desejam imprimir modernidade à gestão precisam se manter em dia com a tônica do mundo à sua volta, a hotelaria se esforça para responder à altura e mostra a sua cara quando o assunto é responsabilidade social. A atividade, feita por gente e para gente, registra ações permanentes e outras pontuais, que mudam a vida de pessoas e comunidades.


Ligados a redes ou independentes, hotéis e resorts fazem eco ao que a Organização das Nações Unidas (ONU) preconiza em seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, conhecidos como ODS, que compõem a Agenda 2030 da entidade - um plano de ações que visa tornar mais justa a vida no planeta. 


Do observatório da ONU repercutem sobre as corporações e sociedade organizada imperativos como: combater a pobreza, promover o bem-estar, assegurar formação, tratar de forma igualitária a questão de gênero, fazer da produção e do consumo algo sustentável, entre outros que chegam também ao dia a dia do hotel. 


Apesar de ainda identificar espaço a ser ocupado no raio de ação da responsabilidade social, resta o conceito ser plenamente absorvido, por exemplo, por boa parte de hotéis independentes. Mas, Mariana Aldrigui, professora no curso de Lazer e Turismo da EACH/USP, com atuação nas áreas de políticas públicas e educação para o turismo, considera que o compromisso avança no País. De acordo com a especialista, as iniciativas mantêm o foco na qualificação para posterior absorção da força de trabalho e, conforme ressalta, hotéis que atuam mais continuamente em projetos sociais têm um retorno de imagem mais efetivo. 


Na visão do professor João Paulo Faria Tasso, da Universidade de Brasília (UNB), responsabilidade social é um tema que se multiplica na hotelaria nacional e envolve desde emprego a jovens, adultos e pessoas com deficiência até incentivo à cultura local. Ele prega que “o empreendedor precisa entender que a ampliação da visibilidade e o aumento dos lucros do seu estabelecimento, com ganho de competitividade no mercado turístico, dependem essencialmente do funcionamento engrenado do destino como um todo, de forma autossuficiente”.



Hotel Toriba (SP) recebe duas mil crianças/ano no ‘Fazenda & Aprendendo’


Um novo olhar


Antonietta Varlese, vice-presidente de Comunicação e Responsabilidade Social da Accor América do Sul, confirma o engajamento da rede hoteleira. Em relação à presença da mulher em seu quadro de funcionários. “Hoje mais de 50% dos gerentes em hotéis Accor no Brasil são do sexo feminino, o que distingue o País no panorama da rede no mundo”, salienta. A executiva lembra que a companhia é signatária do programa HeForShe da ONU, que dissemina o apoio do homem à mulher nos ambientes de trabalho, para fortalecer o senso comum da igualdade de gênero. 


Varlese relaciona que o movimento pela inclusão na Accor espelha o que está acontecendo na própria sociedade. Enfileira-se nesse mesmo critério a admissão de refugiados para compor o quadro de colaboradores. A ponte entre o RH e esses funcionários é feita com a ajuda de organizações que acolhem esse público. 


A contratação de transgêneros nos hotéis Accor se incorpora à mesma diretriz. O processo seletivo em curso atraiu mais de 220 currículos, dos quais 80 foram chamados, sendo que oito serão absorvidos em variadas funções nos hotéis da rede localizados na capital paulista. “Há um manual específico para a contratação de transgêneros, para reforçar o clima amigável e contribuir para a integração desse colaborador ao ambiente de trabalho”, sentencia Varlese.


As ações do grupo AVIVA - chapéu corporativo dos complexos Rio Quente Resorts e Hot Park (Caldas Novas-GO) e Costa do Sauípe Resorts (BA) -, fazem comungar os parâmetros ambientais com os de responsabilidade social. A meta tem sido a de combinar ações da empresa com a agenda da ONU, conforme explica Neide Aparecida Tavares Gonçalves, gerente de Meio Ambiente AVIVA. Ela compara que até 2017 o sistema de gestão do grupo tinha um viés exclusivamente administrativo e migrou para o contexto social, ambiental e de saúde/segurança. 


Aplicado em Rio Quente e ainda sendo estruturado no complexo de Sauípe com início previsto para 2020, a gerente da AVIVA cita projetos que juntam no mesmo propósito funcionários, fornecedores e comunidade local. A estratégia ainda inclui aulas para crianças carentes que têm como temática cuidados com a horta e os viveiros de pássaro e de mudas. São 33 menores, na faixa etária até 12 anos, que recebem seis meses de treinamento. “Cumprimos um cronograma contínuo e o trabalho não se resume a apenas transmitir o conceito da biodiversidade, mas igualmente princípios de cidadania”, relata Neide Aparecida.


As instalações do Rio Quente Resorts também recebem universitários para visitas técnicas dos cursos de gastronomia, turismo, biologia e engenharia ambiental. A unidade - que serve 3 mil refeições/dia - compartilha com esse público o seu processo de produção e destinação de alimentos. Na esfera de formação superior, o projeto de criar a Universidade Rio Quente é outra iniciativa que o empreendimento se prepara para viabilizar, destinada a revelar talentos, capacitar e treinar pessoas nas áreas de gastronomia, segurança alimentar e educação ambiental.


Nos torneios de tênis, lembra Neide Aparecida, crianças auxiliam os jogadores no recolhimento das bolinhas e recebem ajuda financeira do resort para essa tarefa. Ação social também desenvolvida pelo Rio Quente é a parceria, mantida desde dezembro de 2017, com 13 catadores de lixo reciclável, pessoas da comunidade que atuam num galpão e contam com ajuda de custo e verba para o combustível.



Revolução silenciosa


Ailton Teixeira Barbosa, diretor de recursos humanos do Grand Palladium Imbassai - no município de Mata de São João (BA) -, que acumula o cargo de superintendente do Instituto Imbassaí, testemunha o peso dos projetos sociais no empreendimento. Inaugurado em 2010, além de gerar emprego e renda para os locais com a obra, sempre houve acolhimento às pessoas da comunidade. “Ministramos cursos para conscientização sobre tabagismo e drogas”, conta ele 


O Instituto, credenciado junto ao Ministério do Trabalho, ministra cursos para garçons, camareiras, auxiliares de lavanderia e entretenimento; e é formado por 15 empresas parceiras da área hoteleira. O projeto jovem aprendiz, iniciado em 2011, se encontra na sua 28ª turma e assimilou em funções diversas, no período, total de 2.085 trabalhadores, entre 18 e 23 anos. “Estamos promovendo uma revolução silenciosa na região”, comemora o superintendente do Instituto, que conta com sede própria.


Barbosa também cita a Casa de Farinha, projeto realizado numa parceria do hotel com a prefeitura de Mata de São João, que atualmente vende a produção para a comunidade e para consumo no próprio Instituto. “Projetos que permitem viver, experimentar, observar e contagiar a todos que o conhecem”, assim é que Paulo Roberto Silva, gerente Operacional do Txai Resort Itacaré (BA), define a intensidade dos programas sociais no empreendimento. 


O cenário foi composto, num primeiro momento, pela necessidade de proteção da desova das tartarugas, atrativo turístico que passou pela capacitação da equipe de colaboradores do hotel, a cargo das equipes do Projeto Tamar, e pela quebra da produção de cacau - cultura forte na região - no início dos anos 2000, acometida por praga. “Era urgente acolher trabalhadores, muitos deles arrimos de família”, conta. 


A saída mais imediata foi a criação do ‘Companheiros do Txai’, uma frente que presta assistência técnica com a ajuda de um engenheiro agrônomo, que passou a orientar 20 famílias integrantes do programa na produção orgânica de hortaliças, legumes, óleos (dendê e coco), ovos de galinha etc; matérias-primas dos cardápios do empreendimento. 


Pela lente da responsabilidade social, Paulo Roberto assegura que, apesar do auxílio prestado aos produtores, eles não são obrigados a vender o que produzem para o Txai, ou seja, comercializam livremente o que tiram do campo e o hotel remunera pelo preço de mercado. 



Artesãos se integram ao programa do UXUA (BA)         Escola intercultural do Sol Y Luna, no Peru


Outro hotel em terras baianas, o UXUA, instalado há 10 anos na praia de Trancoso, sintetiza o esforço e atenção ao desenvolvimento local. Das peças de decoração confeccionadas com material reaproveitado, até atividades que integram artesãos regionais e grupos de indígenas como os pataxós, as ações refletem a filosofia do fundador do empreendimento, o designer Wilbert Das.


A receita assimilada pelo UXUA é a de conectar hóspedes às experiências dos funcionários do hotel. “Em Trancoso, as pessoas amam sua cultura e têm orgulho dela”, acentua Wilbert Das, ao valorizar a interatividade, o que eleva a auto estima dos colaboradores, segundo ele. As relações de trabalho seguiram, desde a abertura, o caminho de incentivar e até financiar a educação dos funcionários. Até 2020, o Projeto UNI UXUA prevê a formação universitária de 20 de um total de 85 pessoas, com suporte do empreendimento. 


Aos funcionários o UXUA oferece, ainda, noções de economia, que passam por ensinamentos de como administrar gastos e patrimônio pessoal, além das orientações sobre nutrição e exercícios físicos.



Satisfação em ajudar


E, para unir o útil ao bem social, a equipe do hotel Bourbon Ibirapuera, na capital paulista, colocou a criatividade à prova para ampliar a devolução pelo hóspede dos questionários de satisfação e ainda ajudar entidades assistenciais. A cada pesquisa preenchida, o hotel doa R$ 1,00 para ONGs relacionadas ao projeto. “Ao mesmo tempo em que conscientizamos os clientes a doarem para ONGs, os persuadimos a preencher a pesquisa de satisfação. E quanto aos colaboradores, a ação gera proximidade e motivação da equipe, que compactua com a causa nobre, porque todos se sentem parte desse círculo do bem”, observa Audi Tiburzio, coordenador de Marketing do empreendimento. Ele conta que em abril de 2018 o retorno era de 385 questionários. No mesmo mês deste ano, o número de respostas subiu para 436. As entidades que recebem os recursos do Bourbon Ibirapuera são Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), e as ONGs TETO e Pequeno Príncipe.


Desde o início de 2017, o hotel Toriba, em Campos do Jordão (SP), realiza o “Fazenda & Aprendendo” - de cunho educacional e contato com a natureza - junto às escolas da rede pública municipal e estadual. Recebe a média de 40 alunos (de um a 14 anos) todas as quartas-feiras, o que perfaz o número de duas mil crianças/ano. Ao final de cada exercício, Junior Warne, responsável pela Fazendinha Toriba, marca uma reunião de balanço para mostrar aos órgãos de educação do município o trabalho realizado, que emprega guias e educadores na tarefa de complementar a formação dos pequenos.


Marcus Nunes, diretor de Vendas de Marketing do Holiday Inn Parque Anhembi, da IHG, em São Paulo, lembra que a determinação em preparar jovens para o mercado de trabalho no hotel se afina ao que pratica o IHG Academy - programa que globalmente caminha em paralelo com o Youth Career Initiative (YCI) -, que capacita jovens para o mercado hoteleiro e de trabalho, possibilitando o desenvolvimento da carreira profissional. “Atualmente mantemos no programa 14 menores aprendizes e sete estagiários, que aprendem uma profissão em diversos departamentos”, salienta. Só este ano, o hotel paulistano já se engajou em mais três ações de responsabilidade social: recolhimento de anéis de alumínio e de plástico para o grupo Eco Patas, que se dedica à castração gratuita de animais em situação de rua; visita guiada ao mirante localizado no alto dos 14 andares do hotel com grupo de surdos; e incentivo à leitura com crianças.


O chamado social com foco no público infantil também foi forte fonte de inspiração para os proprietários do Sol y Luna, localizado no Valle Sagrado dos Incas, no Peru. Tocado pelo casal Marie Helene Miribel e Franz Schiller, respectivamente de origens francesa e suíça, o projeto de escola intercultural homônima ao hotel abriga 192 crianças, entre as quais algumas com necessidades especiais. Marie Helene conta que o inconformismo e o desejo de fazer algo pelos pequeninos foi o que permitiu a ideia de contribuir com a educação no Povoado de Urubamba, no ano 2000.


Veja a matéria na página 12 da edição 409


 


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