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Edição 407

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Um toque de cor

Ambientes da rede Firmdale unem móveis clássicos com estampas coloridas

Pequenos detalhes coloridos são aliados para provocar diferentes sensações nos hóspedes 


Ver o mundo em preto e branco certamente não é tão atrativo quando apreciar todas as cores disponíveis nos objetos e na natureza. Historicamente, o primeiro a estudar o assunto foi o físico e matemático inglês Isaac Newton. Em 1666, por meio de uma experiência simples, ele descobriu que uma luz branca (raio de sol) ao passar por um prisma de vidro é separada em diversas cores. Essas, por sua vez, quando misturadas formam diferentes tonalidades.


Entretanto, foi o cientista alemão Johann Wolfgang Von Goethe quem criou a Teoria das Cores, originalmente publicada em 1810, a qual confrontava os resultados de Newton. O estudo dizia que as cores não dependem apenas da luz, mas também da percepção que as pessoas têm do objeto. Por isso, o efeito das cores é universal, mas a identificação dos tons é subjetiva.


De acordo com Priscilla Bencke, arquiteta especialista em neuroarquitetura, quando a pessoa entra em um ambiente, a cor predominante penetra pelos olhos por meio de células receptoras e leva a informação para o cérebro. Este, por sua vez, puxa referências e cria emoções que vão influenciar no comportamento. “O indivíduo vai relacionar a cor dependendo das suas experiências”, diz a especialista, que afirma ser necessário o empreendimento levar em consideração as questões de cultura de seus hóspedes ao selecionar as cores de seus ambientes.


 


Geração Y dita as regras


Miriam Torres, consultora do Sopa de Letrinhas Marketing em Ação, diz que a utilização de tons fortes e alegres está sendo introduzida de forma gradual na hotelaria. “Esse tipo de decoração existe graças aos novos consumidores, nascidos entre 1980 e os anos 2000, os chamados Millennials”.


Para a arquiteta Ana Vidal, sócia-diretora da empresa Vidal & Sant’Anna Arquitetura, o uso de cores mais fortes e impactantes já é uma realidade no mercado hoteleiro do Brasil, mas ainda está muito associado a marcas econômicas e midscale. “No entanto, a busca por agradar e fidelizar um público, que vem se tornando gradativamente mais exigente, tem sido o grande desafio da hotelaria”, explica.


A profissional conta que a inovação é atualmente o principal fator de competitividade diante da concorrência. “Sem novidade é impossível manter-se vivo. Acompanhando essa necessidade, as inovações estéticas e cromáticas ganham força no mercado hoteleiro por consolidarem a imagem das marcas e estabelecerem uma relação sensitiva e de identidade com os diversos tipos de hóspedes”, ensina.


Segundo a arquiteta, a busca por uma abordagem estética disruptiva vem sendo o objetivo principal de seus projetos, que prezam por ambientes espaçosos e provocativos, que têm como propósito causar sensações nos usuários e marcar a experiência de forma positiva para sempre na memória. “A decoração e o mobiliário utilizados nesses espaços tornam-se elementos fundamentais para essa proposta”, explica Ana.


A designer de interiores Melina Romano, diretora criativa da Melina Romano Interiores, que ostenta entre seus clientes o descolado Yoo2 Rio de Janeiro (RJ), afirma que a hotelaria anda a passos lentos quando o assunto é cor. “Ainda existe um forte conservadorismo vindo dos hotéis tradicionais. Porém, o mercado está em transição e será inevitável essa mudança. As novas gerações estão ocupando um pedaço importante do mercado, e exigem maior dinamismo e diferenciação”.


Miriam Torres concorda com a avaliação de Melina e diz que poucos hoteleiros entendem que hoje em dia a decoração é fruto também da moda e precisa ser renovada constantemente. “Lembro que quando fiz a pós-graduação em Administração Hoteleira no Senac, 20 anos atrás, os professores recomendavam um retrofit de decoração no máximo a cada 10 anos. E isso, infelizmente, não ocorre no mercado nacional, com exceção de alguns produtos de luxo e midscale de grandes redes internacionais”, afirma.


Para a consultora, os empresários daqui preferem ter um “hotel para todos”, com decoração básica que agrada todo mundo, mas que não se diferencia de seus concorrentes em quase nada. “E nisso, quando falamos de cores, se enquadram o bege, o marrom e o branco, que não possuem tanta personalidade”.


Hotel Pantone investe nas cores em cada detalhe 


Use, mas não abuse


A linha que separa o bom gosto e a criatividade do exagero é tênue. Para quem é ligado em redes sociais (e em mostrar para os seguidores tudo o que faz) no Havaí (EUA) há um hotel projetado para ser o mais “instagramável do mundo”. O Shoreline Hotel Waikiki foi concebido pelo estúdio de design norte americano BHDM, que não poupou pigmento em nenhum cantinho do empreendimento de 135 quartos. 


“Nosso objetivo [com as cores fortes] era caminhar na linha entre o sofisticado e o lúdico”, afirma Dan Mazzarini, proprietário do estúdio. “As férias devem ser divertidas e despreocupadas, por isso, apesar de todas as necessidades dos hóspedes serem atendidas pela equipe da propriedade, queremos enfatizar a sensação de garantir que sua viagem seja divertida”.


Outro empreendimento internacional que leva a cor a sério é o Pantone Hotel, localizado na cidade de Bruxelas, na Bélgica. E não poderia ser diferente. O meio de hospedagem faz parte do grupo Pantone, que deu nome ao famoso sistema de cores utilizado pela indústria gráfica. Além do hotel, a companhia também empresta suas cores aos mais diversos itens de design e decoração, utensílios de cozinha, roupas de cama, móveis e bicicletas.


Voltando para o mundo da hotelaria real, sair do branco e do bege para cores mais vivas e ativas precisa ser um pouco mais gradual. Miriam Torres diz que exagero ou parcimônia são termos muito difíceis de medir e passam pelo juízo do gosto pessoal. “Minha sugestão é começar com pequenos objetos de decoração, mobiliário ou utensílios, como louças”.Estes últimos itens, assim como tecidos, papéis de parede, uniformes, almofadas, colchas, cortinas, luminárias, entre outros artigos coloridos, estiveram em destaque na edição 2018 da Equiphotel Paris, na França; e da Sleep+Eat, na Inglaterra, importantes feiras de hospitalidade que a equipe da revista hotelnews conferiu pessoalmente.


“Esses eventos internacionais ditam a tendência do setor para os próximos anos. Durante nossa visita, pudemos observar que as empresas de decoração estão incluindo mais cores em seus produtos - de tecidos, tapetes e papel de parede às luminárias. Mas esta tendência também está forte nos utensílios de mesa. São detalhes que realmente fazem a diferença”, diz Alessandra Leite, diretora da hotelnews.


Para não errar, Priscilla Bencke enfatiza que o projeto pode ser dividido de acordo com o objetivo de cada ambiente. “Para locais onde o intuito é relaxar, seria melhor optar por tons de azul. Já para ambientes onde há mais atividade, pode-se trabalhar com cores quentes, como amarelo e laranja”.


Melina Romano concorda. Para a designer de interiores é mais fácil ousar nas áreas comuns, mas a criatividade deve ser total e não apenas em móveis ou paredes. “O espaço para ser ousado e passar uma linguagem atual, tem que ser pensado dos pés à cabeça, em cada detalhe, desde o chão até os objetos”.


À esquerda, o hall do andar Balneário do Kembali (PE); à direita um quarto do andar retrô


Por estar diretamente relacionado à experiência do cliente, o design é um dos pilares de desenvolvimento da AccorHotels. “Investimos muito no visual de todas as nossas marcas, para todos os nossos públicos. A cor, neste processo, é um elemento fundamental, mas não é o único. A escolha de materiais, a análise das tendências de moda e de decoração, os revestimentos, o design e a identidade visual são alguns dos elementos que estudamos e empregamos em nossos hotéis”, explica Paulo Mancio, vice-presidente sênior de Design e Implantação AccorHotels América do Sul.


Uma das bandeiras que se destaca nesse setor é a ibis Styles, que utiliza muitos elementos coloridos e explora a criatividade em seus ambientes, como o ibis Styles Faria Lima (SP), que tem a arte urbana como tema; ou o ibis
Styles Campina Grande (PB), que explora a temática do forró. “As cores podem ser incorporadas em todos os objetos e ambientes, depende da intenção de cada projeto. Um Adagio Aparthotel, por exemplo, pode ter em seus apartamentos talheres e luminárias arrojados, ao mesmo tempo que um Sofitel requer uma decoração com tons mais sóbrios e as cores são aplicadas em elementos pontuais, como almofadas”, exemplifica.


No Le Jardins de Rio, localizado em Cosme Velho (RJ), as cores que compõem os ambientes, desde o lobby até os quartos, foram escolhidas criteriosamente. Com apenas oito suítes, cada uma tematizada com uma cor diferente, o empreendimento é de propriedade de uma “artista plástica de verdade”, como gosta de ser reconhecida Dany Ballin. “Tenho peças espalhadas por todos os ambientes e a minha inspiração vem da simbologia do universo”, afirma a artista.


Les Jardins de Rio (RJ) conta com oito suítes                          Lobby do Novotel Botafogo


Com 63 quartos e voltado ao público adulto (maiores de 18), o Kembali, em Porto de Galinhas (PE), é um hotel de praia com conceito design criativo e alegre. Toda a sua decoração foi pensada para passar essa ideia. Os quartos, por exemplo, possuem quatro temas: Bali, com detalhes em cores fortes, como o vermelho vibrante das peseiras e saias das camas da categoria Smart; Balneário, com elementos náuticos modernos, fazendo uso de diversas formas geométricas e cores frias, como o verde-claro e o azul; Música, cujo projeto contemplou ícones e imagens de instrumentos, com predominância das cores preta e branca em objetos, móveis e estampas; e Retrô, com desenhos geométricos ou de flores nas paredes e cores vibrantes nas almofadas e peseiras. 


Nas áreas comuns também foram empregadas cores em detalhes, como azul e laranja para as espreguiçadeiras da piscina; amarelo, vermelho e laranja nas cadeiras do restaurante; na parede atrás da recepção há desenhos geométricos pintados nessas cores; pratos e ramequins onde são servidas as refeições também possuem formas geométricas e muitas cores. “Primamos sempre pelo bom gosto e as cores foram escolhidas a dedo. Essa é uma tendência, faz parte de um novo conceito na hotelaria”, diz Valéria Gordilho, gerente comercial do grupo Armação, da qual o Kembali faz parte.


Hotéis corporativos


Com a ideia de que os empreendimentos voltados a executivos devam ser mais sóbrios, muitos empresários ainda apostam no bege e branco em todos os seus ambientes, mas, as especialistas de design e arquitetura consultadas afirmam que as cores também podem ser empregadas nesses tipos de hotéis, desde que usadas com mais parcimônia. “O importante é cuidar dos excessos. Tudo o que é demais para o cérebro é cansativo, sejam muitas cores juntas ou muito de uma só cor no ambiente. O branco, por exemplo, se colocado em excesso pode causar a sensação de confusão mental”, explica Priscilla Bencke.


Para Melina Romano não existem regras. Hotéis executivos devem ser funcionais, mas não podem ser chatos, por isso a cor também é aliada. “Tudo depende do contexto e da história que você vai contar no ambiente. A inspiração e a paleta de cores são bem-vindas para todos”.


Ana Vidal concorda e diz que hotéis executivos são sim espaços, em geral, mais sóbrios, mas a nova tendência é que os ambientes sociais sejam projetados para estimular o convívio e networking. “Assim, os empreendimentos precisam de locais desenhados com soluções mais dinâmicas e provocativas”, afirma a arquiteta, que cita como exemplo o Novotel Botafogo (RJ).


Implantado em 2017, o projeto teve como principais desafios estabelecer uma nova linguagem para a marca; romper com a estética tradicional e proporcionar ao hóspede uma experiência inesquecível de ambientação. “Cada peça de mobiliário, imagem, efeito de iluminação, tapetes, cores e revestimentos foram pensados em um conceito estético único: obter um conjunto diferenciado, provocativo e repleto de experiências”, explica.


A recepção rosa do Shoreline Hotel Waikiki                            Restaurante do ibis Styles São Paulo Anhembi Hotel


Bom, bonito e barato


Para aqueles que gostariam de mudar o visual, mas não podem dispor de muita verba para grandes transformações, as profissionais dão dicas:


Miriam Torres: “o hotel pode optar por quadros coloridos que podem ser adquiridos em feiras urbanas ou shoppings e que transmitem leveza e alegria ao ambiente sem pesar no orçamento. Capas de almofadas são interessantes e possuem custo baixo, assim como vasos em vidro ou louças que podem apoiar a composição de um ambiente”.


Ana Vidal: “detalhes de mobiliário, painéis temáticos, paredes com cores e revestimentos que deem destaque e virem pontos focais de referência são soluções de custo acessível que costumam resultar em ótimas soluções”.


Melina Romano: “tecidos novos mudam qualquer ambiente. Uma boa iluminação confortável também auxilia para ter um ambiente mais aconchegante”.


Veja a matéria na página 16 da edição 407


 

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