hotelnews

busca

Edição 406

matéria de capa

Hotelaria contra o plástico

Graves consequências ambientais fazem o setor repensar suas práticas e seus modelos de negócios


Por Shoichi Iwashita 


Os números são estratosféricos. A estimativa é que qualquer objeto plástico demore, aproximadamente, 450 anos para se decompor, mas existe a informação de que ele vai apenas se quebrando e nunca se desintegra totalmente. Imagine que as escovas de dentes, pentes e objetos usados por nossos avós nos anos 1960 estejam intactos até hoje, em algum lugar do planeta. E justamente por isso, o plástico, esta invenção produzida a partir do petróleo e que transformou nossas vidas deixando-as mais práticas, seguras e higiênicas, se tornou um grande problema ambiental, uma vez que o custo de produção é muito baixo e o da reciclagem, nem tanto. 


O fato da reciclagem beneficiar apenas o planeta e não o bolso das empresas talvez explique o problema, pois é mais barato e dá menos trabalho seguir fabricando o plástico do zero, vendendo, usando e descartando-o. Segundo o estudo publicado em 2007 por Roland Geyer, da Universidade da Califórnia, no periódico Science Advances: dos 8,3 bilhões de toneladas de plástico produzido desde os anos 1950 (quando do advento de sua utilização industrial), 6,3 bilhões viraram resíduos, 12% foram incinerado e apenas 9% reciclado.


Qual é o destino de grande parte desse lixo? Os aterros, os oceanos - cuja salinidade impede a proliferação de bactérias que decompõem o plástico - e o estômago de aves e animais marítimos. As informações, segundo dados do relatório de tendências Euromonitor International, tampouco são confortáveis: a produção de plástico no mundo vem dobrando a cada 15 anos. Em 2016 foram fabricadas 480 bilhões de garrafinhas de plástico e apenas 7% foram transformadas em novas garrafas. Até 2050 serão 12 bilhões de toneladas de lixo plástico, fazendo com que haja mais desse material em peso do que peixes nos mares, de acordo com pesquisa da Ellen MacArthur Foundation.


Mas, foi o vídeo de um biólogo retirando um canudo plástico da narina ensanguentada de uma tartaruga do mar que iniciou um movimento de reflexão sobre o efeito dos plásticos de uso único (da expressão em inglês single use plastic), principalmente dos canudos, no meio ambiente. Por serem pequenos, esses produtos não são recicláveis, e nunca se decompõem integralmente; ou seja, jogá-los no lixo adequado não faz a menor diferença. 


O plástico descartável (de cotonetes a potes de iogurte, passando por copos, embalagens de delivery, tampas e garrafas) é produzido em 30 segundos, usado por cinco minutos, e demora centenas de anos para se decompor, poluindo a terra, rios e oceanos. Além disso, mata animais silvestres que ingerem o material achando que é comida. Estudos também revelaram a presença de partículas minúsculas de plástico nos oceanos, o que torna a situação ainda mais alarmante.


Movimentos na hotelaria


Amenities no The Brando ficam em embalagens de cerâmica


No universo hoteleiro, a conscientização dos clientes a respeito do tema e a existência de empreendimentos independentes - que já nasceram genuinamente preocupados com a sustentabilidade e que acabam ganhando notoriedade por isso - deu início a um processo de comprometimento  de grandes redes de hotéis do mundo para a questão; o que vem forçando a indústria a repensar suas práticas e seus modelos de negócios. 


As mudanças podem ser mais fáceis para meios de hospedagem independentes e pequenas redes, e mais desafiadoras para os grandes grupos hoteleiros que, em sua maioria, apenas administram propriedades e precisam da aprovação dos investidores, fazendo com que algumas medidas sejam adotadas com mais lentidão. 


De qualquer forma, se faz necessário o investimento no treinamento dos colaboradores para que eles utilizem menos plásticos e também saibam informar corretamente aos hóspedes o motivo, por exemplo, do empreendimento não disponibilizar mais canudos desse material, além do esforço na comunicação para criar campanhas de conscientização. É importante que o discurso de marketing esteja alinhado com a prática do empreendimento.


A Oetker Collection, que conta com dez hotéis icônicos no mundo, já baniu canudos, utensílios e embalagens plásticas em todas as suas propriedades. As redes Four Seasons Hotels & Resorts, The Peninsula Hotels, Hyatt Hotels Corporation, Marriott International, Hilton Hotels & Resorts e Meliá Hotels International, que somam mais de oito mil hotéis, se comprometeram a acabar com o uso do canudo e de garrafinhas plásticas de água nos espaços de eventos de todas as suas propriedades até, no máximo, meados de 2019. 


A Intercontinental Hotels Group, com mais de cinco mil endereços em 100 países, também entrou neste movimento e baniu os canudos de plástico de quase todos os seus hotéis da Europa, Oriente Médio, Ásia e África e vai retirar o material de todas as suas propriedades até o final de 2019, economizando para a natureza 50 milhões de canudos plásticos anualmente. 


Sexta maior cadeia de hotéis no mundo, que tem um portfólio com mais de quatro mil e trezentos hotéis, resorts e residências distribuídos em 100 países, a AccorHotels também iniciou um processo de redução de canudos de plástico em todas as suas mais de 350 operações na América do Sul. “Todas as bebidas passaram a ser servidas sem canudos e só em caso de insistência é oferecido um modelo feito com papel. Alguns hotéis optaram por comprar canudos de metal, que também são disponibilizados para venda”, conta Antonietta Varlese, vice-presidente de Comunicação e Responsabilidade Social AccorHotels América do Sul.


“Por meio da nossa campanha ‘Canudo Pra Quê?’ e do treinamento dos colaboradores, que também precisam entender a importância da redução dos plásticos, já sentimos os resultados: em 2017 foram consumidos 54 milhões de canudos plásticos nos hotéis Accor na América do Sul, e nos últimos doze meses notamos a redução de 20 milhões de unidades”, complementa. 


Larissa Lopes, gerente de Desenvolvimento Sustentável AccorHotels América do Sul, reforça que também é desejo da rede abolir as garrafinhas plásticas de água, mas é uma mudança que levará mais tempo devido a questões de logística e armazenamento. “Já estamos rodando pilotos em alguns hotéis. O Mercure Jardins, em São Paulo, trocou a garrafa de plástico dos restaurantes e na área de eventos por uma jarra de vidro, que é abastecida por um equipamento que também fornece água com gás. No Novotel Jaraguá e no Novotel Rio de Janeiro Praia do Botafogo são utilizados bebedouros com galão de água nos eventos”, exemplifica.


Como substituir o plástico?


Será que é possível diminuir e substituir itens de plástico descartável na operação de um hotel? Para que isto aconteça, Carolina Piccin, diretora da MateriaLab, afirma que o empreendimento deve adotar uma política e estipular metas de redução de plástico a curto, médio e longo prazos. Além disso, precisa verificar quais fornecedores estão alinhados com a nova proposta, sem a necessidade de mudar de imediato. “Primeiro se faz necessário entender as diferenças entre materiais duráveis, que podem ser utilizados durante um longo período; os reutilizáveis, que podem ser usados em outra função; os recicláveis, que vão se transformar em um outro produto com a mesma matéria-prima; e os compostáveis, transformação de produtos (naturais e fibrosos) que podem ser colocados novamente na terra”, conta Carolina.


“Para fazer a substituição do plástico, é preciso avaliar a função do produto. Só faz sentido trocar o plástico por matérias-primas duráveis, mas se for descartável, podemos pensar num material compostável e reciclável. O hotel tem que ser preocupar com a forma do descarte, caso contrário o ciclo não fecha”, completa.



Bons exemplos


A maioria dos hotéis ainda segue a tradição de disponibilizar os amenities em embalagens plásticas, tamanho mini, que são repostos diariamente - aquelas que os hóspedes, mesmo os que possuem consciência ambiental, gostam de levar para casa. Entretanto, já existem empreendimentos que adotam práticas mais ecológicas e que nasceram com este propósito.


Entre os hotéis mais exclusivos do mundo, o The Brando, na Polinésia Francesa, é o que mais impressiona na proximidade entre o discurso e a prática. Além da agricultura orgânica, do uso de energia solar, da compostagem e reciclagem de todo o lixo gerado pelo hotel, há um projeto pioneiro de sistema de ar condicionado que capta a água do mar a dois mil metros de profundidade (a quatro graus Celsius) e distribui por um sistema de tubos subterrâneos que resfria todos os ambientes e villas do hotel, economizando mais de 90% em energia elétrica, não se vê plásticos em toda a propriedade. 


Nas villas, as garrafas plásticas dão lugar às de vidro, que são abastecidas diariamente com água filtrada pela equipe do hotel. Além disso, são deixadas duas unidades de alumínio para que os hóspedes levem consigo e possam abastecer nos muitos bebedouros espalhados por todo o resort. O lixo do quarto é separado por cores para que os clientes joguem o plástico no saco certo para a reciclagem; os chinelos não são embalados em plásticos e o saco para a lavanderia é de tecido. Nos banheiros, os produtos de banho (xampu, condicionador, sabonete líquido e creme hidratante) ficam acondicionados em recipientes grandes e não descartáveis.Em Trancoso, na Bahia, o hotel Uxua não destruiu mata nativa na sua concepção e aproveitou as casas de antigos moradores do Quadrado, que haviam sido compradas por estrangeiros ou transformadas em lojas. Na reforma, o empreendimento utilizou mão obra e matérias-primas locais. 


Além do trabalho social em conjunto com uma ONG do vilarejo e de financiar estudo superior para os funcionários (já são três formados e nove cursando faculdade atualmente), no Uxua nunca existiu canudo, os amenities ficam em grandes recipientes de cerâmica, o lixo dos banheiros é revestido com sacos de papel. As garrafinhas de água de plástico disponíveis nos quartos são enviadas para reciclagem, mas elas ficam escondidas em uma embalagem de vidro com tampa de palha. “Não queremos fazer um ‘teatro’, ainda inviável, de banir 100% dos plásticos no hotel, até porque a redução do material deveria ser apenas o começo de um comprometimento abrangente com a sustentabilidade; e esse é apenas um dos aspectos do etos do ser sustentável”, afirma Wilbert Das, o proprietário e idealizador do Uxua.


A 1 Hotels - pequena rede que tem como missão construir hotéis social e ambientalmente responsáveis - é um excelente exemplo de que é possível sim um hotel praticamente não utilizar plásticos em sua operação. Atualmente, a rede tem três propriedades nos Estados Unidos - uma em Miami (South Beach) e duas em Nova York (Central Park e Brooklyn Bridge).



Por exemplo, os cartões magnéticos de plástico utilizados para abrir as portas dos quartos foram substituídos por cartões de madeira reciclada. Nas acomodações, um filtro de água potável está à disposição dos hóspedes, os cotonetes têm hastes de madeira, os cabides são de papelão, as amenidades estão em embalagens grandes de plástico não descartável e que são reutilizáveis. Outro item que chama atenção é a meia antiderrapante no lugar dos chinelinhos, que normalmente têm o seu solado de plástico e são descartados quando o cliente não leva para casa. 


Reforçando o seu comprometimento com o meio ambiente, os hóspedes são encorajados a tomar banho de apenas cinco minutos - uma ampulheta no box pode ser usada para controlar o tempo.


hotelnews

privacidade e segurança Copyright 2000/2014 KRM Edições e Comércio Ltda
Site mantido por Lutimo | Studio

Instagram

Facebook