hotelnews

busca

Edição 405

matéria de capa

Pós-graduação: vale o investimento?

Cursos de curta duração ganham espaço no mercado de trabalho como opção para aprimorar conhecimentos


Em um mundo baseado nas novas economias, onde todos andam de Uber, utilizam-se do Airbnb e pedem iFood para o jantar, é inviável pensar que as empresas ofereçam sempre as mesmas soluções. Dentro deste cenário de novidades tecnológicas e mudanças, os profissionais, bem como as organizações, precisam constantemente buscar atualização se desejarem um espaço significativo no mercado de trabalho. Para obter destaque na carreira, ter uma graduação no currículo, por si só, já não é mais suficiente. Com a finalidade de investir em conhecimento, o profissional pode recorrer a cursos curtos e direcionados para assuntos específicos, ou especializações mais aprofundadas.


Não só no País, como no mundo, cresce a cada dia a oferta de cursos de curta duração voltados para gestão, negócios, criatividade e inovação. Muitos são, inclusive, realizados on-line, em plataformas voltadas para e-learning (modalidade de ensino à distância por meio de mídia on-line). Há, também, um aumento no leque de opções entre universidades que oferecem pós-graduação Lato Sensu (especializações) e MBA - em inglês, Master Business Administration -, um modelo difundido inicialmente nos Estados Unidos, voltado para o aprimoramento em uma área específica no mercado de trabalho. O MBA também é indicado para profissionais com pelo menos três anos de experiência confirmada na profissão de estudo. Porém, será que este incremento significa desenvolvimento na qualidade dos cursos?


Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora de Turismo da Universidade de São Paulo (USP), explica que existe mundialmente uma leitura sobre a queda generalizada na qualidade do ensino superior. “Diversos textos acadêmicos indicam que a graduação é o novo ensino médio, e que a pós substitui a faculdade. De certa forma, a expansão generalizada de especializações faz com que muitas não sejam de excelência, ou profundas e direcionadas o suficiente, como muita gente acredita”, diz.


No Brasil, o setor de hospitalidade deixa a desejar quando o assunto é a educação. As áreas de Turismo, Hotelaria, Eventos e Gastronomia têm 50 anos como ensino superior, e apenas cerca de 30 anos como pós. “Os cursos de turismo são frágeis, especialmente nos dias de hoje. O aluno sai com quase nenhuma formação de base financeira, e sem muita dimensão estratégica e de negócios”, afirma Mariana.


Pós e MBA


As instituições norte-americanas, criaram cursos de MBA, que são aprofundados em estratégia, gestão de negócios e análise econômica, para trazer ex-alunos pagantes de volta para a academia, atualizando conhecimentos, e compartilhando com a instituição. “É interessante ter em conta que a pós é um mecanismo que a faculdade possui de se oxigenar trazendo pessoas que estão no mercado para discutir temas atuais”, pontua Mariana.


Segundo a docente, em qualquer área de atuação, não é interessante para o aluno a realização de um curso de pós ou MBA exatamente na mesma área de formação. Carlos Bernando, gerente de Operações Midscale da AccorHotels na América do Sul, mestre em Hospitalidade e docente na Universidade Anhembi Morumbi, acrescenta: “Não seria um complemento, e sim um endosso do que foi estudado na graduação”, conclui. “Mas, se o profissional tiver um curso de complementaridade, como uma pós em Eventos, pode ser interessante para o currículo e gerar mais rapidez na projeção profissional”, finaliza.


No setor, ele destaca as especializações em Gastronomia e em Alimentos & Bebidas, assuntos mais complexos e não muito aprofundados nos cursos de Turismo e Hotelaria. Porém, como expõe a consultora e especialista em hospitalidade Aline Silva, geralmente a valorização do profissional do setor que faz um MBA está apenas nos níveis gerenciais. “Se você ainda está na área de supervisão ou numa função operacional, o MBA ou a pós dentro da hotelaria brasileira não é apreciado. O que eu vejo bastante são recém-formados ou profissionais no início da carreira, acharem que uma especialização vai ajudá-los a subir de cargo. É necessário primeiro avaliar se há plano de carreira ou expectativa de promoção dentro do hotel. O estudo pode não ser uma garantia de aumento de salário”, adverte.


Bernardo reitera que, em redes, como é o caso da Accor, para os cargos de chefia a especialização é importante como uma forma de projeção na carreira; mas, o título não é necessário, como também enfatiza Aline, nas áreas operacionais.


Sobre o curso, é preciso ter cuidado no processo de escolha. “Muitos contratantes olham para a ‘grife’, ou seja: para o nome da instituição. Porém, o aluno precisa analisar o conteúdo oferecido e quem são os professores, para não pagar por uma formação que não vai ensinar nada novo, e que não irá acrescentar em nada na carreira, ou aumentar o salário ou abrir novas oportunidades’”, diz Mariana.


Vale a pena?


Para avaliar o custo de uma pós ou MBA, é preciso colocar muito além do curso em si na ponta do lápis. “A educação privada no Brasil é cara de qualquer ponto de vista. É preciso avaliar o quanto esse investimento feito representa em médio prazo. A oferta de vagas no setor é consistente, porém a remuneração é baixa. A pessoa leva muito tempo para ter o retorno do investimento, para um acréscimo de salário de, no máximo, 10%”, afirma Mariana.


O MBA em Hotel Business Administration do Senac, por exemplo, custa cerca de R$ 34 mil. “É preciso calcular o total do investimento, que inclui a gasolina ou seu transporte até o local, a alimentação e outros possíveis gastos. No final, os 34 mil podem virar 40”, exemplifica Aline. Para ela, investir um terço desse valor em um intensivo fora do Brasil é mais vantajoso, pois o profissional fará contatos com outras pessoas. “Eu defendo uma diversificação do investimento para aperfeiçoar a carreira. Por exemplo: se você tem os R$ 40 mil, invista em cursos intensivos de uma semana; aprimore o inglês ou outra língua; participe de eventos para estreitar relacionamentos e buscar novas oportunidades, aproveitando para abrir a cabeça e refletir sobre tendências. Esse profissional vale muito mais do que o que ficou dois anos no hotel para pagar um MBA”.


Cursos de curta duração


Os cursos rápidos, realizados em semanas ou, no máximo, poucos meses, atingiram uma variedade enorme. No Brasil, as universidades oferecem opções, mas ainda muito vagas, e muitas pecam por qualidade.


Carlos Bernardo, da AccorHotels, destaca o Senac como referência brasileira em cursos de curta duração específicos para a área. Porém, o profissional acredita que faltam modalidades voltadas para a gestão.


A professora da USP alerta sobre a relação entre duração e profundidade de conteúdo; porém, defende a viabilidade da curta duração. “Você não aprende a falar inglês em um mês, mas também não precisa ser em oito anos; da mesma forma, não é possível, por exemplo, aprender Gestão Hoteleira em um mês, mas é possível fazer Gestão em Governança neste tempo”, exemplifica.


De acordo com Deyzi Weber, gerente de Recursos Humanos do InterCity Group (ICH), em situações específicas, cursos curtos podem aportar um diferencial. “Por outro lado, é sempre importante medir o nível de domínio do conhecimento e não admitir que há instalado apenas pela conclusão do curso”, alerta. “O que você vê no Brasil, são cursos menores focados em gestão, marketing digital e estratégias de maketing, mas nada específico dentro da área. Os cursos de curta duração voltados para hospitalidade são mais técnicos e operacionais. Falta a parte estratégica, muito presente nos Estados Unidos e na Europa. As Universidades que oferecem esses cursos de hospitalidade têm muitos summer curses, que acontecem no verão. Aqui no Brasil, as instituições acabam oferecendo opções realizadas nos finais de semana ou à noite, que têm duração mais prolongada, e sem o mesmo apelo ou peso no currículo como os oferecidos na Cornell University, por exemplo”, explica Aline Silva.


Deyzi acredita que, entre pós e cursos de curta duração, ambos têm sua importância e podem contribuir na carreira. Porém, o mais importante é a forma que cada um entrega o que oferta. “O conhecimento somente tem valor se aplicado. E as empresas valorizam os protagonistas: quem faz, quem entrega, quem resolve e quem tem atitude. Ambas experiências podem ser ricas, desde que aliadas a um comportamento realizador e alinhado com as estratégias da empresa”, defende.
 
E fora do Brasil?


As universidades estrangeiras estão à nossa frente, segundo a especialista em hospitalidade. EUA e Europa são dois polos de referência mundial. Despertam, portanto, o interesse de estudantes do mundo inteiro. As pessoas optam por esses dois pontos estratégicos de aperfeiçoamento, pois terão convivência com estudantes do mundo inteiro e, também, porque agrega ao currículo.


Aline, que reside na Espanha, fez uma breve pesquisa com instituições europeias como Université de Lausanne e La Roche College. “Entrei em contato e todas me responderam rapidamente, via WhatsApp. O atendimento é personalizado (as universidades tentam entender suas preferências e se o curso se encaixa nelas). Aqui o processo de seleção é muito mais criterioso”, conta.


Atitude é o que conta de fato


Tricia Neves, sócia-diretora da Mapie Consultoria, defende que as contratações no segmento hoteleiro, principalmente no caso dos cargos operacionais, acontecem baseadas em alguns critérios, sendo eles: atitudes e comportamentos, crenças e valores, gosto por servir e a habilidade de comunicação e relacionamento com pessoas. “A junção destes fatores sempre foi mais importante do que diploma, conhecimento e experiência na hotelaria. Quando trazemos pessoas que tem a atitude certa e o gosto por servir, e que acreditam na maneira do serviço e em como a empresa faz, é mais fácil você ensinar o idioma, o conhecimento de um determinado sistema ou mesmo os próprios processos e procedimentos operacionais. O contrário não é verdadeiro. É muito difícil ensinar atitudes e o gosto por servir. Isso costuma nascer com a gente. É até possível desenvolver na personalidade, mas com bastante tempo”, ressalta Trícia.


Com a chegada dos Millenials, algo mudou no mercado de trabalho: o tempo de permanência nas empresas. Como a geração tem tempo de vida mais curto nas companhias, não há mais tempo para desenvolver um colaborador. “Se as gerações anteriores ficavam até 30 anos trabalhando no mesmo lugar, isso não acontece mais. Nós não celebramos mais o tempo de casa mais, e sim as realizações e os projetos desenvolvidos”, diz.


A diretora da Mapie explica que, com alto índice de rotatividade, é preciso acelerar o período de adaptação do mesmo. “Por isso há a busca do alinhamento de propósito do funcionário com a empresa; economiza-se em treinamentos muito elaborados. Os conhecimentos ganham valor na análise de um novo candidato, mas continuam sendo secundários. Nunca são mais importantes do que as atitudes”, finaliza.


hotelnews

privacidade e segurança Copyright 2000/2014 KRM Edições e Comércio Ltda
Site mantido por Lutimo | Studio

Instagram

Facebook