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Edição 383

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Energia a todo custo

Por que os hotéis devem estar atentos à questão elétrica no país


A falta de chuvas que atinge o Brasil desde o ano passado já causa sérias consequências pelo território nacional. Somente no sistema Cantareira, que abastece 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo, o reservatório chegou ao índice mais baixo da história, registrando uma sequência de mais de cem dias de queda no seu nível. Apesar de o governo recorrer ao volume morto - água que fica no fundo das represas e que exige o uso de bombas para ser captada -, alguns municípios do interior paulista passam por desabastecimento. No Mato Grosso do Sul, piscicultores estão perdendo o emprego por conta dos prejuízos na produção, e em Minas Gerais a principal nascente do rio São Francisco está seca.


Por sermos um país que tem nas hidrelétricas sua principal fonte de energia, o setor elétrico também começa a ser afetado com a estiagem prolongada. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), no final de outubro os reservatórios das usinas operavam com 20,93% de sua capacidade máxima, atingindo o nível mais baixo desde 2001, quando houve racionamento. Conforme explicação de Guilherme Lages, professor doutor no Departamento de Engenharia Elétrica na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apesar da capacidade de geração de energia ter aumentado de lá para cá, a intensa redução das chuvas não era um fator esperado pelos especialistas.


“Mesmo que nos últimos cinco anos tenha havido uma redução de chuvas no período de novembro a março, esta seca rigorosa pegou todo mundo de surpresa. O que mudou é que na época do racionamento a diferença entre a demanda máxima e a média era menor, e por isso permitia maior repasse de transmissão de energia entre as regiões”, detalha Lages.


O professor afirma que desde o período que ficou conhecido como apagão, em 2001, foram construídas usinas termelétricas para suprir a oferta que as hidrelétricas não conseguiam dar conta. Porém, o custo envolvido nesse tipo de energia é mais caro e o repasse dessa elevação nos valores deve chegar ao bolso do consumidor já no ano que vem. “As termelétricas foram acionadas, o custo de geração é maior, mas o reajuste das tarifas foi adiado. O ressarcimento das geradoras de energia já foi autorizado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), e a previsão é que a partir de março haja alta de ao menos 20% nas contas, variando conforme cada concessionária”, explica Lages.


Para Alexei Macorin Vivan, diretor-presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE) e advogado especializado em energia, o fator natural é o principal agente neste cenário atual, mas algumas medidas contribuiriam para atenuar uma possível crise.


“Precisamos ter mais usinas com reservatórios. Por questões ambientais as novas hidrelétricas são todas a fio d’água, ou seja, não mantêm estoque de água que poderia ser acumulado em uma barragem. A médio e longo prazo é importante investir em novos tipos de energia, como eólica e solar, para evitar essa dependência das hidrelétricas. Mas como a população aumentou e a geração não cresceu na mesma proporção, o ideal é estimular o uso racional da energia”, destaca Vivan.


Para o advogado, estamos passando por um momento bastante complicado e é possível que haja políticas para a redução do consumo. “Resta-nos torcer por chuvas intensas durante o período úmido, a partir de novembro, para que os níveis dos reservatórios possam se recuperar”, diz.


O setor hoteleiro


Analisando a tendência futura de aumento substancial do preço da energia elétrica, a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) iniciou há dois anos ações do Programa de Eficiência Energética. De acordo com números da entidade, o setor desembolsa 15% da planilha com essas despesas, ficando atrás apenas de custos de mão de obra, que representam de 20% a 25% dos gastos totais.


“Um dos fatores que mais influenciaram a criação do programa é a importância que projetos de eficiência energética têm no cenário de energia elétrica nacional, pois diminuem o custo com esse importante insumo, implantando o seu uso inteligente nas instalações, tornando-as mais competitivas em seu segmento”, afirma o consultor em energia da FBHA, Ricardo Bezamat.


Segundo o especialista, o plano traçado pela entidade está baseado em três pilares: eliminar os desperdícios – análise das instalações; pagar menos pela energia consumida – estudo do suprimento; e consumir menos energia – ações de eficiência energética. Algumas medidas são sugeridas pela federação para atingir esta redução, entre as quais a climatização eficiente, com a instalação de películas de controle solar e de sistemas de ar condicionado econômicos, a captação e utilização de águas pluviais, e o aquecimento por energia solar.


As estimativas da organização projetam obtenção de 30% de economia por projeto implantado. “Essas ações massificadas representariam R$ 266 milhões de corte de gastos no setor. Com certeza os hoteleiros deveriam se mobilizar por uma política energética mais eficiente. Não bastasse a energia elétrica ser um dos maiores custos de um hotel, essa situação se agravará com as altas tarifas que certamente serão praticadas por todas as concessionárias de energia elétrica do país a partir de 2015”, acredita Bezamat.  


Exemplos eficientes


Previsto para iniciar as operações em 2015, o Arena Ipanema Hotel já obteve a certificação de eficiência energética PBE Edifica, que atesta a construção de um prédio verde e inteligente. O selo foi desenvolvido em parceria entre o Inmetro e a Eletrobras/Procel Edifica, e comprova a adoção de medidas que resultam em uma economia de energia elétrica de 30% a 50%.


“Um hotel verde traz inúmeras vantagens para os hóspedes, pois torna os ambientes mais saudáveis e confortáveis, com uma climatização mais eficiente, iluminação adequada e econômica, além de contribuir para a redução de impactos ambientais”, enaltece José Domingo Bouzon, diretor Operacional da Rede Arena.


Outro empreendimento que atrelou a conservação do meio ambiente com a economia de recursos foi o Verdegreen Hotel, localizado na cidade de João Pessoa, na Paraíba. A administração revela que a concepção do projeto foi pensada para criar um negócio sustentável, refletida na estrutura, no nome e no planejamento de ações da unidade.


Somente no setor elétrico, a unidade trabalha com metas de reduções anuais. Em 2013, o objetivo era reduzir em 5% o consumo de energia de todo o hotel, mas o resultado alcançado foi de 5,85%. Para este ano, o meio de hospedagem estima números mais modestos, na casa dos 2%. Mesmo assim, até o final de setembro o local já havia alcançado 3% de diminuição nos gastos. “Contamos como os sensores de presença para a iluminação nas áreas comuns que poupam quase 60% de energia, temos placas solares para o aquecimento de água que atendem a 80% da necessidade do hotel, além da claraboia do prédio que permite o aproveitamento de 70% de iluminação natural no lobby e nas áreas comuns”, declara Camilo Juliani, gerente do meio de hospedagem.


Já no interior de São Paulo, precisamente na cidade de Ibiúna, o Hotel Fazenda Spaventura foi reconhecido em agosto deste ano com o selo Selo Solar, conferido pelo Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas da América Latina (Ideal), pela construção da própria usina de energia solar fotovoltaica. Instalado desde fevereiro, o sistema tem gerado cerca de cinco mil KWh/mês, o que representa uma economia mensal de R$ 1,8 mil.


A usina possui 160 placas e teve investimento superior a R$ 500 mil. “O principal impacto é, sem dúvida, ambiental. Com a usina fotovoltaica estamos lançando na rede energia limpa. Isto significa redução da demanda que normalmente exige o uso de fontes hidrelétricas localizadas a grandes distâncias”, explica Patricia Haberkorn, diretora-executiva da unidade.


Hewerton Elias Martins, empresário do setor fotovoltaico, explica que esse sistema é composto por painéis de silício, que captam a luz solar e transformam em energia elétrica. Quando o consumo é inferior à produção, o excedente pode ser lançado na rede elétrica, gerando um crédito de energia que é abatido nas próximas contas de luz.


“A instalação do sistema completo para uma casa de quatro pessoas de classe média, com consumo aproximado de 300 kWh/mês, tem valor estimado em R$ 22 mil. O tempo de retorno varia de acordo com a tarifa de cada região, mas estima-se que seja de oito a 12 anos”, detalha Martins.


Hotelaria engajada


Em março de 2007, a organização não governamental WWF iniciou o movimento global Hora do Planeta, no qual diversas comunidades desligam as luzes durante uma hora, em busca da mobilização a favor de um mundo sustentável. Em pouco tempo, conforme a visibilidade mundial da iniciativa, diversas redes hoteleiras passaram a aderir ao projeto.  A Accor já substituiu a iluminação artificial por velas em todos os hotéis da marca Novotel, a InterContinental Hotels Group (IHG) desligou as luzes dos letreiros, fachadas e dos jardins do InterContinental São Paulo, e a Meliá Hotels International distribuiu lanternas para os clientes dos empreendimentos que tiveram a iluminação interrompida durante a ação.


“O apoio do setor hoteleiro é muito importante, especialmente pela diversidade do público que frequenta as unidades e que, consequentemente, tem contato com a iniciativa. Por exemplo, uma atividade que chamou bastante atenção foi a do Hotel Marina, no Rio de Janeiro, que colocou na fachada um banner de seis metros de largura convidando a sociedade a participar do movimento”, afirma Laís Vasconcellos, analista de campanhas do WWF-Brasil.


A representante explica que a adesão é aberta para qualquer meio de hospedagem e os interessados podem entrar em contato com a organização para combinar ações da campanha. “O movimento permite que os hotéis criem diferentes formas de participação, desde apagar as luzes dos prédios, desabilitar um dos elevadores, até entregar informativos aos hóspedes e promover capacitações com os funcionários”, afirma Laís.



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