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2019
08
01

José Roberto Tadros fala sobre o potencial transformador do turismo

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Fim de tarde de uma sexta feira, e a hotelnews está no Rio de Janeiro (RJ). A vista é inspiradora: em primeiro plano, o Aeroporto Santos Dumont; mais ao fundo, o Pão de Açúcar. Este é o cenário que emoldura a primeira entrevista com o novo presidente da Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC), José Roberto Tadros, concedida a um veículo especializado.

O advogado manauara foi, por três décadas, presidente da Fecomercio Amazonas (AM). É um profundo conhecedor das dificuldades e das oportunidades do Brasil. Considerado um incentivador da cultura e do conhecimento, tem agora sob sua tutela, além de outras atribuições, a condução do Sesc e do Senac em âmbito nacional, e um orçamento de R$ 10 bilhões anuais. 

HOTELNEWS: Com 26 anos, já graduado em Direito, você teve que assumir os negócios da família. Como foi a incursão no universo da hotelaria?

JOSE TADROS: Os negócios da família originalmente eram o extrativismo, a navegação, a importação e exportação e a casa bancária, a qual funcionava em conjunto na época da borracha. Em 1965, no ciclo final da borracha, começamos a mudar de ramo. Ao longo de quase cem anos, de 1874 a 1964, época em que a empresa teve essas atividades, a região era considerada distante, sem outras atividades econômicas, e quem ganhava dinheiro aplicava em imóveis. Esse era o caso de nossa família, eram os chamados bens de raiz. Eu fui designado por meu pai para cuidar dos negócios em vários estados do país – Rio de Janeiro, São Paulo, Rondônia, Amazonas, Pará, entre outros. Tive de mapear todo esse patrimônio mobiliário e tentar preservá-lo. Faz parte desse patrimônio o Lord Hotel, foi fundado de forma experimental em novembro de 1959, no coração de Manaus. Foi um laboratório de incursão na hotelaria e, em sua primeira fase, contava com 20 apartamentos. A inauguração oficial aconteceu em 1965, com 58 quartos. Em 1972 meu pai adoeceu e veio a falecer dois anos depois. Foi aí que me inseri totalmente nos negócios da família, que incluíam já nessa época também o turismo. Embora minha experiência com o hotel tenha sido bastante fugaz, me proporcionou o conhecimento sobre o setor. Hoje, o Lord Hotel expandiu suas instalações e conta com mais de cem apartamentos. Por isso acredito no turismo como a grande oportunidade que ainda está reservada ao Brasil, embora esteja um tanto esquecido e um pouco abandonado.

HN: Você foi presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas de 1986 até este ano. Quais foram as principais ações da sua gestão para fomentar o turismo na região?

JT: A Fecomercio tem o objetivo de promover a atividade de comércio de bens, serviços e turismo, e nós sempre nos preocupamos com o turismo. Fazemos reivindicações em nível estadual e nacional para que haja um despertar de consciência. Muitos países do mundo vivem exclusivamente do turismo e, aqui, o setor terciário corresponde a quase 75% do PIB brasileiro. Sabemos que os efeitos do turismo são multiplicadores. O visitante chega e usa o carro de aluguel, o táxi, se hospeda num hotel, passeia de barco, vai a bares e restaurantes, compra bijuterias. O efeito multiplicador de gastos do turista é muito grande, não fica restrito. A distribuição da riqueza acontece de forma ampla e o turismo, via de regra, não destrói nada.

HN: Durante 32 anos você acumulou os cargos de presidente do Conselho Regional do Serviço Social do Comércio (Sesc) e presidente do Conselho Regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). Que marca deixou nesses?

JT: Todos esses anos à frente da entidade já são esclarecedores. Se eu não tivesse prestado um bom trabalho, não teria sido continuamente reconduzido. Esse trabalho, de uma forma ou outra, apareceu de maneira significativa, o que me fez ser o primeiro amazonense na CNC. Isso, por si só explica, mas vou além. Quando eu assumi a instituição, ela não se preocupava com um setor importante que é a educação. Hoje, o sistema tem a recreação infantil, a alfabetização, ensino fundamental, ensino médio e universitário. Temos faculdades do sistema no Amazonas, além de cursos profissionalizantes e da instrução para jovens e adultos.

HN: Como foi desenvolvido esse trabalho com a educação?

JT: Na minha gestão procuramos universalizar o ensino em todo o Amazonas, pois antes era concentrado na capital. Hoje são oito cidades do interior com cursos profissionalizantes do Senac e do Sesc, com as atividades de lazer, esporte e cultura. Sem dúvida, o maior desafio foi manter a entidade à margem de qualquer conflito ou interesses pessoais. Procuramos vocalizar os anseios da classe que representamos frente ao poder constituído do estado, sem conflitos e agressões. Nosso trabalho sempre foi pautado pela defesa irrestrita da atividade comercial, pois ela gera emprego, renda e tributos.

HN: A geografia e a densidade demográfica do seu Estado foram fatores complicadores?

JT: No Amazonas, a densidade demográfica é um desafio para disseminar conhecimento e treinamento, por isso interiorizamos. Nas cidades do interior com alta densidade populacional, construímos instalações fixas. Para outras, temos o único barco-escola do País, que singra o rio Amazonas, derramando cultura e conhecimento. Ele passa de seis meses até um ano naquela localidade e depois é deslocado. Agora estamos construindo o segundo barco-escola, em consórcio com o Sesc. Além disso, temos o novo conceito híbrido, que utiliza os barcos-escola para transportar contêineres que são instalados em outras cidades.

HN: Entre os cursos ofertados pelo Senac, existe algum voltado para o turismo e a hotelaria?

JT: Esses cursos você não encontra em municípios de baixa densidade populacional, apenas naqueles que têm demanda por turismo. Em Parintins, que tem o festival dos Bois, temos uma escola, além das unidades fixas em Itacoatiara e Manacapuru. Temos também a faculdade Senac de Manaus, que oferece cursos da área de hotelaria.

HN: Para o novo ciclo da CNC, o que o empresariado pode esperar da sua presidência?

JT: Faremos a defesa resoluta do sistema S, que é indispensável, trabalhando em conjunto com as Confederações da Indústria e Agricultura. Vamos esclarecer a população e as autoridades constituídas de que estes recursos são privados, não saem dos cofres públicos. Eles vêm do bolso do empresariado, que nos outorga o direito de preparar mão-de-obra em áreas onde o governo não está atuando, que são os cursos profissionalizantes.

HN: O comércio de bens, serviços e o turismo foram bastante afetados pela recessão econômica dos últimos anos. Qual a previsão de retomada do crescimento para cada um desses setores?

JT: Entendo que a economia ainda não começou a ter o crescimento esperado pela indefinição que havia sobre o resultado das eleições deste ano. Agora que foi anunciado o novo presidente, é preciso que ele demonstre compromisso com a democracia, pois assim a economia deslanchará em 2019.

HN: A instabilidade política tem sido apontada como um fator de fuga do investimento. Você acredita que isso será revertido a curto, médio ou longo prazos?

JT: Acredito que seja revertido a médio prazo, mas espero que o governo anuncie, em caráter permanente, que este país é capitalista. Uma sociedade só atinge a maturidade quando define seus processos políticos e econômicos.

HN: O País sediou dois grandes eventos que alavancaram o turismo, mas a infraestrutura - aos olhos do turista estrangeiro - segue precária. Qual sua opinião sobre isso?

JT: Pessoalmente creio que havia investimentos muito mais importantes, mas as coisas já aconteceram. Vamos olhar para frente.

HN: A alta do dólar movimentou em certa medida o turismo interno. Como perpetuar essa tendência?

JT: Primeiro, criando condições para facilitar a locomoção. Um bom exemplo é integrar os estados do Amazonas e Roraima ao resto do país por vias terrestres.

HN: Em nível nacional, quais são suas propostas para o Sesc e para o Senac?

JT: Na verdade os programas serão idênticos aos realizados no Amazonas, mas com uma visão macro. Os objetivos, sejam nos mais distantes rincões do país ou nos centros de decisão, vão produzir mudanças permanentes visando a modernidade. O presidente Antônio Oliveira Santos, que esteve à frente da entidade por 38 anos, entrega a casa arrumada para uma nova geração, mas vamos acelerar o processo, porque o Brasil e o mundo avançam e a CNC deve estar em consonância com essas mudanças.

HN: Durante sua campanha à presidência da CNC, falou-se sobre a instauração de um conselho de decanos. Como será constituído?

JT: Esta propositura visa criar um conselho de notáveis, onde vamos congregar os presidentes mais antigos do sistema, ou seja, os que estão há mais anos presidindo as federações e outros que já se afastaram, mas que têm experiência e sabedoria acumulada para nos orientar. Não é justo você dedicar uma vida a uma entidade e, de repente, ser aposentado. A idade não é importante, mas os atos e realizações.

HN: Antes mesmo de assumir a presidência da CNC, você falou que não ficará indefinidamente no cargo. Por quê?

JT: Minha pretensão é ficar só oito anos, mas da mesma maneira que eu não decidi ser presidente da CNC, apenas correspondo à vontade do grupo. Depois de 38 anos, o senhor Antônio seria reconduzido, mas decidiu não aceitar. Só por isso fui candidato e eleito.

HN: Como empoderar o turismo nas diversas Federações de Comércio?

JT: Eu vou dar apoio total ao Alexandre Sampaio, presidente da Cetur/CNC. Ele fará como Alexandre, o Grande da Macedônia: vai conquistando os espaços e eu vou na retaguarda ajudando.

HN: Como você vê as declarações do presidente da República eleito, Jair Bolsonaro, sobre o turismo?

JT: Tenho a impressão que o presidente Bolsonaro, e sua equipe, vão estudar para ter uma visão clara do Brasil. A partir disto, vai depender de nós influenciarmos a ele e aos que estão ao redor dele. Precisamos demonstrar o que nós empresários ansiamos e aspiramos em termos de política para o turismo. Vivemos permanentemente, devido à nossa origem colonial portuguesa, de esperar decisões do governo. Temos que nos antecipar e dizer o que queremos e termos coerência com aquilo que reivindicamos. A partir disto, não tenho dúvidas que ele produzirá mudanças e vai querer o melhor para o País.

HN: O sistema Sesc oferece hotelaria de lazer em todo o Brasil. Porém, os hoteleiros têm reclamado que em alguns momentos este sistema passa a ser concorrente. Qual sua opinião?

JT: A hotelaria não era acessível ao público de baixa renda. Os hotéis do sistema Sesc oferecem esse acesso ao turismo social de baixo custo e com pensão completa. Se a hotelaria tradicional nos enxerga como concorrentes, alguma coisa na cadeia do turismo brasileiro está errada.

 

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