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03

Entrevista com Celso do Valle, diretor do Palácio Tangará (SP)

Palácio Tangará, São Paulo

Com extenso currículo na hotelaria, em especial no setor de luxo, Celso do Valle é o diretor do Palácio Tangará, primeiro empreendimento da Oetker Collection no Brasil. Antes de assumir essa empreitada, o hoteleiro esteve à frente de hotéis como Emiliano e L’Hotel Porto Bay, ambos na capital paulista; e Belmond Hotel das Cataratas, em Foz do Iguaçu (PR), onde trabalhou por oito anos. 

Hotelnews: Você tem um longo currículo na hotelaria, principalmente em empreendimentos de luxo. Como avalia o setor no Brasil?

Celso do Valle: No início da hotelaria no Brasil, na década de 1960 e 1970, o típico hotel de luxo brasileiro ainda era familiar. Depois, quando vieram as grandes marcas, como Intercontinental e Hilton, se associava luxo com empreendimentos de grande porte e de marcas internacionais. No final da década de 1990 e começo dos anos 2000, os hotéis pequenos ganharam espaço: os boutique, como é o caso do L’Hotel, primeiro do tipo no país; o Fasano; e os design, com a abertura do Unique. Agora, há uma proposta diferenciada: sofisticação, detalhes, mas não necessariamente em empreendimentos de pequeno porte. Esse é o caso do Palácio Tangará, do Four Seasons; e do Rosewood (esses últimos ainda serão inaugurados na capital paulista), que têm projetos bem marcantes. 

HN: Como você vê os trabalhos da Embratur e do Ministério do Turismo?

CV: Acredito que enquanto o governo brasileiro não enxergar o turismo como uma prioridade, nós vamos passar o resto da vida comemorando seis milhões de turistas estrangeiros – levando em consideração que nem todos vêm a lazer e boa parte é proveniente de localidades vizinhas. Um país dessa dimensão, com clima ameno, sem fenômenos naturais, como terremotos e tsunamis, uma população extremamente receptiva e calorosa, quase sete mil quilômetros de costa, achar que essa quantidade é suficiente, é pensar muito pequeno. O governo precisa apoiar o turismo, pois ele é uma fonte de divisas e de empregos excepcional. É necessário ter projetos de curto, médio e longo prazos para que o Brasil passe a ser considerado um destino do mesmo patamar dos grandes do mundo. A Embratur e o Ministério do Turismo deveriam olhar o setor de forma mais prática e assertiva, e fazer do Brasil um destino de excelência em todos os aspectos. Para isso, é preciso pensar em tudo, na malha aérea, nos aeroportos, em segurança, até no sistema de transporte terrestre dentro do país, que ainda é muito carente. Não podemos ter a taxa aeroportuária mais cara do mundo, principalmente porque nossos aeroportos estão longe de serem os melhores. É preciso que haja compromisso com o País e não com partidos políticos. Os projetos devem durar dez, 15, 20 anos. 

HN: Você acredita que os grandes eventos foram positivos ou negativos para o turismo brasileiro?

CV: Não conseguimos sequer aproveitar um fato único: sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas no espaço de dois anos. Não tivemos nenhum legado dessa fábula de bilhões de reais gastos em tão pouco tempo, somente obras superfaturadas e políticos presos, esse foi o legado que tivemos. O que era Barcelona (cidade espanhola que sediou os Jogos Olímpicos em 1992) antes das Olimpíadas? E o Rio de Janeiro? Quando vai mal, o Brasil também vai, afinal ele é a principal porta de entrada de turistas no País. E se a cidade sofre por questões de segurança, os viajantes decidem ir para outro lugar. A segurança, sem dúvida nenhuma, é um fator fundamental. Se você pensar em americanos, europeus, asiáticos, por que eles vão correr um risco? Ninguém deixa de viajar para um lugar porque houve impeachment do presidente ou não. Mas a ausência de governo, seja Municipal, Estadual ou Federal, traz consequências para as cidades, em especial na segurança. As pessoas começam a repensar, ninguém quer correr risco se está viajando a lazer, apenas se tiver que ir a trabalho. 

HN: Como você avalia o potencial e a divulgação de São Paulo como um destino de lazer?

CV: Em dezembro do ano passado eu estava voando de Lisboa (Portugal) para Nice (França), e a pessoa sentada ao meu lado lia a edição londrina da revista Time Out, que divulgava o ranking dos dez melhores destinos para se divertir no mundo. São Paulo estava em sétimo lugar. Quantos lugares no mundo oferecem a diversidade de lazer que a capital paulista tem em termos de gastronomia, música, grandes shows, cultura, turismo de compras? A cidade possui uma infinidade de opções gastronômicas, que poucos lugares no mundo têm. Entretanto, quem a trabalha como destino de lazer? Nós, os hoteleiros. A cidade não faz nada para trazer os estrangeiros para cá durante o Carnaval. Não aproveitamos nem mesmo o momento difícil do Rio de Janeiro para dizer: venham para São Paulo. 

HN: O Palácio Tangará percorreu um longo caminho desde seu anúncio até ser inaugurado. Quais foram os maiores desafios enfrentados para a abertura do primeiro hotel da Oetker
Collection no Brasil?
 

CV: Foram os desafios naturais de uma abertura. A construção teve início em 1998 e foi paralisada em 2001. As obras ficaram paradas por 12 anos até o empreendimento ser vendido e depois foram retomadas em 2013. Em 10 de maio de 2017, o Palácio Tangará foi finalmente inaugurado. Portanto, entre o início da obra e a inauguração se passaram 19 anos, um período muito longo. Foram vários desafios, desde a própria conclusão da obra, montagem, preparação do hotel, contratação de mão de obra, divulgação. Recebemos sete mil currículos, de muita gente qualificada, para 300 vagas. Tivemos a felicidade, também, de trazermos de volta para o País brasileiros que haviam saído há muitos anos em busca de um desenvolvimento profissional, e que consideraram que, voltar para o Brasil para ocupar uma posição no Palácio Tangará, seria a continuidade da evolução de suas carreiras. 

HN: Além da Oetker Collection, outras redes de luxo estrearão em São Paulo, como é o caso da Rosewood e do Four Seasons. A cidade tem demanda suficiente para todos esses empreendimentos? Ainda há espaço para a hotelaria de luxo crescer na capital paulista?

CV: A abertura desses empreendimentos vai gerar mais empregos e elevar o padrão da hotelaria na cidade, tirando todos de sua zona de conforto. Qual foi o último hotel aberto na cidade antes do Palácio Tangará? O Grand Hyatt há 15 anos? Isso deixa os empresários acomodados. Rosewood e Four Seasons são marcas fortes, com divulgação muito consistente no mundo, o que eleva o nível de exigência e de padrão médios dos hotéis. Além disso, irá qualificar a mão de obra. Há mercado para todos. 

HN: Recentemente foi anunciada a estreia de mais duas redes internacionais de luxo no Brasil: Six Senses, no Rio Grande do Norte; e Anantara, que irá administrar o Kiaroa, na Bahia. Você acredita que a chegada de marcas de alto padrão irá colocar o Brasil na rota do turismo de luxo mundial?

CV: Acho isso incrível. Não sei se irão colocar o Brasil na rota do turismo de luxo, mas os empreendimentos darão uma visibilidade muito maior do que temos hoje. O Kiaroa tem uma divulgação muito tímida, mas é um local interessante; você chega de ‘aviãozinho’. E para pagá-lo é necessário vir para São Paulo, que tem um empreendimento do mesmo grupo (Tivoli Mofarrej São Paulo), o que irá gerar uma sinergia. Quanto mais marcas de luxo tivermos no Brasil, melhor. É importante divulgar o país todo, o Rio Grande do Norte, do Sul, a Bahia, São Paulo, não somente o Rio de Janeiro, Carnaval, Réveillon na praia, e o Pantanal. 

HN: Quais são os maiores diferenciais do Palácio Tangará em relação aos hotéis de luxo já existentes em São Paulo e os que ainda serão inaugurados?

CV: O Palácio Tangará tem como proposta oferecer para o mercado uma hotelaria rica em detalhes, focada em

surpreender o cliente em tudo que o hotel oferece, seja em espaços, serviços, gastronomia, um perfil que não estava disponível na cidade. A ideia é que nosso hóspede fique no Palácio Tangará e não precise sair daqui para nada. Você vai encontrar seus amigos? Traga-os para cá. Vai ter um jantar de negócios? Faça-o aqui. Queremos ser um oásis dentro da capital paulista, poder “sair de São Paulo” sem precisar viajar. Não existe, hoje, nenhuma outra proposta hoteleira como a nossa, pela própria característica do projeto, pelo espaço do terreno, pelo conceito. O hóspede cruza a porta da recepção e continua na propriedade, não sai direto na rua, o que oferece uma condição de segurança e isolamento. Estar dentro do Parque Burle Marx é um benefício. Em qualquer parte do hotel, seja no lobby, no restaurante, nos quartos, você tem o verde em primeiro plano. Nosso menor quarto tem 47m², uma qualidade única na hotelaria, em especial se pensar no perfil de construção mais recente, onde os espaços sociais são privilegiados em detrimento do individual. Além disso, o pé direto elevado e muita luz natural dão uma percepção de residência, para as pessoas se sentirem em casa. 

HN: Uma das controvérsias em relação ao Palácio Tangará é sua localização. Há quem diga que é longe e fora de mão. Como vocês estão trabalhando essa questão?

CV: Se você pensar no hóspede estrangeiro que chega pelo aeroporto internacional, a distância de Guarulhos para cá ou para os Jardins é a mesma. A ponte inaugurada nas proximidades no ano passado foi um ganho expressivo e, ao cruzá-la, você estará na Marginal Pinheiros. Daqui para o aeroporto de Congonhas são 20 minutos. Se sua prioridade na cidade é uma agenda de reuniões na avenida Paulista às 8h30 da manhã, aqui não é sua melhor opção de hospedagem. Por outro lado, existe um deslocamento corporativo da Paulista para essa região mais próxima do Palácio Tangará, como a avenida Berrini. Não vemos nossa localização como uma desvantagem; pelo contrário. Estamos muito próximos do miolo, do centro financeiro, do corredor da moda, da Oscar Freire e redondezas, mas aqui você consegue se sentir isolado desse grande ‘burburinho’. O hóspede pode considerar que está dentro da capital, e acessível em curtíssimo tempo para qualquer área da cidade, mas consegue, ao mesmo tempo, se isolar, quando quer, no Palácio Tangará. 

HN: Qual o balanço das operações do Palácio Tangará até o momento?

CV: Fechamos o mês de novembro com 63% de ocupação, o que foi muito gratificante. Agora temos o período até o Carnaval pela frente, que tipicamente são os piores meses da cidade para a hotelaria. Tivemos uma receptividade grande do público: em geral registramos 80% de ocupação aos finais de semana e boa parte desse público é composta por paulistas e paulistanos. Acreditamos que nossa concorrência geográfica no segmento de luxo tem uma queda grande na ocupação nos finais de semana. Nos consolidamos mês a mês, o que nos deixa extremamente otimistas e convictos. O Palácio Tangará trabalha muito bem nos segmentos de lazer e corporativo, que podem parecer incompatíveis dentro de uma mesma propriedade. Não somos um resort, mas temos tudo o que eles têm: duas piscinas semiolímpicas, academia high-tech, a gastronomia vem sendo um sucesso desde a abertura – o restaurante Tangará Jean-Georges, assinado pelo chef Jean-Georges Vongerichten, é um sucesso. Isso sem mencionar os eventos. Já contamos com 29 casamentos agendados para 2018. Temos uma característica muito única, de sermos cercados por um terraço e uma floresta tropical, o salão principal tem pé direito alto e muita luz natural. O salão já está pronto; não precisa ser vestido para uma festa, os noivos precisam apenas dar o seu toque pessoal. 

HN: Quais são as expectativas do hotel para 2018?

CV: Uma de nossas prioridades é ganhar ainda mais visibilidade e nos consolidarmos como uma alternativa em São Paulo, no sentido de que a experiência que você vive aqui não é encontrada em outro empreendimento da cidade. Nosso grande desafio é estarmos, ainda, em um ano de incertezas políticas e financeiras, mas elas apresentam uma forma de sobreviver e chegar ao outro lado com mais musculatura. Recentemente promovemos uma noite de Blues e Jazz às quintas-feiras e deu muito certo, e elas voltarão em fevereiro. Apresentaremos novidades em nossos cardápios, pois temos clientes que já vieram 25 vezes em seis meses e meio, então, eles esperam coisas novas. O brunch é um produto recente e que está indo muito bem.

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