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2016
03
10

João Dória Jr - Maior ativo do turismo brasileiro é o povo

JOÃO DÓRIA JUNIOR, ENTREVISTA

Eleito por três anos consecutivos como uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil e do mundo pela revista IstoÉ, o jornalista, publicitário e empresário paulistano João Dória Jr, presidente do Grupo Doria, faz nesta entrevista exclusiva à hotelnews uma retrospectiva dos cinco anos de atuação no setor público. Dos desafios da época, destaca pontos que até hoje seguem como entraves ao pleno desenvolvimento do setor, e termina com uma avaliação sobre a hotelaria brasileira.

HOTELNEWS - O senhor presidiu a antiga Paulistur de 1982 a 1985, e a Embratur de 1986 a 1988, o que destacaria como pontos principais da sua atuação no setor público?

JOÃO DORIA JÚNIOR – Entrei para o turismo pelas mãos do então prefeito Mário Covas, como presidente da Paulistur e secretário de Turismo do Estado de São Paulo, onde fiquei por quase três anos, até ser convidado pelo presidente José Sarney para assumir a Embratur. Em ambas as ocasiões, tivemos uma gestão muito dinâmica, porque eu vinha do setor privado, assim como todos os nossos colaboradores. Implantamos, por exemplo, o Passaporte São Paulo, que depois foi a base para a criação do Passaporte Brasil, o mais vigoroso programa de incentivo de turismo doméstico da história do País, que funcionava junto com as companhias aéreas, a hotelaria, as agências de viagens que operavam os pacotes turísticos e os shopping centers, que naquela época começavam a se desenvolver no Brasil, já associados a essa iniciativa, que foi realmente um grande sucesso. Depois lançamos as praças de lazer, como Ruas do Choro, do Samba, a Praça Doce, a Praça do Forró e tantas outras atividades, visando valorizar o lazer em São Paulo e estimular que pessoas de cidades e estados vizinhos pudessem vir à cidade e passar um fim de semana diferente. Modernizamos as instalações do Anhembi, construímos o auditório Elis Regina, reformamos todo o pavilhão de exposições, o Palácio das Convenções, criamos vários programas voltados ao turismo da terceira idade, como o Clube da Maior Idade, depois os Albergues da Juventude, enfim, organizamos o Plano Diretor de Turismo da cidade, que foi colocado em prática por muitos anos. Na sequência, a convite do presidente Sarney, assumi a Embratur, por dois anos e sete meses, um período curto, mas muito fértil e saudável, onde criamos o Passaporte Brasil, como disse antes inspirado na experiência do passaporte são Paulo, institucionalizamos o programa dos Albergues da Juventude, que até hoje auxilia os jovens a viajarem com segurança por todo o Brasil, e o Clube da Maior Idade do Brasil, que oferecia descontos de 50% nas viagens rodoviárias na baixa estação a pessoas com mais de 65 anos, um programa que teve continuidade em diversos estados brasileiros de forma muito vigorosa, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Criamos também a regulamentação para os hotéis de selva, que ainda não existia, dando início ao turismo ecológico, hoje chamado turismo ambiental ou sustentável; e instituímos a acessibilidade na hotelaria, em 1986, tornando obrigatória a instalação de rampas, elevadores e apartamentos adaptados. Foram contribuições que me honram e me dão muita alegria.

HN- O que destacaria como principais desafios do setor na década de 1980?

JDJ – Alguns eu diria que se mantém até hoje porque as políticas que são desenvolvidas no Brasil avançam e depois retroagem, não têm continuidade. Volto a ressaltar que depois desse período, o País só voltou a ter planejamento de turismo no governo FHC, com a criação do Ministério do Turismo, sob o comando de Caio Luiz de Carvalho. Só então, quase dez anos depois, retomaram-se os programas que nós tínhamos iniciado e implementado na Embratur. A questão da mão de obra, por exemplo, ainda é um desafio que se mantém até hoje. Um dos programas bem sucedidos que conduzimos na época foi o Formatur, uma instituição com capital público e privado, principalmente com atuação da hotelaria, que atuava no treinamento de mão de obra qualificada para o turismo. Cito como um dos exemplos o trabalho de um ano realizado junto com o governo do Amazonas no treinamento de caboclos, os ribeirinhos locais, para que eles pudessem se tornar guias turísticos, porque ninguém melhor do que eles para navegar nos mangues e nos rios, e conhecer a fauna e a flora locais. Esse treinamento permitiu que eles passassem a ter uma renda específica advinda do turismo, e deixarem de ser tentados a aceitar propinagem de assassinos da floresta que pagavam a esses caboclos para derrubarem árvores e promoverem o comércio ilegal de espécies brasileiras. Criamos ali um programa modelo, premiado internacionalmente por preservar a vocação da floresta e a atividade econômica, e a sustentabilidade dos ribeirinhos, dando-lhes ensinamento, instrução e uma renda permanente e principalmente legal.   

HN - Nessa época o setor era atrelado ao Ministério da Indústria e Comércio, depois passou a ser dividido com o Esporte e só em 2003 ganhou uma pasta própria, o senhor diria que esse foi o principal avanço desde então? 

JDJ - A constituição do ministério foi um marco importante, uma vitória do presidente Fernando Henrique Cardoso, que deu peso político à atividade do turismo, e isso ajuda bastante, porque essa é uma atividade que envolve muitos setores, não é um segmento que atua isoladamente, mas em conjunto com saúde, justiça, infraestrutura, cultura e esportes. A elevação do setor ao status de ministério facilitou muito a implantação de políticas públicas na área do turismo e isso de fato só aconteceu na dimensão correta com o presidente Fernando Henrique Cardoso, especialmente no segundo mandato. 

HN - A captação do mercado estrangeiro, no entanto, segue como desafio há várias gestões. O senhor diria que faltam investimento e força em ações semelhantes do Brasil no exterior ou a questão é mesmo estrutural?

JDJ – Temos desafios estruturais e de qualificação de mão de obra, mas falta também uma ação promocional eficiente. O Brasil é um grande destino turístico mesmo com as deficiências que tem, mas se ele não for promovido adequadamente as pessoas não virão aqui. Um país que tem o seu mais elevado e importante ativo, que é o seu povo, não explora isso. Esse é o grande legado desta Copa do Mundo. Se você perguntar a dez turistas estrangeiros no portão de saída - aeroporto, rodoviária ou fronteira -, eles vão dizer que o que mais gostaram foi o povo. É a melhor lembrança que terão do Brasil. Nossa natureza é alegre, descontraída, musical, afetiva, compartilhadora, sejam brancos ou negros, pobres ou ricos, os brasileiros são iguais nesse sentido, esse é o nosso diferencial, mas não exploramos isso. Venham conhecer o povo mais alegre e feliz do mundo, porque é isso que só nós temos. Outros destinos têm praias tão bonitas quanto as nossas, atrativos de selva ou montanhas e infraestrutura muito melhores, mas povo como o nosso não há. Na época da Embratur nomeamos o Pelé como embaixador do Turismo do Brasil e com ele participamos das principais feiras internacionais. Ele é uma mídia espontânea extraordinária até hoje, um personagem identificado com o Brasil. Em cada feira internacional de que participávamos com o Pelé nós acabávamos com a participação dos outros países. Também nessa época lançamos, mundialmente, o programa Discover Brazil. Escolhendo voar com uma companhia aérea brasileira, os turistas podiam adquirir o Passaporte Fly to Brazil, por US$ 100 ou US$ 200, que dava direito a visitar sete ou 14 cidades, respectivamente.  Experiências boas, dignas e que me deixam sempre muito feliz por terem sido feitas por um time de profissionais e pessoas apaixonadas pelo turismo até hoje, muitos ainda desenvolvendo seu trabalho nesse setor.

HN - A hotelaria é um vetor forte do turismo e teve impulso nas últimas décadas com a chegada de grandes redes, o senhor acredita que o país é competitivo nesse quesito?

JDJ – Nossa hotelaria não é competitiva porque ela tem um preço muito elevado. Ela é pouco preparada e deficiente em mão de obra, a começar pelo idioma. A quantidade de pessoas que atuam em hotéis de quatro e cinco estrelas que não dominam o inglês é surpreendente. Podemos encontrar alguns no front desk, telefonistas, o maitre, mas poucos têm o domínio pleno de pelo menos mais uma língua, como o inglês que é usado mundialmente. Falta um amplo programa de ensinamento de línguas, e investimento por parte dos empresários da hotelaria em qualificar o seu profissional e, ao 

qualificá-lo, remunerá-los melhor. Eu entendo que a elevação no preço de uma tarifa não corresponde ao investimento no treinamento profissional, e nem na qualificação de valor desse profissional, há um gap aí. Talvez os hoteleiros não gostem de saber disso, mas mesmo entendendo que eles têm uma carga tributária muito grande, por vezes até injusta, o custo médio de apartamento no Brasil chegou a um patamar totalmente desequilibrado com a qualidade do que oferece. O Brasil hoje tem tarifas de Londres com serviços de Bangladesh. Não é compatível  querer enganar o turista cobrando diárias de até US$ 1,3 mil dólares, oferecendo um atendimento em que o garçom, por exemplo, não sabe interpretar o pedido do hóspede quando é solicitado; ou quando a internet não funciona, as toalhas não são da melhor qualidade e a água não tem o tratamento adequado. É preciso que o setor privado tenha consciência de que pode melhorar. É legítimo que ele obtenha lucro, que busque seu resultado, porque só assim poderá crescer, mas é preciso investir também, para que nossa hotelaria possa se consolidar e passar a ser respeitada, na medida em que ao praticar tarifas mais elevadas, o hóspede ao sair possa dizer que valeu pelo que pagou.   

RH - Para alguns especialistas faltam projetos de luxo que atraiam os mercados emergentes. Que análise o senhor faz da nossa oferta hoje, na comparação com destinos consolidados no Caribe, por exemplo, para citar um grande concorrente?

JDJ – O Brasil está longe ainda desse mercado de luxo, não temos um Mandarin Oriental, um Four Seasons, um Ritz Carlton, redes hoteleiras que já estão na América Latina, mas não aqui. Só quando se tem essa oferta é que se consegue estar inserido no mapa do turismo de luxo. Enquanto não tiver não insere. O governo, aliás, deveria olhar pra isso e incentivar a vinda dessas bandeiras junto com investidores brasileiros, encabeçando projetos que viabilizassem a exploração desses empreendimentos hoteleiros aqui. O mesmo ocorre com os hotéis boutique, os poucos que existem no Brasil são nacionais, alguns muito bons por sinal, mas que não estão inseridos no mapa porque não pertencem a redes internacionais. A Aman Resorts, de Singapura, que possui um dos melhores hotéis boutique do mundo, de praia e de montanha, estão na América Latina e no Caribe, mas não no Brasil. E quem frequenta um Aman e gosta passa a frequentar vários Amans pelo mundo. Ou seja, não estamos atendendo essa demanda internacional. Mesmo para os brasileiros hoje é mais barato passar uma semana no Aman Yara, em Turks and Caicos, por exemplo, via Miami e voando em classe executiva, do que em um resort em Itacaré, no Sul da Bahia. Não estou desconsiderando a existência de redes importantes que já estão no Brasil, como a Accor, a Sheraton ou a Hyatt, que tem aqui hotéis de grande qualidade, mas não a sua linha mais sofisticada. A Argentina tem mais hotéis internacionais de luxo que o Brasil, um país que é dez vezes menor e que também não tem um fluxo turístico muito elevado, mas possui hotéis de bandeira que ainda não temos. Sem desrespeitar as redes que já estão aqui, temos um mercado enorme para crescer e inserir o Brasil nesse contexto.

* Entrevista publicada na edição 381

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